Artigo

Revisitando a Escandinávia

José Martins de Godoy
197 - 19/05/2017

A Noruega possui o mais elevado IDH e a maior renda per capita do mundo. Quando lá vivi, já era um país rico e a sua riqueza aumentou com a descoberta de petróleo no mar do Norte. Em vez de gastança, formaram um fundo soberano gigantesco para garantir o padrão das futuras gerações. Ressalta-se o zelo que a Noruega tem com a educação. Relato um fato que, à época, me pareceu estranho: na universidade, em Trondheim, eu dividia um escritório com um pesquisador muito qualificado. Tinha mestrado e feito um estágio de longa duração nos EUA. Um belo dia, despediu-se dizendo que iria ser professor de ensino médio (laerer, em norueguês), num daqueles vales do país. Perguntei: por quê? Disse-me que a possibilidade de contribuir para o país, atuando na educação básica, seria maior, a remuneração a mesma e o status na sociedade um diferencial. Pensei: quando teríamos a mesma situação no Brasil?


A Finlândia sobressai por ter um dos melhores resultados na área da educação do planeta. Entre os fatores críticos de sucesso citam-se a alta qualificação dos professores, a remuneração elevada e o apreço que a sociedade lhes dedica. A Suécia é mais conhecida entre nós pela indústria, cinema, bom futebol etc. Ressalto dois fatos interessantes: a) o gasto anual com um deputado sueco custeia apenas 24 dias de um deputado brasileiro. Um deputado sueco recebe uma moradia funcional de 32 m2, espartana, enquanto o nosso “representante” recebe um apartamento de 250 m2, com mobiliário de luxo; b) recentemente, um deputado recebeu severas críticas e puxão de orelha por ter usado, em benefício próprio, milhas acumuladas no cartão que o estado fornece para uso gratuito em transportes públicos no país.

Gastou-as para pagar amendoins, uma refeição, vinho, água, além de 8 bilhetes de trem para viagens de caráter pessoal. Tudo isso somou 3,8 mil reais. Como a imprudência foi considerada grave, opinião pública e mídia bateram pesado. Pediu desculpas e prometeu não repetir tal façanha. A Dinamarca ostenta a posição de ter os políticos menos corruptos do mundo. A remuneração de um deputado é de 23 mil reais/mês, enquanto a de um pedreiro ou um chofer de ônibus é de 18mil reais/mês. Um deputado recebe um cartão gratuito para ônibus e trens públicos e também uma ajuda de custo para contratar funcionários no valor de 2,8 mil reais/mês. Essa ajuda é para ratear custos de funcionários com três outros deputados. E a população ainda acha que os parlamentares têm muitos privilégios.


Aqui, um deputado ou um senador custa ao país cerca de 23 mi de reais/ano, cobrindo salário, verba de 97 mil reais para contratar até 20 funcionários e o chamado “cotão” para passagens, combustíveis, despesas de viagens e de divulgação do mandato, correio etc. O custo de um parlamentar na Finlândia, Suécia e Dinamarca, respectivamente, é de 2,25, 2,12 e 1,49 mi de reais/ano. É espantosa a diferença. Ah, se a diferença entre o custo brasileiro e o de outros países pudesse ser usada na educação! Ainda mais: para que 513 deputados, 81 senadores? Grande número de integrantes de assembleias legislativas dos estados? A medida do tamanho do estado está explicitada nos 33 mil integrantes do foro privilegiado.


Um parlamentar escandinavo se elege com o propósito de servir ao povo e não de ser servido. A honestidade nesses países é uma caraterística marcante, conquistada por meio da justiça social. E não se consegue isso sem instrução e educação (altamente priorizadas nesses países), o que proporciona plena condição de o povo exercer a cidadania. Qualquer ato reprovável é motivo de manifestações contundentes. Governos ruins, raros, são defenestrados nas eleições; há alternâncias de poder. Não é como aqui: a manutenção do baixo nível de escolaridade elegeu coronéis, no passado, e elege demagogos, embusteiros e manipuladores, atualmente. Outro fator importante é a vigilância da mídia, que é independente e combativa ao extremo. Conclui-se que precisamos de muita luta para passar o país a limpo (há sempre um Gilmar Mendes de plantão para defender os “injustiçados”), a fim de melhorarmos nossa posição no ranking da honestidade dos países (hoje amargamos o desconfortável 79º lugar).




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