Outubro Rosa

Amor que não se mede

Um ombro, um acolhimento, uma palavra amiga... Mulheres doam tempo, carinho e histórias de superação para ajudar aquelas em tratamento do câncer de mama
Miriam Gomes Chalfin
185 - 28/10/2016

Fábio Dias/Agência i7O câncer de mama não escolhe idade, raça, credo, classe social... Ele simplesmente chega e abre um imenso buraco no chão. Traz, no grau mais extremo, sentimentos de tristeza, medo, desespero, dúvida... Definitivamente, não é fácil. Mas é possível, sim, vencer a doença. E fazer dela, e de todas as dores, um aprendizado. Mais do que isso, um ato de amor ao próximo. Só quem já passou pelo câncer de mama sabe o quanto é valioso um acolhimento, uma palavra amiga, um carinho...

É exatamente esse tipo de apoio que mulheres acometidas pela doença – ou não – fazem questão de doar a quem está em tratamento. “Pequenas ações, somadas, dão um grande resultado. Levo sorriso, um bom dia bem dado, a lição de que estou curada, com cabelo, e de que ela também pode melhorar”, diz a maquiadora Daniela Barakat, 48 anos. Ela coordena as voluntárias do Mário Penna que atuam na quimioterapia do Hospital Luxemburgo e garante que sai das visitas se sentindo muito melhor. “Essa troca é extremamente gratificante. O ser humano precisa disso”, resume Daniela, que teve câncer de mama há 10 anos. Há 3, passou a integrar a associação das Voluntárias do Instituto Mário Penna (Volmape).

No ano passado, teve ideia de montar a exposição Esperança Cor de Rosa, com fotos de 21 mulheres em tratamento ou que já venceram a doença. Este ano, repetiu a dose, mais uma vez em parceria com a fotógrafa Paola Moreira e com a Volmape. “Essas mulheres têm uma visão corajosa em relação ao câncer, e não de medo. Elas enfrentam (a doença) porque sabem que as chances de cura são muito altas, se descoberta no início. É possível ter vida normal, participar ativamente da sociedade, do trabalho”, destaca Daniela. Segundo ela, as modelos se sentiram lisonjeadas. “É uma massagem no ego, eleva a autoestima. A ideia é mostrar que elas não deixam de ser mulheres porque estão abatidas, porque já tiveram câncer.”

Pedro Vilela/Agência i7

A empresária Liliane Bechelany Dutra Batista, 48 anos, é uma das retratadas na exposição. Ela conta que descobriu o câncer em outubro do ano passado, num exame de rotina. Com histórico da doença na família, ela fazia mamografia anualmente. Foi detectado tumor nas duas mamas, em estágios diferentes. “O que achei mais importante na maratona de exames, tratamentos, cirurgia e acompanhamento foi ver o tanto de gente que tem câncer de mama, de 30 ou 60 anos, de classe A ou D. É muito mais comum do que você pensa”, diz.

Durante essa jornada, Liliane conheceu várias pessoas, ouviu muitas histórias e as acompanhou de perto. “Eu pensava no que estava sentindo e na situação dessas pessoas. Tinha gente que saía da radioterapia exausta e ia embora de ônibus. Aí fui convidada para participar da exposição, com a minha mãe, que teve o mesmo câncer que eu e na mesma idade. Foi muito emocionante e você acaba se envolvendo com a campanha. Aí decidi continuar o trabalho ano que vem, como voluntária do Mário Penna. Pode fazer mais bem a mim do que a elas”, conta. A ideia é contribuir para que essa experiência seja menos dolorosa para as pacientes. “As pessoas precisam ser acolhidas, saber que não estão sozinhas, que não são menos mulheres. Você pode mostrar que existe um amanhã, que o amor cura. Quero fazer diferença na vida dessas pessoas”, frisa.

Pedro Vilela/Agência i7É isso que também faz a dona de casa Taninha Freire, 46, diagnosticada com a doença no ano passado. Ela se inspirou no grupo de Whatsapp Amigas da Rúbia para juntar lenços para mulheres que passavam por quimioterapia. “Fiz 6 meses de quimio e 25 sessões de radioterapia. Estava com baixa autoestima e a Rúbia (Froes) começou a recolher o acessório para me dar. Quando meu cabelo voltou a crescer, percebi, pelas redes sociais, que muita gente não podia comprar e decidi doar os meus próprios lenços”, conta. Depois, criou uma página no Facebook (Banco de Lenços Taninha Freire), com grande aceitação. “Recebi várias mensagens. Cheguei a ter 300 itens e já doei no Hospital das Clínicas, mandei para Brasília, Fortaleza, Poços de Caldas e várias regiões de Belo Horizonte”, conta.

