Entrevista

Um rosto na multidão

Há dez anos em São Paulo, médico do Albert Einstein defende cirurgia plástica como forma de as pessoas se inserirem na sociedade e afirma que ninguém quer ser diferente de ninguém
Sueli Cotta
195 - 21/04/2017

João Passos

O Brasil tornou-se referência em cirurgia plástica e tem os profissionais mais respeitados do mundo. A população acompanha essa evolução e é a segunda no planeta em intervenções para melhorar a aparência e a autoestima. O cirurgião Alexandre Senra, que há 10 anos transferiu suas atividades de Belo Horizonte para São Paulo, conhece bem esse padrão de excelência. Médico do Hospital Albert Einstein, Senra é um dos profissionais mais respeitados do país e no exterior. Membro da American Society for Aesthetic Plastic Surgery, ele entende a cirurgia plástica como uma forma de as pessoas se inserirem na sociedade e melhorar a autoestima. Com a permanência das pessoas por mais tempo no mercado de trabalho, aparecer bem é também uma necessidade.

A cirurgia plástica avançou muito nos últimos anos. O que as pessoas querem quando procuram um profissional como o senhor?
Alterar e modificar algo que as incomode e que possa ser tratado através de um procedimento cirúrgico. Se uma mulher tem uma mama grande, que pesa, causando uma dor nas costas, essa mama pode ser reduzida. Se a pessoa nasceu com pouco volume mamário, que não agrade na frente do espelho ou que lhe cause desconforto frente ao parceiro, é um problema que pode ser resolvido com uma prótese. Se o tempo passou e proporcionou um envelhecimento facial e o rosto caiu, nós vamos reposicionar esses tecidos. Qualquer coisa que venha a causar transtorno e que as mãos do médico possam trazer um alívio, a cirurgia plástica pode estar trazendo novamente essa autoestima, essa segurança e esse conforto.

Quando há excessos? Quando essa procura por cirurgia plástica preocupa?
Isso se chama dismorfia corporal. É uma doença em que a pessoa nunca vai estar satisfeita com a sua aparência. Cabe ao bom profissional detectar que esse paciente que está à sua frente tem esse problema. O bom senso profissional é que vai determinar se aquele desconforto é suficiente para ocasionar a indicação da cirurgia que a pessoa está procurando. Quando o paciente me procura querendo fazer algo, eu tenho que ser ético e transparente para saber se aquilo vai causar realmente um bem, e se é adequado para aquele caso. O médico tem que saber avaliar muito bem a expectativa do paciente, em relação à realidade que vai ser proporcionada a ele.

Muitas pessoas são reféns da estética. Qual é o padrão de beleza procurado?
Não acredito que as pessoas são reféns da estética. Eu acredito que as pessoas não querem ser diferentes de ninguém, elas querem se misturar à multidão. A pessoa que tem um desconforto, algo que a incomode e que faça com que ela seja diferenciada na população, quer se misturar aos seus pares. Alguns acham que isso é vaidade. Eu acho que não. A vaidade desenfreada, em excesso é que está errada. As pessoas querem se apresentar bem, seja homem ou mulher. Eu opero muitos homens, que representam 30% do meu movimento. Sou um cirurgião que, basicamente, atua muito em contorno corporal, que significa cirurgia de lipoaspiração e de mama. Tem muita procura por prótese e levantamento de mama, além de lipoaspiração. As pessoas querem se mostrar joviais e bonitas. Nós fazemos muita cirurgia de pálpebra, por quê? Porque quando nós olhamos para uma pessoa, nós olhamos para os olhos. As pessoas querem se mostrar mais jovens, descansadas, rejuvenescidas, de forma que elas se apresentem melhor ao mundo, seja um político, um empresário, uma atriz, o executivo, seja quem for. As pessoas querem se mostrar bem. Isso não é uma vaidade, isso é uma necessidade no mundo competitivo em que nós vivemos.

