Turismo

Tesouros turcos

Viver Brasil viaja a Istambul e traça um roteiro de cultura, arte, compras e gastronomia por uma das cidades mais cosmopolitas do mundo
Fernando Torres
197 - 19/05/2017

1Portal entre o Ocidente e o Oriente, Istambul, a maior cidade da Turquia, carrega uma herança transcultural e milenar. A sobreposição de civilizações e o encontro de povos a transformaram em um poema épico, repleto de opostos. Minaretes e mesquitas reforçam os símbolos islâmicos, enquanto a iconografia cristã em museus e igrejas testemunha os tempos áureos do Império Bizantino, sediado em Constantinopla, antigo nome para Istambul. O último século ainda trouxe a modernidade e a laicidade política, convertendo a metrópole em epicentro cosmopolita.

Com tanta riqueza histórica e cultural, é inconcebível que Istambul – e a Turquia como um todo – esteja vivendo uma crise no turismo, devido aos atentados terroristas e à efervescência política dos últimos dois anos. No primeiro semestre de 2016, o país registrou queda de 22,9% no fluxo de turistas, sobretudo de brasileiros, que reduziram em 52% o número de check-ins no Aeroporto Internacional Atatürk. Números perturbadores para uma nação que já alcançou 12% do PIB com o turismo.

Preocupada com essa retração, a consultoria de luxo Teresa Perez Tours organizou uma viagem à Turquia para jornalistas e agentes, com o intuito de demonstrar o quanto o medo para visitantes é equivocado. A Viver Brasil esteve a bordo e constatou que Istambul continua apaixonante. Além do reforço com segurança nos aeroportos, com dupla passagem pelos raios X, a cidade vive policiamento intensificado – os próprios hotéis instalaram detectores de metais na recepção. O período também é mais favorável ao turismo low profile, já que monumentos e ruas normalmente lotadas agora se apresentam sem multidões e filas. Além disso, o câmbio se mostra favorável, com 1 lira turca valendo em torno de 1 real. Nada disso representa um clima desolador. Ao contrário, a alegria e a amabilidade dos locais continuam contagiantes.

A VIDA NO BÓSFORO

2Única cidade do mundo dividida em dois continentes, Istambul acontece às margens do estreito de Bósforo. Fazer um minicruzeiro pelas curvas do canal, que liga os mares Negro e de Mármara, encabeça a lista de passeios. A navegação revela a fortaleza Rumelihisari, a mesquita Ortaköy Camii, a ponte de Atatürk e as yalis, mansões dos célebres paxás.

arte da vida moderna de Istambul também está à beira do canal. Por ali, está o bairro Bebek, famoso por reunir celebridades turcas em bares e bistrôs hypados – como o Lucca, que, além de brunch aos domingos, serve massas, queijos, pescados e frutos do mar. Próximo à ponte do Bósforo, que liga o lado europeu e asiático, o bairro Ortaköy é mais turístico. O calçadão para pedestres tem bares, cafés, feiras livres e casas noturnas.


É também nas margens do estreito, no distrito de Besiktas, que ficam alguns dos melhores hotéis da cidade. Palácio otomano do século 19, o Four Seasons at the Bosphorus tem hammam (banho turco) particular e serve desjejum, brunch e coquetéis de frente para o estreito – do cais do hotel saem os melhores tours privativos pelo Bósforo, com direito à

É também nas margens do estreito, no distrito de Besiktas, que ficam alguns dos melhores hotéis da cidade. Palácio otomano do século 19, o Four Seasons at the Bosphorus tem hammam (banho turco) particular e serve desjejum, brunch e coquetéis de frente para o estreito – do cais do hotel saem os melhores tours privativos pelo Bósforo, com direito à visita interna da yali do designer Serdar Gülgün. Com atmosfera dourada e opulenta, o Shangri-la tem uma das suítes presidenciais mais caras do mundo, segundo o ranking anual do site Billionaire.com: 30 mil dólares a diária, com direito a 366 metros quadrados e três terraços privados com vista panorâmica para o Estreito.111

Ambos são vizinhos do palácio Dolmabahçe, último reduto do Império Otomano. Inspirada em Versalhes, a construção do século 19 mistura neoclássico e barroco com grandiloquência. O palácio tem 45 mil metros quadrados, 403 cômodos, tetos folheados com 14 toneladas de ouro, 131 tapetes de seda e lustre de 750 lâmpadas.

Tudo isso nada mais é que a “resposta” dos sultões ao palácio Topkapi, na região de Sultanahmet, que abrigou o centro do poder por aproximadamente quatro séculos e só foi aposentado quando o império já estava em decadência. O complexo de construções e jardins inclui o harém, onde viviam as esposas e concubinas dos sultões, e o museu com peças do tesouro imperial, como o anel de diamante de 86 quilates e a adaga de esmeraldas colombianas – bem como excentricidades como o fio da barba de Maomé e o cajado de Moisés.

ARTE SACRA

3O impressionante acervo histórico e artístico de Istambul está intimamente ligado à religião. Do lado cristão, a construção mais singular é a igreja de São Salvador em Chora, do século 5. Hoje transformada em museu, fica um pouco afastada dos sítios históricos, mas apresenta belíssima coleção de mosaicos e afrescos bizantinos, registrada em profusão nos livros de arte e história. No século 15, os otomanos cobriram as paredes com gesso, o que permitiu a preservação das obras, os mais importantes da arte bizantina remanescente.

