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Empresários juniores de minas buscam projetos, ideias dignas de gênios e conquistam o mercado. acreditam que é hora de ficarem caros
Terezinha Moreira
Edição 132 - 04/07/2014

Igor Coelho/Agência i7

Agora, não é hora de ganhar dinheiro, é hora de ficar caro. É este lema que os alunos selecionados para integrar a equipe da UFMG Consultoria Júnior (UCJ) costumam adotar em sua passagem pela empresa júnior da Faculdade de Ciências Econômicas (Face). A ideia dos estudantes é que ali – onde são voluntários – é lugar para se dedicarem, aprenderem na prática o que é visto na sala de aula, conhecerem a realidade do mercado, desenvolverem projetos, executá-los e encantarem as empresas com suas ideias dignas de pequenos gênios, com visões inovadoras e muita disposição e capacitação para liderar e vencer os desafios do dia a dia de uma empresa. Os alunos que permanecem nas empresas juniores são os que realmente sabem o que querem e, normalmente, têm em mente o que pretendem de seu futuro profissional. E não são nada modestos quando falam sobre isso, mesmo porque são instigados a serem os melhores. “Estar na UCJ é abrir mão de sua zona de conforto. Os que não querem isso não vingam aqui”, define a diretora de Recursos Humanos da consultoria da UFMG, Mariana Soares Amorim, para quem a UCJ é uma incubadora de talentos e de desenvolvimento de pessoas.

A UCJ é uma das mais antigas empresas juniores do Brasil. Foi fundada em 1988. Por meio dos alunos dos cursos de economia, administração, contábeis, controladoria e finanças, economia e relações econômicas internacionais, oferece projetos com custo de apenas 10%, em média, do valor de mercado, para empresas de todos os portes nas áreas de estratégia, recursos humanos, marketing, processos de qualidade e estudos de viabilidade econômica, o mais procurado. Apesar de os responsáveis pelo trabalho serem apenas estudantes que mal saíram da adolescência, o resultado reflete o comprometimento deles e sua visão de futuro, em comportamento que não deixa nada a desejar a um profissional experiente.

Além de desenvolverem o trabalho na UCJ, os empresários juniores também recebem treinamentos e são capacitados por meio de parcerias. A UCJ é, ainda, associada à Associação Comercial e Empresarial de Minas Gerais (ACMinas), à Câmara Americana de Comércio (Amcham) e à Júnior Achievement, entidade para a qual cede voluntários. Os empresários juniores são potenciais profissionais de sucesso e, de olho nisso, algumas empresas, como o Banco Itaú, fazem processo seletivo específico para eles. “E a tendência é de que isso aumente”, observa Mariana Amorim. Segundo ela, ser um empresário júnior potencializa as chances de avaliação dentro das empresas, pois, nas demandas que a UCJ recebe das companhias para estágios e programas de trainees, isso é posto como fato relevante.

Não é à toa que isso ocorre. “A UCJ faz com que a gente adquira maturidade profissional e competências pessoais. Aqui, somos treinados, orientados e conseguimos um up além da parte teórica que aprendemos na sala de aula”, diz Mariana Amorim, que está há mais de 1 ano e meio na UCJ e já chegou a cargo de diretoria. “Nesse período vi muita gente daqui se destacar no mercado de trabalho em empresas como Vale, Anglo American, Microsoft, já contratadas antes de concluírem a graduação porque as empresas querem reter talentos.” Mariana afirma que aprende na UCJ técnicas para trabalhar com gerenciamento de pessoas e saber lidar com recurso humano. “Muitas vezes, o gerenciamento de pessoas não é bem feito e isso interfere no desenvolvimento da empresa”, reflete ela, que está no 6º período de administração.

Depois de 2 anos e meio na UCJ, a estudante do 7º período de economia Júlia Salgado faz estágio em sua área de graduação na Anglo American desde agosto de 2013. “Minha passagem pela UCJ foi fundamental para conseguir esse estágio. Tive apanhado geral na empresa júnior e estou aprofundando meus conhecimentos dentro de minha área de atuação”, conta Júlia. Acredita também que o trabalho na UCJ também proporcionou o desenvolvimento no tratamento com as pessoas, o gerenciamento de projetos com qualidade, a relação com o cliente, a experiência de vendas. A história da estudante com a mineradora começou no desenvolvimento de um projeto que ela fez para a Anglo American. “Meu desempenho nesse trabalho me proporcionou um estágio diferenciado, de altíssimo nível, que me põe em contato com atividades relevantes.” Aos 20 anos, Júlia ensina que sempre se coloca em situação desconfortável para evitar o comodismo.