Os homens perderam a vergonha de fazer cirurgia plástica?
Eu tenho, talvez, um dos maiores movimentos cirúrgicos de São Paulo de homens. Atendo muitos presidentes de bancos, empresários, executivos, politicos etc. Um paciente chama o outro, que chama o outro.
O homem perdeu aquele medo, aquele estigma, o tabu de fazer cirurgia plástica.

Hoje o que se fala muito é do uso do botox. Esse procedimento ajuda nesse processo de busca de rejuvenescimento?
Eu fui um dos pioneiros do uso do botox no Brasil. Faço botox desde 1996, já estou entrando no 21º ano de botox. Esse é um procedimento de consultório e que, quando bem feito, por um profissional habilitado, ajuda nesse processo de rejuvenescimento, de uma forma bastante objetiva e com resultado muito bom.

Atualmente existem as chamadas cirurgias sem o uso de bisturi. Essas técnicas são eficazes?
Eu sou um cirurgião do bisturi. Essa coisa de falar de cirurgia sem bisturi são as técnicas que os dermatologistas acabam se utilizando. O cirurgião plástico é um cirurgião do bisturi. O dermatologista é que utiliza essa prática, porque não está habilitado a operar de acordo com o CRM. O cirurgião plástico passa por seis anos de curso de medi­cina, dois anos de cirurgia geral e mais três anos de cirurgia plástica.
São 11 anos de formação, contra as outras especialidades, que fazem seis anos de faculdade e mais dois anos de especialização. O cirurgião plástico é mais preparado e o mais treinado. Para ter a habilitação precisa de um treinamento mais reforçado para poder estar dentro do que nós executamos no dia a dia. Os outros especialistas não têm como se comparar com a habilidade cirúrgica de um cirurgião plástico. Eles fazem laser no rosto e acham que tem o mesmo resultado das cirurgias que nós fazemos. Essa conversa de cirurgia sem bisturi não é para cirurgião plástico. Sou um cirurgião plástico titular especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica que atua no Hospital Albert Einstein e que fui criado no Hospital Mater Dei, em Belo Horizonte. Estou há 10 anos em São Paulo, e sou um cirurgião que exerce a medicina basicamente dentro de um hospital. Essa coisa de procedimento não invasivo tem um limite, que no caso é diretamente proporcional ao resultado. A partir da hora que se tem um limite muito superficial, o resultado também é muito superficial.

O Brasil é referência em cirurgia plástica. Essa fama é real?
O Brasil é referência mundial em cirurgia plástica, é o segundo país no mundo em cirurgia plástica estética. Perde por pouco para os Estados Unidos, e perde talvez pela capacidade financeira. Posso comprovar esse fato pelas viagens que faço ao exterior por ano para dar aula, frequentar congressos e me atualizar. Como sou um dos poucos membros da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética (Asaps), já que no Brasil, em aproximadamente seis mil cirurgiões plásticos, somos cerca de apenas 28 membros dessa sociedade, que não é uma sociedade que você simplesmente chega e se filia, pois é muito difícil vir a ser membro dela, sou testemunha de que, quando se consegue ser aceito, é possível se ver o nível de referência que fazem internamente da cirurgia plástica brasileira. Ficamos honrados de ver o padrão de aceitabilidade e de qualidade que nós temos. Eles não só reconhecem, como nos respeitam muito. É impressionante a qualidade que temos no país. Estou indo para o congresso anual no final de abril em San Diego.