Mas o monumento mais emblemático é a basílica de Santa Sofia ou Ayasofya (“Sagrada Sabedoria”), também na região de Sultanahmet. Erguida no século 6, pelo imperador romano Justiniano, foi considerada a maior igreja cristã até se transformar em mesquita, em 1453, após a queda de Constantinopla. Nessa época, os mosaicos cristãos foram cobertos e o templo ganhou inscrições islâmicas e minaretes. Já no século 20, com o início da República, transformou-se em museu, o único do mundo a exibir a iconografia de Jesus e Maria ao lado das inscrições de Alá e Maomé.

Separada de Ayasofya por um parque, a célebre Mesquita Azul, do século 17, também impressiona. Além de ser o único templo muçulmano de Istambul com seis minaretes, ela se tornou icônica pelo revestimento interior de 21 mil azulejos azuis e arabescos pintados à mão. No alto do bairro Eminönü, a Mesquita de Suleiman, o Magnífico se destaca pela imponência, avistada ao longe. Datada do século 16, tem grande importância histórica para a Turquia e é guardada pelo túmulo do próprio sultão.

3Quem desejar se hospedar em Sultanahmet encontra refúgio em outra unidade do hotel Four Seasons. O prédio, originalmente uma cadeia do início do século 20, oferece luxuosas suítes com terraços privados e o rooftop que dá vista para Ayasofya e para a Mesquita Azul. Nas áreas comuns, o jardim acolhedor é uma extensão do restaurante Seasons, que mescla pratos da cozinha turca e mediterrânea.

TRADIÇÃO TURCA

Antiga Rota da Seda, a Turquia tem fama na qualidade, sofisticação e bons preços do comércio desde os tempos bizantinos. O roteiro de descobertas pode começar na Orient Handmade Carpets, comandada pela família Sefer há cinco gerações. Estampados com padrões tribais, arabescos ou contemporâneos, os tapetes são tecidos fio a fio, de forma que uma peça pode levar um ano para ficar pronta. “A tradição turca diz que a linha do tear deve ser trabalhada na urdidura vertical, com nós contínuos e circulares, deixando a tapeçaria mais resistente e densa”, conta o proprietário e negociante Recep Safer.

4Datado de 1461, o Grand Bazaar tem 5 mil lojas com peças de cerâmica, azulejos, joias, lenços de pashmina, tapetes e muitos badulaques. O Mercado Egípcio, também conhecido como Mercado de Especiarias, é outro local de peregrinação. Especializado em temperos, frutas secas e condimentos, tem cem lojas. Em ambos, a barganha é regra de etiqueta.

Cosmopolita e contemporâneo, o bairro Nisantasi é destino de quem busca por vitrines internacionais. A rua Abdi Ipekçi, a mais estrelada, concentra lojas como Burberry, Prada, Louis Vuitton, Christian Louboutin, Tom Ford e Alexander McQueen. Todas são vizinhas do hotel butique The Sofa, com quartos decorados individualmente; e o Park Hyatt, em um palacete art decó da década de 1920.

A delicada cerâmica otomana também atravessou séculos e se exibe em várias lojas. Mas, para uma experiência realmente autêntica, o indicado é visitar uma olaria em Avanos, na Capadócia, a uma hora de voo de Istambul pela Turkish Airlines, que guarda o ofício desde o tempo da civilização hitita. A visita ao ateliê da Güray Seramik permite ver a fabricação ao vivo, da modelagem da argila no torno à pintura manual, terminando com a hipnotizante loja de jarros, pratos, azulejos e dervixes, monges muçulmanos conhecidos pela cerimônia em que rodopiam em transe místico.

KAFTA OU KEBAB?

Comer bem em Istambul é redundância. Seja com aperitivos típicos, como kafta ou kebab, até pratos da cozinha internacional, com uma pitada de ingredientes regionais, como iogurte, queijo de cabra, berinjela, passas, damasco e cordeiro, a fartura e o prazer à mesa são estimulados. Vale lembrar que a refeição autêntica nunca se encerra sem um chá ou café turco (diferente do europeu, a bebida não é coada), geralmente acompanhados de turkish delights, espécie de bala de goma com pistache, mel e água de rosas.

Na cobertura do hotel Marmara Pera, com vista de 360 graus, o Mikla já foi eleito diversas vezes como o melhor restaurante da cidade. Além dos pratos a la carte, o chef e proprietário Mehmet Gurs oferece menu-degustação com itens como cordeiro assado com iogurte e repolho; e bife tenderloin assado com berinjela e lentilhas.w

O Sunset, em Besiktas, também usa e abusa da vista e investe em decoração arrojada, como a simulação de uma árvore dourada no meio do salão. Dona de uma das melhores adegas de Istambul, a casa se destaca pela cozinha japonesa, entrando para a história como o primeiro sushibar de Istambul, desde 1999. O cardápio também contempla pratos da cozinha turca e contemporânea, com carnes nobres, frutos do mar, massas e risotos. Tudo embalado por música em tom de bossa nova.

Encerramos a temporada em Istambul no Spago, restaurante do chef austríaco Wolfgang Puck, no topo do hotel The St. Regis. Inaugurada há um ano, a casa é bastante disputada, combinando a linha farm-to-table com as cozinhas americana, asiática e italiana. O jantar é embalado ao som de DJs, uma batida boa que, combinada à vista do Bósforo, leva, inevitavelmente, à perda da noção do tempo.




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