Aqui em BH, ela faz questão de entregar o acessório pessoalmente. “Gosto de conversar com a pessoa, ensinar a amarrar o lenço, trocar figurinha. Quando eu chegava, todas elas estavam com um sorriso meio amarelo. Quando ia embora, sorriam. É uma diferença na vida da pessoa. Elas ficavam tão felizes que me mandavam fotos depois. Creio que a maioria tenha sentido o que eu senti, um carinho, um cuidado”, descreve Taninha, que já chegou a entregar mais de 300 lenços, além de chapéus e perucas. Agora, os planos incluem ajudar também o hospital Mário Penna. “Pretendo continuar com esse trabalho para sempre. O câncer veio, mas para me despertar. Antes, eu era uma mulher que ficava dentro de casa e começava a me sentir deprimida. Não imaginava ter tantos conhecidos e amigos após o câncer. Comecei a dar palestras e me tornei uma pessoa mais feliz, não me vejo mais sem dividir o que eu passei”, destaca.

Divulgação AHODividir essa experiência, com um olhar humanizado sobre o diagnóstico do câncer, é o mote da web­série Amanhã hoje é ontem, da jornalista Daniella Zupo, 43 anos. Com 8 episódios, o material foi lançado em 1º de setembro e está disponível no www.youtube.com/daniellazupo. “Quando falo da minha história, falo da experiência de milhões de mulheres no mundo inteiro. É universal. A série tem legenda em inglês porque eu queria ampliar o alcance. O acesso é irrestrito”, conta. O olhar humanizado se foca na experiência de superação, de transformações, de lidar com medos e questões da vida e da morte. “Eu digo para as pessoas que elas não estão sozinhas, que muitas outras mulheres estão passando por isso também, que não é uma emboscada do destino. Dou esperança para ela entender que essa experiência não é solitária”, explica.

Diagnosticada com a doença no fim do ano passado, Daniella conta que descobriu uma potência transformadora: “Olhei para dentro de mim mesma como nunca havia feito. Refiz prioridades, redefini o valor dos afetos, enxerguei a vida sob outra perspectiva, do agora. O título Amanhã hoje é ontem sintetiza a maneira que eu escolhi para olhar para o diagnóstico, de que tudo vai passar. É da natureza que as coisas mudem de lugar, se movimentem. Aprendi a viver o aqui e agora, a me reprogramar lentamente”. Outro ensinamento foi a gratidão por todos os pequenos momentos de alegria, por todas as relações verdadeiras, pelo que realmente vale a pena. “É impressionante como a gente aprende a valorizar o aqui e agora e a viver cada momento. Pode ser clichê, mas é a pura verdade”, acrescenta.

Daniella também pretende, com o documentário, minimizar o preconceito que existe em relação ao câncer de mama. “Tem gente que acha que é uma sentença de morte, muitos evitam falar do assunto, do tratamento agressivo, mas não podemos fazer isso porque quanto mais informação você tiver, mais vai entender dos exames preventivos e que o diagnóstico precoce é a melhor forma de encarar o tratamento, já que as chances de cura aumentam significativamente”, ressalta.

Pedro Vilela/Agência i7Não é fácil, mas é preciso enfrentar o problema e seguir adiante. “A gente não pode se entregar a um diagnóstico. A vida é muito mais que isso. Às vezes, a gente precisa passar por algo delicado para dar valor a cada momento”, atesta a administradora Maria Luiza de Oliveira. Ela teve a doença há 26 anos e garante que foi um grande aprendizado. Inclusive, ela é uma das fundadoras do grupo Pérolas de Minas, formado por mulheres que passaram ou estão vivenciando o tratamento do câncer de mama. A ideia é incentivar outras mulheres e dar apoio a elas. O grupo também promove eventos mensais, com palestras de prevenção e motivação, e visitas em hospitais e clínicas.

Em cada visita, a paciente em tratamento recebe de presente a Pulseira Solidária, de pérolas e com um lacinho rosa, feita artesanalmente por pessoas que já foram curadas do câncer de mama. “A ideia é que cada mulher, ao receber a pulseira, saiba que alguém que passou pela mesma situação que ela venceu. É um estímulo para seguir em frente. Elas se inspiram na nossa história de vitória para seguir o tratamento. Paciência e determinação são importantes para ter resultado”, explica Maria Luiza. Segundo ela, a bijuteria foi lançada em março deste ano, em comemoração a um ano de fundação do grupo.

Juliana Flister/Agência i7Mas não é apenas quem já teve câncer de mama que se dispõe a ajudar. A empresária Eliza Martins, por exemplo, separou uma tarde inteira da agenda do salão que leva seu nome para cortar cabelos gratuitamente e doá-los ao Instituto Mário Penna. “É a primeira vez que participo desta campanha. Quis fazer isso para proporcionar felicidade. A mulher é muito sensível e, quando perde o cabelo, fica com a autoestima baixa. Pensei em proporcionar alegria, levantar a autoestima”, justifica. Durante a ação, realizada em parceria com o grupo Pérolas de Minas e a campanha Quinta do Bem, foram feitos 90 cortes de 30 centímetros.

A advogada Gláucia Fernandino de Castro, 35 anos, deixou as madeixas crescerem exatamente para fazer a doação neste Outubro Rosa. “O cabelo tem relação direta com a feminilidade, é o xodó da maioria. Imagino que perder o cabelo seja uma situação que mexe muito com a mulher. Quero proporcionar um bem-estar para alguém. Também vai ser bom para mim, vou ficar feliz”, afirma. Ela acrescenta que faz ação voluntária num colégio e ajuda uma instituição que cuida de crianças com síndrome de Down.




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