Saúde

Game Over

A cada 40 segundos, alguém aperta esta tecla e dá fim ao jogo da própria vida. Entenda por que isso acontece e saiba como prevenir e remediar
Fernando Torres
197 - 19/05/2017

M.S. não enviou fitas de áudio para seus amigos nem ganhou uma série de TV. Mas, assim como a personagem Hannah Baker, do seriado 13 reasons why, disponível no Netflix, também julgou que o suicídio poderia ser a saída para uma vida de dor e desespero. Aos 17 anos, no auge de um conflito familiar, ele entrou em colapso, destruiu a casa, fez vários cortes em seu corpo e ingeriu, de uma vez, 40 comprimidos de tarja preta. Por sorte ou providência, depois de quatro dias em coma, recobrou as forças e, hoje, pode contar o depois desta história: “Acordei em estado deplorável e sem lembrar muito bem o que havia acontecido. Fiquei duas semanas em uma casa de recuperação e, diagnosticado com depressão e ansiedade, fui encaminhado para tratamento com psicólogo e psiquiatra”.

43Embora seja tratado como tabu, o suicídio é mais frequente do que queremos enxergar. A cada 40 segundos, pelo menos uma pessoa no mundo tira a própria vida, o equivalente a 1 milhão de casos por ano, segundo a Organização Mundial de Saúde. Mesmo no Brasil, que registra índices abaixo da média – 6 a cada 100 mil, em 2015 –, ocorrem mais de 8 mil casos por ano, uma média de 24 mortes ao dia, de acordo com o Ministério da Saúde. O fenômeno é ainda mais preocupante entre os jovens: na faixa etária de 15 a 29 anos, o suicídio é a segunda causa de morte mais recorrente, de acordo com o Centro de Valorização da Vida (CVV), a maior ONG brasileira de prevenção ao suicídio.

Os maiores índices, acima da média nacional, estão concentrados nas comunidades indígenas – vide o suicídio coletivo entre os índios guarani- kaiowá, no Mato Grosso do Sul, em 2012 – e no Rio Grande do Sul, especialmente nas áreas rurais. Minas, por sua vez, ocupa a 15ª posição, com 5,3 mil casos por 100 mil habitantes. Na região metropolitana, Belo Horizonte é a recordista em números absolutos, segundo estudo da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, com 137 mortes voluntárias em 2013, seguido por Contagem, com 23. Já a maior taxa proporcional é a da pequena Mário Campos: com população absoluta de aproximadamente 13 mil pessoas, contabilizou três suicídios no mesmo ano, atingindo uma taxa de 22,7 por 100 mil.

Qual o motivo de índices tão altos? Não há explicações exatas. As razões se embaralham, mas conduzem ao fim da esperança e do crédito em si mesmo e na sociedade. O estopim pode ser o término do relacionamento, a perda do emprego, a morte de um parente, pressão nos estudos, alcoolismo, o diagnóstico de uma doença clínica, dificuldades financeiras... Mais recentemente, chamou a atenção o “jogo” da Baleia Azul, que pode ter culminado com a morte de um adolescente de 19 anos de Pará de Minas, na região Central. De origem russa, o game social desafia os participantes em 50 etapas autodestrutivas, como furar as mãos com agulhas e fazer uma tatuagem com estilete e, por fim, tirar a própria vida.

111Também não se pode negar o vínculo entre suicídio e religião, seja como fator protetor ou facilitador. O cristianismo, amparado no mandamento bíblico “não matarás”, condena o ato e o classifica como pecado desde a Idade Média, quando a Igreja Católica ordenou que o corpo dos suicidas fosse entregue às feras e às aves de rapina, e não enterrado. Não por acaso, países com população majoritariamente cristã têm taxas bem menores que as nações asiáticas ou com grande concentração de ateus. Caso da Lituânia, no Leste Europeu, onde o coeficiente de vítimas é de 38,6 por 100 mil habitantes, sete vezes superior à proporção brasileira.

Seja qual for a razão, é muito comum que ela esconda fatores biológicos. “Quase a totalidade das pessoas que cometem suicídio apresenta transtornos psiquiátricos, como depressão, bipolaridade e esquizofrenia”, afirma o psiquiatra Humberto Corrêa, coordenador da Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria e professor da Faculdade de Medicina da UFMG. O caso de pessoas que, conscientemente, entram no Baleia Azul, por exemplo, pode refletir este tipo de transtorno mental ou mesmo de aceitação social, já que, além do desejo de se matar, os participantes tendem a acreditar que serão aceitos como são no “desafio”, o que nada mais é que uma forma de pedir socorro.