No 8º período de economia, aos 22 anos, Mariana Lopes já é dona de seu próprio negócio, que, aliás, vai de vento em popa. Muito do que faz em sua empresa aprendeu nos anos em que passou na UCJ, em especial, no núcleo social, que promove ações de responsabilidade entre a comunidade e a UFMG. Mas ela também foi gerente de projetos. “Tudo isso foi fundamental para aplicar em minha empresa”, conta Mariana, que tem outros 3 sócios de áreas diferentes para agregar conhecimentos. Eles não são somente precoces como empresários, mas são também inovadores. Criaram a In Power, escola de inovação, que trabalha com a reestruturação de disciplinas e currículo. A In Power tem contratos de parcerias com 18 escolas em 5 países e é com base nelas que os conhecimentos são aplicados nas escolas brasileiras.

“Trazemos os problemas das empresas para a sala de aula e os alunos desenvolvem soluções com metodologia diferenciada. Unimos os interesses das empresas com os dos alunos. Estes têm acesso a novas metodologias e as empresas ganham na possibilidade de solucionar seus problemas e ainda têm chance de descobrir novos talentos para seus quadros”, diz Mariana Lopes. A In Power presta serviço para a UFMG, onde trabalha com 355 alunos nos 7 cursos de engenharia. O retorno financeiro da empresa, criada há quase 1 ano, já é satisfatório. “Mas também temos retorno social fantástico.” Segundo Mariana, a ideia da In Power surgiu quando ela, insatisfeita com as aulas tradicionais, em que os professores são os detentores do conhecimento e os alunos, o contrário. “As coisas mudaram e o ensino brasileiro não acompanhou essas transformações. Na In Power, a tecnologia é usada como base de conhecimento, o que falta nas escolas convencionais.” Para o futuro, ela diz que pensa em investir cada vez mais na In Power, trabalhar com escala e eficiência. “Vejo a educação como ferramenta de transformação social e, por isso, estamos caminhando a passos largos”, diz.

Um caso pouco usual, Marina Dourado, que está no 4º período de administração, entrou na UCJ já no 1º período do curso. Ela foi consultora e fez projeto de pesquisa de mercado. “É preciso muito sangue no olho para que a pesquisa tenha resultado bacana”, ensina. Foi na UCJ que ela escolheu o marketing como a área que quer atuar profissionalmente. A consultoria também foi importante para que desenvolvesse um bom jogo de cintura, análise crítica dos dados e pensamento mais amplo. “Os clientes veem nos empresários juniores uma forma de inovação em suas empresas”, diz Marina, que nem chegou à metade da graduação e já tem bastante carga profissional. “A área de marketing no Brasil ainda tem muito a melhorar. No momento, estou descobrindo como uma multinacional funciona”, conta a estudante, que conseguiu estágio na área de marketing na Prudential. Mas seus projetos são para explorar seu lado empreendedor. “O start up é visto como um futuro próspero.”

Essa visão é muito bem vista pelo mercado, que não pensa duas vezes em priorizar os currículos dos empresários juniores. No caso da Elo Group, por exemplo, 80% dos consultores contratados no escritório de Belo Horizonte passaram por uma empresa júnior. Em Brasília, também é alto esse índice. O economista formado pela UFMG e consultor da Elo Vinícius Ribeiro é um ex-empresário júnior. Ficou 2 anos e meio na UCJ, onde se encantou pela carreira que escolheu. “Foi um complemento fundamental para o curso, pois já entrei no ambiente de várias empresas e consegui aplicar a teoria da sala de aula e ainda criei uma rede de relacionamentos no mercado muito importante.” Ele diz que a opção maior por quem está ou esteve nas empresas juniores é pelo fato de esses estudantes já desenvolverem competências que são fundamentais no mercado de trabalho. Uma delas é a proatividade. “Quando contratamos alguém, já queremos uma pessoa que pegue um trabalho e o toque sozinha.” Para facilitar as contratações, a Elo Group tem parceria com várias empresas juniores de todo o Brasil. “Criamos relacionamento com as empresas, identificamos quem serão os bons profissionais e os contratamos”, afirma Vinícius.

Normalmente, os empresários juniores tornam-se voluntários nas consultorias aos 20 anos. Mas a história de Alan Santana, 27, do 7º período de administração da PUC Minas e atual presidente da PUC Consultoria Júnior, é um pouco diferente da de seus colegas porque fez opções na época em que, teoricamente, deveria ter ingressado na universidade. Ele trancou a matrícula e fez 5 anos de intercâmbio. Adquiriu outros conhecimentos. Quando retomou os estudos, viu na empresa júnior possibilidade de crescimento pessoal e, claro, de também se mostrar para o mercado, por meio dos projetos desenvolvidos. “Já tinha boa experiência no mercado e de vida, mas me faltava oportunidade de desenvolver melhor o meu lado interpessoal e de liderança”, diz Alan, para quem a experiência em uma EJ não é oferecida em nenhum estágio ou programa de trainee.

