Artigo

O limite da paciência

José Martins de Godoy
195 - 21/04/2017

Estou desolado, desiludido, sem esperança de um futuro brilhante para o Brasil. Como foi possível chegarmos a esse ponto? Todos os dias estoura um escândalo (o do momento é a Fatura Exposta, no Rio de Janeiro), como resultado de falcatruas em vários níveis da administração pública. A lista divulgada pelo ministro Fachin revela o grande número dos que serão investigados, pessoas importantes da nossa vida pública. Na fazenda, existe o ditado: quando o patrão se assenta, o camarada deita. Fazendo uma analogia: quando os altos dirigentes da República cometem os ilícitos noticiados, os maus exemplos são disseminados amplamente. A situação do Rio é de calamidade: Sérgio Cabral e sua gangue tomaram o estado de assalto. É insuportável constatar que o país está sendo gerenciado por Renans, Eunícios, Jucás, Padilhas, Moreiras, Kassabs, entre outros. Não entendo como o presidente Temer mantém ministros sobre os quais há reiteradas denúncias. Veremos agora como vai proceder, uma vez que seis dos atuais serão investigados. Lembro-me que o presidente Itamar Franco afastou um de seus ministros que fora denunciado. Quando o ministro provou sua inocência, voltou ao posto.

Considero o atual procedimento um deboche, um desrespeito ao povo brasileiro.
O execrável, famigerado, indecente foro privilegiado é a razão deste estado de coisas. Constata-se que há cerca de 33 mil pessoas nesta situação (uma concepção da democracia brasileira!), enquanto na China há cerca de 2.500 (compreensível pela característica do regime chinês) e, nos Estados Unidos, zero. Parece que procede a história de que Deus presenteou o Brasil com muitos recursos e belezas naturais, sem terremotos, vulcões, furacões. Em compensação, deixou aqui alguns políticos (há poucas exceções) da pior índole. O foro privilegiado é a criação dessas brilhantes cabeças. Haja vista a tentativa recente de acabar com essa excrecência. Conseguiu-se número mais que suficiente para votar a PEC relativa ao assunto, em regime de urgência, mas o Eunício, vulgo Índio na definição de doadores de propinas, faz operação tartaruga na tramitação da matéria. Isto interessa a um grande número de parlamentares e integrantes do Executivo, encalacrados até o pescoço em denúncias de práticas corruptas. Como a morosidade é a tônica do STF, este é o melhor dos mundos para os delinquentes protegidos. Com isto, sentem-se seguros, pois reconhecem que ficarão impunes.

Para coroar o processo de impunidade que poderia advir da punição de determinados candidatos nas próximas eleições, sábios congressistas pretendem aprovar uma reforma eleitoral em que, ao eleitor, seriam apresentadas listas fechadas organizadas pelos partidos. A votação passaria a ser no partido. É claro que as listas seriam organizadas pelos mesmos caciques envolvidos nas denúncias tão conhecidas. É o famoso jeitinho, tão reprovável e indecente, de continuar participando da casta do foro privilegiado.

Outra iniciativa para a manutenção do poder é a rejeição da reforma da Previdência. Os demagogos que se dizem defensores dos trabalhadores são contra a maioria das propostas. Ora, com a expectativa de vida no país aumentando, a população envelhecendo e a taxa da natalidade diminuindo, haverá um momento a partir do qual existirá mais gente aposentada do que trabalhando. Restará rezar aos céus para poder pagar os aposentados. Se a reforma não for aprovada, estaremos na contramão da história, se compararmos com muitos países desenvolvidos. Gostaria de enfatizar que trabalho é vida. Manter-se ocupado é um privilégio para poucos. Depois que me aposentei na UFMG, realizei muita coisa no campo empresarial e continuo muito ativo, até mais do que gostaria. E quantos têm a mesma oportunidade que eu tive? Aposentar-se mais cedo para ver a vida passar e esperar o fim?

Em suma, um grupo eclético de parlamentares de várias legendas maquina para a manutenção do poder, em desfavor na nação. Com isso, não se trabalha para a recuperação econômica e enfrentamento dos problemas cruciais do país, condenando-nos ao atraso e subdesenvolvimento.

 

José Martins de Godoy, engenheiro pela UFMG, dr. engenheiro pela Norges Tekniske Hogskole, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG, cofundador do INDG, instituidor e integrante do Conselho de Administração Superior da Fundação de Desenvolvimento Gerencial (FDG), presidente do Conselho de Administração do Instituto Aquila. Visite www.blogdogodoy.com




Comentários