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Filhos eternos

Eles se foram, na inversão da lógica natural, e elas seguem com seus sentimentos, lembranças...
Fernando Torres
174 - 06/05/2016

A mãe que enterra um filho subverte a sequência do ciclo da vida. Assim estabelece a biologia e a cultura. O mundo metafísico, porém, se priva de sentido e coerência. Nada é assegurado, nada é totalmente garantido. Em vez de se apegar ao tempo, a ordem da morte marcha também ao ritmo de doenças, acidentes e crimes. Incidentes como esses, anunciados ou silenciosos, mas sempre violentos, açoitam em cheio a maternidade, sem ver classe social, cor da pele, idade ou profissão. Mais que inverter a lei natural, a mãe que perde a prole desce ao purgatório ainda em vida.

Pedro Vilela/Agência i7

Reorganizar-se na avalanche do luto é um processo repleto de melancolia e angústia. “Há o tempo individual, o respeito a si mesmo e os modos de ver o mundo”, opina Sônia Pessoa, mãe de Pedro, que faleceu no início deste ano. Algumas se voltam para a religião, outras culpam a Deus pelo caos. Não raro, a dor leva à depressão; em contraponto, pode indicar o caminho do autoconhecimento, de novas prioridades.

Seja qual for crença ou direção seguida, entidades de auxílio ao luto e à perda facilitam o processo de readequação. Lançada por um grupo de 7 mulheres, o projeto digital Vamos Falar Sobre o Luto? engloba diferentes tipos de perda, sempre com o objetivo, como o próprio nome diz, de estimular a exteriorização vocal da dor de famílias enlutadas. “Muita gente acha que ajudar é cortar o assunto, evitando o baixo-astral. Pelo contrário. Quem sofre necessita ser ouvido, precisa viver a experiência. Falar de quem partiu tira o peso, mesmo que uma parte do percurso seja dolorida”, pondera a publicitária Rita Almeida, uma das fundadoras do site – há 4 anos, ela perdeu o filho Paulo, de 28, vítima de um ataque súbito do coração. 

Em Belo Horizonte, a Rede de Apoio a Perdas Irreparáveis (API) também tem a missão de tornar o luto um assunto possível. “De imediato, a reação mais comum é a revolta, a necessidade de buscar um culpado ou se punir. Depois, vem o caminho que eu chamo de biodigestão, que digere a nova condição”, diz a psicóloga e fundadora do grupo Gláucia Tavares, que perdeu a filha Camile há 18 anos. Para ela, um aspecto importante nessa travessia é constatar que a morte valida a vida. “Vivemos de forma muito irresponsável, jogando conversa fora, matando o tempo e não prestando atenção na qualidade de nossas relações, que também são passageiras”, reflete. O projeto, atualmente, conta com 5 unidades no Brasil e 1 em Nova Iorque, e já ajudou aproximadamente 7 mil famílias.

Em homenagem à vida que persiste pelas lembranças além da morte, conversamos com 4 mulheres que experimentaram essa dolorosa situação. Cada uma a seu modo e por diferentes motivações decidiu seguir em frente e permanece em pontos distintos e ímpares do trajeto. Há, contudo, um elo entre cada uma das progenitoras que teve sua cria arrancada inesperadamente: a ligação com o filho nunca deixa de existir. Em vez disso, passa do estado corporal para o emocional, uma capacidade de amor que estabelece conexões para além da ausência.

 

Ana, mãe de Dudu

Pedro Vilela/Agência i7

Naquele dia, a professora Ana Marília Viana desistiu de almoçar na rua. Chegou mais cedo em casa e encontrou um amigo do filho à campainha. Com os olhos vermelhos, o mensageiro anunciou:

– O Dudu foi atropelado por um ônibus.

Em vez de ir para o futebol, como havia planejado, o rapaz de 17 anos foi levado para o pronto-socorro. Ana Marília foi atrás. Na porta do bloco cirúrgico, rezava para que o médico chegasse com boas notícias. Foi exatamente o contrário. Dudu não sobreviveu à hemorragia interna.