A depressão, aliás, responde por cerca de 30% dos casos de suicídio, segundo a OMS (veja quadro). Basicamente, as pessoas que sofrem da doença apresentam alterações na transmissão de serotonina, o neurotransmissor responsável pelo humor. A degradação dessa substância química no organismo também está relacionada com o aumento da agressividade, da violência e dos impulsos, fatores determinantes na cartilha de quem tenta se matar. Não raro, o quadro neurológico é genético. “Ter parentes de primeiro grau que já tentaram ou cometeram suicídio também é um fator de risco”, lembra Corrêa.

Foi só a partir do século 18 que o suicídio ganhou interesse da medicina, passando a ser visto como ato de loucura. No século 20, o ato se enquadrou como problema de saúde pública. Em maio de 2013, o conceito de “comportamento suicida” chegou ao novo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM 5, trazendo o assunto definitivamente para o rol dos estudos científicos. A reclassificação traz consigo duas virtudes. A primeira é que as tentativas de suicídio poderão ser tratadas como tal e não apenas como uma ocorrência não identificada ou propositadamente mascarada nas estatísticas oficiais. A segunda, e mais importante, é que a quebra do tabu aumenta a capacidade de prevenção.

“O debate público sobre o tema hoje é a melhor ferramenta para prevenir o suicídio em qualquer idade. Existe muito preconceito sobre o assunto, e o silêncio dentro dos lares, escolas, imprensa e na sociedade em geral só serve para agravar ainda mais as barreiras existentes”, opina Adriana Rizzo, membro voluntária do CVV. Criada há 51 anos, a ONG tem uma rede de voluntários em todo o país disponíveis para atender pessoas angustiadas via telefone (141), chat ou e-mail de forma acolhedora e sem críticas. “Nós nos colocamos à disposição para compreender por que a pessoa chegou a pensar em tirar a vida. Muitas vezes, a atenção dispensada faz com que ela se sinta melhor, reorganize seus ideais e decida continuar a viver”, esclarece Adriana.

A estratégia do CVV – e, indiretamente, também do seriado 13 reasons why – é clara: colocar uma pedra sobre o tema e simplesmente evitá-lo não irão fazer com que menos pessoas optem pelo caminho do fim. Na verdade, quanto mais a pessoa fala sobre seus sentimentos e perdas, melhor. Só assim, ela poderá enxergar saídas mais viáveis. Aliás, é um erro pensar que as pessoas que falam em suicídio não o levem a cabo. Pelo contrário, ao revelar suas intenções elas estão clamando por ajuda.

Há de se levar em conta também as diferenças entre intenção e execução, bem como o nível de letalidade do método escolhido. Esta é uma hipótese, inclusive, para explicar o maior número de vítimas do sexo masculino em comparação ao feminino. “Os homens costumam empregar meios mais letais, como armas de fogo e enforcamento. Já as mulheres têm frequência mais elevada de tentativas, porém com menos mortes”, compara o psiquiatra José Manoel Bertolote, autor do livro O suicídio e sua prevenção (editora Unesp).

A propósito, as tentativas frustradas demonstram a ambivalência do comportamento suicida. Afinal, há uma diferença muito grande entre realmente querer morrer e o desejo de ter uma vida diferente em variados aspectos. Mas elas não devem ser encaradas como ferramenta para chamar a atenção. “Uma tentativa é o principal prelúdio para o suicídio de fato, ou seja, é o principal fator de risco. Assim, a vítima deve ser imediatamente encaminhada para um serviço especializado com o objetivo de tratar o transtorno psiquiátrico, identificar os fatores de risco e se estabelecerem estratégias para reduzi-los”, afirma Humberto Corrêa.

Quebrar a redoma de tabus em que o suicídio foi envolvido passa necessariamente pela mídia e o poder público. “Precisamos de mais campanhas que sensibilizem as pessoas sobre a importância do problema e a criação de serviços de atendimento específicos para grupos de risco”, clama Corrêa. É o caso, por exemplo, do programa mundial Suicide prevention (Supre), comandado pela OMS e com representantes distribuídos em todo o globo – no Brasil, a sede fica em Campinas (SP). Além de lutar contra o preconceito, o projeto busca reduzir o acesso a instrumentos que possam culminar em suicídios, tais como venenos e armas de fogo.

M., o jovem do início desta reportagem, descobriu isso em tempo. Em meio à sua confusão mental, ele encontrou forças para seguir a vida. Não é que os problemas simplesmente desapareceram. “Tem dias que não vejo perspectiva para nada. Mas, hoje, não vejo o suicídio como uma saída. A vida é assim, e a gente precisa buscar ajuda e continuar firme até que as coisas mudem de cenário”, contrapõe ele.




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