Não é à toa que os empresários juniores são preferidos nos processos seletivos. É que as EJs deixam seus voluntários mais bem preparados para enfrentar o mundo corporativo porque exigem deles conhecimento e gestão não somente das empresas em si, mas de crises e conflitos também. O estudante do 5º período de Economia da PUC Minas Gabriel da Mata, 21, que o diga. Ele ingressou na consultoria júnior no início de 2012 e passou por todos os processos até chegar à presidência, da qual abdicou para assumir estágio no banco Votorantin. “A EJ desenvolve aptidões e você nunca sai como entrou. Ela nos prepara para o que o mercado quer. Minha experiência na consultoria júnior pesou muito no momento da entrevista não somente desse estágio”, conta Gabriel. Segundo ele, os voluntários das empresas juniores conseguem ter visão do futuro que não é possível no estágio, onde já chega mais maduro. “Os clientes não nos procuram em busca de um trabalho júnior, mas sênior.”

Gabriel da Mata diz que foi muito testado no tempo em que ficou na consultoria júnior da PUC Minas, em vários aspectos. “Eu era pouco proativo e aqui isso mudou. Tomo iniciativas de captar, vender e executar os projetos e isso demonstra que quem tem iniciativa possui a linha de pensamento de que quer sair na frente”, diz, afirmando que a proatividade está sendo muito utilizada no estágio. O melhor ainda para Gabriel é que está trabalhando na área de finanças, onde sempre quis atuar.

E, com isso, enxerga mais possibilidades de crescimento no Votorantin, que possibilita a seus funcionários o desenvolvimento interno.

De acordo com a coordenadora pedagógica da Faculdade IBS/FGV, Elma Santiago, o objetivo das empresas juniores é possibilitar aos alunos colocar em prática tudo o que veem na teoria, principalmente no que se refere à gestão e empreendedorismo. Mas, na IBS Consultoria Júnior, os alunos também são os responsáveis por ações dentro da instituição. “São eles que fazem o trote solidário com o intuito de trazer a consultoria para uma atuação mais social. Eles também organizam a Semana Gerencial na IBS, que são palestras direcionadas para a área.” Segundo Elma, por tudo o que os alunos aprendem ao participarem da EJ, vários conseguiram se destacar no mercado de trabalho já como profissionais contratados e não mais estagiários ou trainees. “Os alunos têm a possibilidade de focar no direcionamento de sua vocação e saem da faculdade direto para o mercado. Por isso, a tendência é de que as empresas juniores se fortaleçam cada vez mais.”

É isso que também espera a aluna do 7º período de engenharia de produção do IBS/FGV Anna Cristina Rezende Braga, 20 anos. Ela teve 1 ano e meio de experiência na Consultoria Júnior, sendo uma das responsáveis por sua reestruturação e eleita vice-presidente. “Deixei a consultoria para fazer intercâmbio, mas lá aprendi a tomar iniciativa com tudo. Também tive visão de mercado e aprendi a ter postura para conversar com clientes”, diz a estudante, que conseguiu estágio na área de planejamento e inteligência de suprimentos da Vale. Da empresa júnior adquiriu a vivência do mercado, já que lá participou de projetos como se fosse em uma empresa convencional. “Somos estudantes, mas precisamos ter postura de profissionais porque existem acordos que devem ser feitos e ainda podem aparecer problemas no meio do caminho, que precisam ser solucionados”, ensina Anna Cristina.

O administrador de empresas Rodolfo Zhouri, 28, que se graduou na UFMG, teve na UCJ, onde ingressou no 2º período, uma grande escola. Atualmente, ele é diretor de novos negócios da ABC da Construção, rede de varejo de materiais de acabamento de Minas, com 32 lojas em 20 cidades e faturamento de 250 milhões de reais. Não por acaso, Zhouri lidera a área de inovação da empresa e foi o responsável pela criação do programa de relacionamento com arquitetos, decoradores e designers. É o diretor mais jovem da rede. “Há muita cobrança por resultado e tento aplicar a cultura da empresa júnior aqui.” Segundo ele, na UCJ, foi alocado para um dos maiores projetos de redesenho de processos para call center, elaborado para a Cemig, onde ficou por 1 ano. “Esse projeto abriu minha cabeça, expandiu meus horizontes profissionais”, relembra, com orgulho também por ter ajudado a organizar um dos maiores encontros mineiros de empresários juniores na época.


Rodolfo Zhouri diz que o nível de aprendizado na UCJ é profissional. “Era treinado para ser consultor, aplicar ferramentas de gestão em um negócio. Como estagiário, não teria o desenvolvimento que tive na consultoria júnior, que foi um divisor de águas na minha carreira.”Outro ponto fundamental para o administrador foi que a UCJ o mostrou que suas atitudes, dentro de qualquer organização, são importantes e que ele mesmo conseguiria impactar sua promoção nas empresas. Como um ex-empresário júnior atuante, Zhouri sabe bem da importância desse processo na vida de um futuro profissional e sempre trata com mais carinho os candidatos nessa condição. “O simples fato de ter passado por uma empresa júnior acrescenta ao candidato, mas se ele se entregou ao processo, conquistou postura de proatividade, pré-disposição e espírito empreendedor, com certeza, se destaca”, pondera Rodolfo Zhouri, que revela seus sonhos: “Quero fazer a ABC ser um case de sucesso, mas também pretendo empreender com pessoas do mundo todo.”




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