Artigo

Um enorme galinheiro

Paulo Cesar de Oliveira
195 - 21/04/2017

Quem acompanha os meus artigos há tantos anos é testemunha de quantas vezes chamei, e continuo chamando, a atenção para aquilo que considero ser o maior problema brasileiro: a impunidade em todos os níveis, em todos os setores da sociedade. Raramente se vê um criminoso, de colarinho branco ou não, punido exemplarmente. Se e quando há condenação, temos penas brandas, que a execução penal cuida de amenizar ainda mais. Se deixarmos o campo penal e formos para o eleitoral, aí então é que nossa incomensurável capacidade de perdoar mais se exacerba. Quem quiser constatar, que faça uma análise nas listas dos eleitos, em especial para o Legislativo, e nelas vai encontrar nomes de políticos que deveriam estar atrás das grades, banidos da vida pública, mas que conquistam assentos no Parlamento e, não raro, são tirados de lá para ocupar cargos no Executivo, quando não para serem transformados em conselheiros de Tribunais de Contas.

Somos um povo com uma capacidade de perdoar, esquecer muito maior do que de se indignar. Isto talvez explique muitos dos horrores que estamos assistindo agora na vida pública do país. Tínhamos passado por algo semelhante, em escala bem menor, no início dos anos 2000, com o “mensalão petista” que resultou na condenação e prisão de políticos, algo absolutamente inusitado para nós brasileiros. Alguns deles estão presos, como José Dirceu, mas ainda sem perderem a majestade, a capacidade de influir politicamente. Nada, porém, se assemelha à operação Lava Jato, em sua dimensão. É como dizia o ministro Teori Zavascki, que foi o seu relator no STF até morrer no princípio do ano: “a gente puxa uma pena e vem uma galinha”. Tinha razão o ministro. A lista de seu substituto na relatoria, ministro Edson Fachin, mostra que estamos diante de um enorme galinheiro, resultado das penas que o juiz Sérgio Moro e a força-tarefa do Ministério Público Federal e da Polícia Federal encontraram e puxaram. Galinhas de todas as cores e tamanhos, algumas mais cacarejantes, outras mais caladas, mas todas devoradoras de milho. E ainda, pode-se dizer, estamos numa fase preliminar de apuração que permite aos envolvidos até o pescoço negarem tudo de “pés juntos”, pedindo a apresentação de provas aos acusadores, sem apresentarem qualquer uma em suas defesas. E talvez até estejam mesmo convencidos de que não cometeram qualquer tipo de crime, de tão acostumados estão em receber e pagar propinas, como bem disse o empresário Emilio Odebrecht.

Esta situação de pagar propina para captar obras existe desde os tempos de seu pai, Norberto Odebrecht, fundador do grupo, continuado por ele e pelo seu filho Marcelo (cuja cabeça deve estar daquele jeito, como tantos outros, que poderiam estar em prisão domiciliar), preso há dois anos. Esta era e, até que provem em contrário, continua sendo a regra do jogo. Pode ser que esteja contida nas escalas maiores, mas certamente está viva nos escaninhos inferiores. Esta capilaridade da corrupção, atingindo todos os escalões, de todos os setores da sociedade, preocupa. Ela é, sim, uma ameaça às operações destinadas a desmantelar e punir quadrilhas. E, por mais que se possa pensar que a Lava Jato superou este risco e que hoje é praticamente impossível anulá-la, é bom ficar vigilante. Há envolvidos de todos os lados – não se esqueçam de que todo este barulho é resultante da delação de apenas um grupo, o que significa que a sobrevivência é um problema que envolve todos os gatos, colocados num mesmo saco e ainda com um cachorro dentro. Se ainda não deu para arrumar uma solução legislativa, com aprovação de leis que anistiam os crimes praticados por todos, restam as brechas da lei, que asseguram formas de protelação das investigações e posteriormente dos julgamentos. E assim, não tenham dúvidas, será. Vão jogar um ou outro porco magro na fogueira para aplacar a sanha da minoria vigilante e cobradora, poupando os mais gordos, protegidos na sombra das leis manipuladas por advogados hábeis e regiamente remunerados, com a compreensão e gratidão de amigos alojados no poder. Que assim não seja..

 

Paulo Cesar de Oliveira, jornalista




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