Que tipos de cirurgia as pessoas mais pedem?
Os homens pedem lipo, pálpebra e nariz. As mulheres lipo, prótese, levantar, reduzir mamas e abdome. A lipoaspiração é o procedimento campeão. A prótese de mama, pela importância da mama para a mulher, como componente sexual é também muito importante. Eu realizo por exemplo, lipoaspiração a laser, que é menos traumática em relação a lipoaspiração tradicional, oferecendo um pós-operatório mais tranquilo, sem dor, sem inchaço. A pessoa volta às atividades rotineiras praticamente no dia seguinte e sem dor. É preciso pensar muito na questão do pós-operatório. Hoje, quando se fala em uma lipoaspiração a laser em que o paciente praticamente não incha, não tem dor, e tem uma recuperação mais rápida do que a tradicional, por machucar menos e ele poder trabalhar no dia seguinte, pode-se proporcionar um pós mais tranquilo. Este paciente é operado às sete horas da manhã e à uma hora da tarde ele tem alta. No dia seguinte ele pode trabalhar. Hoje a grande diferença é esta qualidade do pós-operatório. O que tem que ser levado em consideração na cirurgia plástica moderna é a qualidade do tratamento que se está oferecendo, a qualidade do profissional habilitado, preparado, homologado e a estrutura que se está oferecendo para este paciente, o hospital, sala de cirurgia, estrutura com CTI e tudo mais.

O senhor está em São Paulo há dez anos. Como foi conquistar São Paulo?
As oportunidades aqui são diferentes, o profissionalismo é muito grande. Em São Paulo se trabalha muito, mas o retorno desse trabalho é proporcionalmente muito maior. Em São Paulo, as oportunidades aparecem na sua frente e se você mostra resultado, se você é dedicado a este trabalho, trabalhando muito muito, alcança-se o sucesso com uma rapidez muito grande. Em 10 anos de São Paulo, eu consegui alcançar um sucesso que, não que eu não o tivesse em Belo Horizonte, mas que proporcionalmente é muito maior do que eu tinha em BH. A projeção do nome e o reconhecimento são muito maiores. O institucional é muito grande e a percepção por parte dos pacientes é muito grande , além do network de divulgação do seu trabalho que se dá de uma forma que eu nunca pensei que fosse acontecer. É como se fosse uma explosão. Você vira referência em curtíssimo espaço de tempo, através de muito trabalho, dedicação, muita atenção e, claro, em cima de resultados bons, muita discrição, carinho com os pacientes, atenção, consultas aprimoradas, ambiente de consultório preparado para isto, o melhor hospital da América Latina etc. É a somatória de tudo isto. Eu mesmo não poderia acreditar que em 10 anos eu estaria onde estou hoje.

O empresário Walduck Wanderley costumava dizer que a cirurgia plástica rejuvenesce também a cabeça, porque a pessoa fica mais leve. As pessoas ficam melhores psicologicamente?
Eu nunca o operei, mas Walduck chegou a ser meu amigo. Ele era um apologista de plástica. Essa frase é verdadeira e, realmente, a cirurgia é uma injeção de autoestima em todos os sentidos, porque ela rejuvenesce a pessoa. Ela te dá um upgrade de você com você mesmo. É um grau de satisfação. Você passa a se enxergar de uma forma melhor e isso é bom para o seu viver.

A crise econômica chegou a afetar essa atividade?
Acho que todo mundo sentiu a crise. Claro que a cirurgia plástica foi abalada pela crise como um todo, independentemente do nicho em que nós trabalhamos. A crise afetou todas as classes como um todo. Tenho a plena consciência de que as coisas melhoraram e estão melhorando. Nós sentimos isto com a clareza total, principalmente dentro da cirurgia plástica. Desde a posse do presidente Temer, o movimento voltou a crescer e tem crescido gradualmente.

Ano que vem é ano eleitoral. O senhor já está sendo procurado por políticos, querendo melhorar a cara para o eleitor?
Eu, tradicionalmente, há muitos anos, tenho uma clientela de políticos muito grande. Independentemente de ano eleitoral, tenho no rol de pacientes muitos políticos. Em ano eleitoral, principalmente no pré-eleitoral, muitos nos procuram no intuito de estarem melhor, aparecer melhor na fotografia e se mostrar para o eleitor com a aparência melhor, mais joviais, mais dispostos, com a fisionomia melhor.




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