Artigo

Ponte ou pinguela

Hermógenes Ladeira
197 - 19/05/2017

Economia e política são irmãs siamesas neste Brasil que abre a cada dia uma crise diferente para seus cidadãos. Hospitais públicos que não atendem a milhares de pacientes os quais, dia e noite, perambulam de porta em porta em busca de assistência médica. Escolas e universidades degradadas pelos próprios alunos, uma corrupção sistêmica e um inaudito crescimento da violência em todo o país. Não está fácil viver no Brasil nos dias atuais. Os índices de emprego voltam a cair, mantendo mais de 14 milhões de desempregados nesse limbo socioeconômico criado pela maior recessão da história nacional. Os níveis de corrupção, vale ressaltar, alcançam, hoje, números que deixam estarrecidos não apenas os brasileiros, mas todo o mundo.


A divulgação das delações dos controladores da maior construtora do país, srs. Emílio e Marcelo Odebrecht, veio expor a decomposição moral das relações entre a empresa e o estado e também com uma enorme parcela do mundo político. Este é o quadro do Brasil, estampado pela imprensa nacional em todos os últimos dias. Se vamos às páginas econômicas, o quadro é também desolador. Pelo menos 20 estados brasileiros estão em grave situação financeira, dependendo de recursos emergenciais da União. A mais grave situação de penúria, reconhecida por decreto, é a dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul que não pagam sequer os salários de seus servidores. A dívida pública federal, superando 3 trilhões de reais, já alcança cerca de 75% do PIB de 2016 que, por sua vez, foi inferior ao ano de 2015. Se voltamos ao noticiário político, o quadro é mais desalentador ainda.


A demissão do deputado Geddel Vieira Lima, do chamado núcleo duro do governo, não foi um “fatozinho” como quis dar a entender o presidente Michel Temer no encontro mantido com empresários e investidores. O fato foi da maior grandeza e suas consequências se agravaram com as recentes delações. E, como tudo que está ruim pode piorar, temos agora o Poder Judiciário em conflito com o Legislativo. As duas últimas decisões do STF, uma mantendo o presidente do Senado e a outra devolvendo um projeto de lei ao Congresso para ser refeito, são retrato flagrante desse conflito. Agrava sobremaneira a situação quando os três poderes não se entendem entre si. Temos então um presidente empenhado em acertar, mas cada vez mais solitário, perdendo elementos de sua confiança a cada mês. Além do ministro José Padilha, já são mais oito os investigados pela Lava Jato. A divulgação dos depoimentos prestados pelos srs. Emílio e Marcelo Odebrecht foi uma bomba de não sei quantos megatons despejada sobre todos nós. Assustou o empresariado que já inicia seus resmungos diante da crise econômica, como se esperassem um milagre do governo.


Nesta confusão marcada por uma amnésia moral, o governo emprega seus melhores esforços para reanimar a economia, mas, trafegando numa pinguela, como disse o ex-presidente Fernando Henrique, corre o risco de cair no rio. E como escrevi no princípio sobre a íntima ligação entre as crises política e econômica, que o empresariado não se iluda sobre este ano que se iniciou. 2017 terá as mesmas incertezas de 2016, agravadas pelo quadro de deterioração ética nas relações de outras empresas com o governo, a exemplo do grupo Odebrecht. Espero que se venham a dissipar as pesadas nuvens que sombreiam o poder, sobretudo com relação ao Executivo e o Legislativo. Que o bom senso de todos nos permita atravessar sem maiores tropeços o ano de 2017, chegando então às eleições de 2018, que haverão de promover um saneamento moral nos quadros eletivos, enquanto a Lava Jato cuida de enquadrar os demais envolvidos. Se não fomos capazes de construir uma ponte de acordo com os princípios éticos que deveriam nortear as relações republicanas entre empresários e governo, que sejamos salvos então pela pinguela atual que nos permitirá atravessar o rio onde piranhas e crocodilos estão à espreita.

Hermógenes Ladeira, empresário




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