– A primeira reação foi de negação. Depois, passei a me preocupar também com a dor da minha filha mais velha. Ela se casaria 6 dias depois, e o Dudu iria entrar com ela na igreja. Com a tragédia, o casamento foi apenas no civil.

Na fase seguinte, Ana Marília buscou ajuda em terapia, medicamentos, religião. E também nas letras e no voluntariado. Incentivou a filha a montar uma ONG para crianças carentes, onde se dedica ativamente. Começou a escrever textos em jornais e encontrou a dor de outras mães, um dossiê que ela guarda com carinho.

– Aprendi a dar mais valor às pessoas e aos momentos felizes. Ajudar o próximo faz bem para a gente, nos preenche, nos deixa mais realizados. Vivo muitos momentos de felicidade, mas a dor está sempre viva. Não acaba, não cicatriza.

Em busca de espiritualidade, a professora se divide já há 7 anos entre missas católicas, livros e sessões espíritas, cultos evangélicos. Acredita ter recebido mensagens de Dudu, nome também de seu atual companheiro, que a pediu em namoro ao filho poucos meses antes do acidente.

– As coincidências da vida me levam a acreditar que existe outro lado, alguma coisa além disso aqui. Nesta hipótese, me preocupo em como o Dudu estaria neste outro mundo, se está bem, como encarou a ida dele, já que estava no auge quando se foi.

O equilíbrio, nos dias mais pesados, vem das orações, do tempo com a família e até mesmo das visitas ao túmulo.

– Quando sinto vontade, vou ao cemitério, levo flores, converso com o Dudu. Não é algo fúnebre; pelo contrário, me conforta. E aí, vou preenchendo os dias, com forças para levantar e viver.

 

Sônia, mãe de Pedro

Arquivo pessoal

Diagnosticado com hidrocefalia e um tumor benigno no cérebro, Pedro enfrentou desafios para se movimentar, falar e ler. Por 9 anos, ele e a mãe, a jornalista Sônia Pessoa, lutaram juntos. Até que, na manhã de 1º de janeiro de 2016, reclamando de dor de cabeça, o garoto desmaiou. E não acordou mais.
– Foi uma morte súbita, abrupta... Parecia que estava
em transe e imaginava que alguém iria me dizer que aquela vida não era a minha.
Apesar de todo o sofrimento, Sônia se manteve forte no hospital, onde foi declarada a morte encefálica. Fez questão de assumir todas as providências, de doação de órgãos ao funeral. Achava que devia ao Pedro uma despedida-homenagem. Quatro meses depois, busca alívio na força espiritual.
– Sinto que a energia positiva dele me impulsiona a trabalhar, a conviver com a família e com os amigos, a apreciar a natureza, a me exercitar e a, literalmente, viver. Percebo que reinvento o cotidiano todos os dias e, quando não me permito essa reconfiguração, as horas são mais difíceis.
No turbilhão de sentimentos, busca encontrar novos pontos de referência e de afeto. Tenta aliviar a dor com posts no Facebook e no site que construiu para falar da doença de Pedro.
– Algumas pessoas acham que estou deprimida, mas escrever me faz bem. Quebra os tabus de que não se pode falar sobre a ausência ou comentar sobre as coisas boas que vivi com meu filho. Também é difícil entender que posso sofrer, mas também sorrir e me divertir.
Os dias de Sônia, sem regras e receitas, misturam choro e sorrisos, na busca de testar os próprios limites e fronteiras, privilegiando escolhas que valorizam seu bem-estar. São momentos, segundo ela, inspirados no próprio Pedro.
– Me sinto grata por ter aproveitado cada minuto ao lado dele. A sua presença na minha vida teve como missão principal me despertar para um olhar diferente, que ainda estou aprendendo a encontrar.

