Veículos

Invioláveis

Violência urbana faz o mercado de blindagem de automóveis disparar. Tecnologias estão cada vez mais leves
Fernando Torres
197 - 19/05/2017

Pedro Viela/Agência i7O avanço da sensação de insegurança no Brasil é proporcional ao aumento de veículos blindados. Atualmente, o país tem uma frota de pelo menos 160 mil carros encouraçados, número que cresce cerca de 12 mil ao ano, segundo estimativa da Associação Nacional de Blindagem (Abrablin). Minas ocupa o quarto lugar entre os estados com maior procura pelo serviço, um salto de 35% entre 2015 e 2016. Em Belo Horizonte e na região metropolitana, a demanda acompanha o crescimento da criminalidade. No comparativo entre os últimos dois anos, a Secretaria de Estado de Defesa Social registrou alta de 11% nas ocorrências de roubos com emprego de violência, expansão percentual que impulsiona a busca por proteção.


“Antigamente, a clientela era composta apenas de empresários. Hoje, o perfil profissional é bem variado, mas, em Belo Horizonte, pelo menos 70% são mulheres, um público que tem crescido no país todo”, relata o empresário Rodrigo Terra, sócio-
proprietário da Safe ATM, empresa especializada com sede no Jardim Canadá. Segundo ele, boa parte das pessoas, inicialmente, busca o serviço para o automóvel que transporta crianças. “Mas depois de usar e sentir a tranquilidade de ter um carro blindado, toda a família adere”, garante. Os veículos com maior demanda ainda são os SUVs, mais altos e com suspensão reforçada, e sedãs de luxo (veja quadro), mas o temor não escolhe classe social. “Hoje, qualquer carro pode ser resguardado, de modelos populares ao Porsche”, completa ele.


Os revestimentos também têm ficado cada vez mais leves e com garantia estendida, sem depreciar o valor do automóvel ou causar delaminação (bolhas esbranquiçadas nos vidros), problema que reduz a resistência contra balas. Entre as novas tecnologias destaque para a Udura, também chamada de blindagem unidirecional, com valores de instalação entre 55 e 85 mil reais – quanto maior o carro, mais material e maior o valor do investimento. “De fabricação 100% nacional, a técnica usa um tecido formado por várias camadas sobrepostas de fibra de carbono, o mesmo material do painel de proteção cockpit da Fórmula 1. Isso reduz o peso entre 50 e
80 quilos e melhora muito a dirigibilidade, reduzindo o impacto nos sistemas de suspensão e de frenagem, além de ter garantia de dez anos e gerar maior valor de revenda”, descreve Terra.


DivulgaçãoEm Belo Horizonte, a Safe ATM fornece a Uruda com exclusividade, em nível de proteção III-A, que suporta tiros de submetralhadora nove milímetros e revólveres 44 Magnum (veja quadro). Essa é a categoria mais comum no Brasil e o máximo de resistência permitida pelo Exército para uso de proteção para civis. Aliás, a posse de um veículo blindado, novo ou usado, precisa de autorização do Exército, chancela que deverá constar no Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo. O processo ainda exige atestado negativo de antecedentes criminais, emitido pela Polícia Civil e pela Justiça Federal, Estadual e Militar. Com os documentos em mão, a oficina pode iniciar o trabalho.

O profissional responsável faz uma inspeção detalhada para detectar qualquer problema anterior do veículo e, a partir daí, inicia a desmontagem. “Fazemos a instalação de manta de aramida, aço inoxidável ou, se o cliente preferir, do kit Udura, e dos vidros blindados”, descreve Terra. Segundo ele, os materiais importados costumam ser mais caros que os nacionais, porém, o Brasil produz equipamentos de qualidade, a exemplo do próprio Udura.


A tecnologia escolhida é aplicada em nove camadas no interior das portas, do teto, das maçanetas, do contorno das rodas, no interior dos para-lamas, no painel corta-fogo e na traseira. O aço, por sua vez, recobre áreas muito estreitas, em que a aramida ou o Udura não proporcionam resistência mecânica, como colunas, pilares, contorno do teto, retrovisor e fechaduras. Já a junção das portas com as bordas de vidro recebe a dupla proteção overlap, enquanto as janelas comuns são substituídas por camadas de placas de vidro e polímeros. Após a remontagem, a blindadora ainda faz um check-list sobre eventuais problemas no centro gravitacional do automóvel, que são corrigidos com alterações na suspensão.


Pedro Vilela/Agência i7Empresário do ramo jurídico, Renato N. decidiu blindar os dois carros da família, uma Mercedes e uma BMW, com a tecnologia Uruda. A família se mudou de São Paulo para Belo Horizonte há nove anos e, embora nunca tenha sofrido episódios de assalto ou de violência, o histórico com os amigos e a prevenção falaram mais alto. “Estou muito satisfeito com a dirigibilidade. A BMW se comporta praticamente como um carro normal, com pneus e suspensão originais. Apenas a porta é mais pesada e o vidro, mais grosso, entre 17 e 21 milímetros”, observa.


O aumento da procura também motiva o crescimento do número de empresas especializadas. A própria Safe ATM é fruto do “mercado do medo”. No mercado desde 2015, a Safe Blindagens negociou a fusão com a ATM Blindados, fundada mais de uma década antes, em um cenário, então, apenas promissor. “Decidimos juntar a expertise e o conhecimento de negócio da ATM com a tecnologia e a infraestrutura da Safe. Nasceu aí a nova marca”, conta o sócio-proprietário Sérgio Bruno Alves. A joint venture, firmada em 2016, tem como meta, ainda, dominar o mercado mineiro, já que o galpão, um dos mais modernos da região metropolitana, tem capacidade de trabalhar com 16 veículos simultaneamente. “Já estamos blindando entre 9 e 12 carros por mês e a expectativa é aumentar essa produção em 200% nos próximos dois anos”, relata Alves.




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