Ciência

Ovodoação: muito a se fazer

Técnica, que é uma das mais indicadas para diversos casos de infertilidade feminina, ainda encontra diversas barreiras no país
Eliana Fonseca
195 - 21/04/2017

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O que acontece quando várias revoluções ocorrem em uma revolução? Desde que Louise Brown, a primeira bebê de proveta foi gerada no mundo, há 38 anos, tanto as técnicas de fertilização quanto a própria história da mulher passaram por imensas transformações. Elas resolveram ter filhos mais tarde. Ou não puderam gestar com seus próprios óvulos, ou não os têm por causa de menopausa precoce, de tratamento de câncer, ou por ter tido seus ovários retirados. As possibilidades são muitas, mas o fato é que a técnica de ovodoação – com óvulos doados por outra mulher e que poderia ser uma solução para esses problemas - tão antiga quanto todas as outras de reprodução assistida, ainda encontra barreiras. Muitas. Legais, culturais, psicológicas. O que a deixa ainda longe de ser uma popular no Brasil. Antes disso, é preciso muita, mas muita informação.

Quando se fala em ovodoação é preciso deixar claro que não basta apenas querer. Há regras, rígidas. Para a doação de óvulos, a doadora tem que ter, no máximo, 35 anos. Tem de estar em tratamento de fertilização in vitro e só pode doar os óvulos excedentes à outra que também tem problemas de reprodução. Tanto a doadora quanto a receptora têm que ser compatíveis tanto quanto à aparência física quanto ao mesmo tipo de sangue. E não ter qualquer caráter lucrativo ou comercial. Há, ainda, um desafio enorme – as brasileiras ainda são muito reticentes em doar seus óvulos. São barreiras, principalmente para quem precisa do óvulo, que podem atrasar ou até mesmo inviabilizar o processo. “Há um divisor de águas na fertilidade feminina. As mulheres, atualmente, estão tendo filhos entre 35 e 50 anos. Não quer dizer que não vá engravidar, mas, sim, em uma proporção menor”, diz o médico-ginecologista e diretor da clínica Pró-Criar, João Pedro Junqueira.

Nessa corrida contra o tempo, em que a biologia, definitivamente, não acompanhou a evolução das mulheres do ponto de vista reprodutivo, e também por causa de todos os problemas citados acima, a ovodoação, segundo o médico, tem sido uma técnica procurada. Mas, não tão simples como muitas imaginam. A psicóloga Cássia Avelar, que atende mulheres que passam pelo processo, cita alguns desafios: o número baixo de jovens em tratamento de reprodução assistida; a necessidade de consenso do casal com relação à doação do óvulo; a avaliação criteriosa sobre os sentimentos suscitados em relação à doação e a implicação futura para a paciente ou casal.

L., 42, tentou 4 fertilizações e, em 2015, resolveu recorrer a ovodoação. Psicologicamente estava frustrada com os resultados negativos das fertilizações, até que um médico de uma clínica em Belo Horizonte falou da ovodoação. Frisou, no entanto, a dificuldade para a realização desse tipo de tratamento no Brasil. “Ele me falou que fora do país seria bem mais fácil, principalmente em Portugal e na Espanha, por causa das mulheres que doam óvulos mais facilmente”, diz. Apesar de ter anotado mentalmente todas as indicações desse médico, não se deu por vencida. Resolveu procurar outra clínica e o teor da conversa foi diferente. “O médico me disse que o tratamento do Brasil equiparava-se aos dos outros países, me falou da questão da fila, que é por compatibilidade, e falou de um tempo que poderia demorar de 6 meses a 1 ano”, conta. Um mês e meio depois, a doadora foi encontrada.

Reprodução/DivulgaçãoFoi em um tempo curtíssimo, nem sempre é fácil. Em primeiro lugar, são poucas as mulheres que aceitam fazer a doação de seus óvulos. O médico João Pedro cita os números de sua clínica, inaugurada há 17 anos, como exemplos. No caso da ovodoação, nos primeiros 5 anos da clínica, de cada 5 pacientes que faziam fertilização in vitro, pelo menos 2 doavam. Atualmente, de cada 30, apenas 1 doa. O fato levou a Pró-Criar a criar uma campanha de incentivo à ovodoação. “Cada vez mais, mulheres precisarão de óvulos doados e quando isso não ocorre, há um atraso nessa gravidez”, diz o médico.

Para mudar a realidade sobre a ovodoação no Brasil, Junqueira diz que é preciso uma campanha de sensibilização e esclarecimento. Atualmente, a lista de espera é longa. “Existem várias pacientes em potencial mas, quando perguntadas se aceitariam doar seus óvulos, a resposta é não”, diz.

E, para quem está à espera do óvulo, os sentimentos também são intensos. É preciso reformular o conceito de maternidade com a renúncia ao desejo e à possibilidade de ter um filho genético. Neste momento, segundo a psicóloga Cássia Avelar, é preciso a definição – não ter filhos, ou adotar ou a recepção de óvulos doados para gestar o filho. Há, ainda, o receio de revelar ao filho como foi concebido. “A decisão de revelar ou não para o filho sua origem é um dos desdobramentos inevitáveis com os quais as pacientes ou casais irão se deparar no futuro, e está longe de ser algo simples”, pondera.

Entre as maiores preocupações estão o fato de que a criança possa ser estigmatizada e não aceita socialmente, além de o próprio casal, ao não revelar a ovodoação, se proteger da exposição da infertilidade e de sua dor, assim como as relações familiares e sociais. “Outro aspecto relacionado à reação do filho à revelação de sua origem é a curiosidade que pode ser despertada em relação à doadora e a impossibilidade de satisfazê-la pela inexistência de informação a seu respeito”, observa a psicóloga.




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