 

Gláucia, mãe de Camile

Pedro Vilela/Agência i7

Na volta de um churrasco nos arredores de BH, o motorista alcoolizado, conduzindo mais 3 passageiros, derrapou na curva. No banco do carona, Camile, de 18 anos, caiu para fora do veículo. Foi a única a morrer.

Gláucia Tavares, mãe e psicóloga, fez questão de reconhecer o corpo no Instituto Médico Legal, ao lado do marido, para barrar o efeito de entorpecimento da notícia súbita.

– Não queria ficar anestesiada, mas sim estar presente no luto.

Os meses subsequentes foram marcados por um misto de serenidade e da complexa sensação de viver em marcha-ré. O constante devaneio sobre os frágeis limites entre vida e morte motivou Gláucia a criar um grupo para reunir e amparar pessoas enlutadas, a Rede API. Mais que isso, se autopropôs a escrever um livro, Do Luto à Luta, onde não apenas expurga a dor, mas também reflete sobre perdas e ganhos e abre espaço para parceiros homenagearem entes queridos.

Também se engajou em campanhas sobre prevenção de acidentes de trânsito, inclusive com o motorista que conduzia o volante que vitimou Camile.

– Sem revolta nem o objetivo de culpar, convidei-o a participar de nossas campanhas, justamente para que ele se conscientizasse sobre a importância de prevenir. Decidimos não processá-lo, para evitar o desgaste energético e emocional.

Ao longo de duas décadas – o acidente fatal aconteceu em 1998 –, Gláucia discorda do uso da palavra superação. Diz que a morte de um filho não se supera, pois, mesmo sem a presença física, a relação amorosa e as lembranças continuam vivas.

– Prefiro o prefixo Re-, de reconstruir, reinventar, reordenar, recomeçar.

 

Fernanda, mãe de Thiago

Pedro Vilela/Agência i7

–Até pouco tempo, fantasiava que era mentira, que o Thi havia viajado e iria voltar. Mas, hoje, sei que não. Choro todos os dias, mais agora do que quando ele faleceu.

O desabafo vem da empresária Fernanda Brandão, que perdeu o filho de 8 anos há 14 meses. Diagnosticado com crises de ausência, o menino foi internado em um hospital para sessões de pulsoterapia (administração de corticoide endovenoso) e acabou sendo infectado com uma bactéria fulminante. Ao longo de 25 dias de cenas dramáticas, Thiago não resistiu e morreu na cama hospitalar.

– Foi muito desumano, extremamente cruel. Fiquei em choque, pois entrei ali com meu filho relativamente saudável e saí com ele morto.

Católica desde a infância, Fernanda se apegou ainda mais à religião. Passou a ajudar em um abrigo da igreja para crianças abandonadas e faz correntes pelo ente querido em um grupo de oração de mães que também perderam os filhos. Agora, constrói uma capelinha na casa da sogra, um altar para colocar as cinzas do menino.

– Deus é a força que me sustenta. Nunca o questionei, nem me revoltei contra ele. Acredito que o Thi cumpriu a missão dele na Terra. Mas tenho revolta do médico que o internou e também do hospital.

Para o coração machucado e inconformado de mãe, ficar em casa evoca lembranças cruéis, com flashes de lembranças no sofá da sala, em frente à TV, no quarto intacto.

– Meu marido falou de nos mudarmos, mas não iria adiantar. O Thiago vai comigo onde eu estiver.

Fernanda tem mais duas meninas. Maria Clara, de 6, também sofre muito com a morte do irmão: iniciou terapia e tem crises de alergia ligada à ansiedade. Passou a dormir na cama dos pais, com medo de que eles também vão embora. Já Valentina, de 2 anos, foi um presente para a família.

– Ela veio sem planejamento e ocupa 90% do nosso tempo. É por causa das minhas filhas e da sensação de ser necessária para a minha família que não desisto de viver. Se soubesse que encontraria o Thiago em outra vida, não pensaria duas vezes.

 

 

 




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