Artigo

De ghost-writers e de presidentes

Mauro Santayana
195 - 21/04/2017

Operário da palavra, como se dizia antigamente, tive, na minha vida profissional, e, principalmente, política, a oportunidade de colaborar com alguns presidentes da República, todos honrados e patriotas, graças a Deus. Na maioria das vezes, o fiz na condição de ghost-writer, mas como os fantasmas, mesmo que, eventualmente, se divirtam, devem ser preferencialmente discretos, não esperava agora nesta minha vestustíssima idade, ser citado seis vezes, quase sempre devido a essa condição, nas memórias de outro ex-
presidente, com o qual tive a honra de não trabalhar quando ocupava o comando do Executivo, em um governo no qual, segundo estatísticas do Banco Mundial, o Brasil andou para trás, do ponto de vista de PIB nominal, salário mínimo e renda per capita, em dólares, e muitíssimo mais no âmbito da erosão da soberania, da desnacionalização da economia e da subalternidade geopolítica.

Procurado por uma revista semanal para comentar o acontecido, confesso que meu primeiro impulso foi retornar a ligação e dizer que há tempos, atendendo a recomendação do próprio, esqueço ou ignoro qualquer coisa que esse senhor já escreveu, escreva ou venha a escrever no futuro. Também me passou pela cabeça usar uma frase muito em voga nos anos 1960 – dos quais ainda não saímos historicamente - e responder, de chofre: “Não li e não gostei... Os senhores vão me desculpar, mas tenho mais o que fazer do que ficar dando importância ao tal de fulano.” Mas refreei, ainda a tempo, a grosseria, já que a frase, independentemente da intenção e do contexto, poderia parecer rasteira e leviana, e decidi declinar de ouvir o que queria ler-me o repórter ao telefone, dando a entender que preferia esperar que a obra chegasse às livrarias. Não pretendo responder ao que foi escrito, nem declinar, em contexto pessoal, o nome do autor neste texto, embora às vezes seja obrigado a usá-lo em um ou outro trabalho jornalístico. Da mesma forma que também não falo dele - sequer em pé de página - em minhas lembranças, que descansam, sem nenhuma ansiedade, na gaveta, esperando a hora de vir a público.

Não o farei agora, nem muito menos – se ele vier a partir primeiro – depois que o personagem em questão entrar naquela idade póstera e escura, aquela da qual não escapam nem os príncipes nem os faróis, que, em sua arrogância, estão condenados a se misturar aos mendigos e às paredes esfareladas das choupanas, no barro anônimo e humilde que será cultivado, pisado, cuspido e marcado, etologicamente, com urina, por aqueles que vierem no futuro, quando as lápides – por mais caras sejam, ou mais brilhantes – já tiverem se transformado em pó e em esquecimento. Não tenho por hábito praticar o esporte feio, fácil e indigno de atacar os mortos - impossibilitados que estão de defender-se pela rigidez de suas mandíbulas - mesmo com a desculpa de dar a entender que os insultos foram escritos entre paredes – como as cantadas no velho fado de Amália Rodrigues – quando os alvos ainda estavam vivos, respirando.

 

Jornalista




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