Coluna

Faxina nas eleições

Paulo Cesar de Oliveira
199 - 16/06/2017

O assunto pode ser enfadonho – até concordo que é, ainda mais num momento como o atual, em que só se fala em crise –, mas inevitável. É que estamos muito mais próximos do que parece de uma nova eleição. O ano de 2018 está bem ali e teremos que voltar às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais.

Os que reclamam não ser a hora de falar em política, que o momento é de preocupação com a economia e as consequências de sua paralisação, como os 14 milhões de desempregados, não devem se esquecer de que, sem resolver a primeira, não se cuida da segunda. É como disse Bertolt Brecht, dramaturgo alemão (ou pelo menos se atribui a ele): “o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”. É da ignorância política, ou da omissão política, “que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.

Radical? Não, realista. A ascensão do mau político – e como eles existem no Brasil! – é a raiz de nossos problemas. E, que ninguém se iluda, se não houver uma mudança radical no comportamento do eleitor e da sociedade como um todo, teremos enorme dificuldade para matar esta raiz. É que chegamos a um estágio tal de degradação que o mau cheiro que exala da atividade política afasta os bons. Há um ditado popular que retrata bem a situação: “quem com os porcos se mistura, farelo come”. Quem tem o paladar mais refinado e se recusa a comer farelos prefere não se misturar. Prefere evitar rótulo de corrupto, que, lamentavelmente, muitas vezes de forma injusta e irresponsável, é colocado no político tão logo ele sai ungido das urnas. A sociedade, se deseja mesmo mudança, terá que encarar esta situação, deixar de colocar todos no mesmo balaio, pois o carimbo de que todos são iguais só interessa aos ruins e péssimos. Saber separar para saber escolher é fundamental para que os vocacionados a servir tenham coragem de ocupar seus espaços.

Sem a faxina, podem apostar, será impossível mudar. Será impossível recolocar a economia do país nos trilhos. As crises econômicas são cíclicas e atingem todos os países, maiores ou menores, mais ou menos desenvolvidos. Com a globalização, uma gripe na economia chinesa pode provocar uma pneumonia no mundo. Uma bolha bancária nos Estados Unidos pode tirar o emprego de um caseiro de sítio no interior de Minas. Seus efeitos, no entanto, podem ser maiores ou menores dependendo da seriedade e competência com que são enfrentados pelos governos. Países como o Brasil têm a enorme tendência de tratar essas questões de forma demagógica, sem impor austeridade no trato da coisa pública. Austeridade em momentos de crise significa impor sacrifícios necessários para atravessar o mar revolto com alguma segurança.

Mas sacrifícios podem significar perda de votos, ainda mais se os tempos de bonança não retornarem antes do período eleitoral. E ninguém está disposto a correr o risco de perder votos só para tirar o país da bancarrota. Prefere o caminho da falácia, da enganação de um povo que adora ser enganado por falsas promessas, ainda mais se elas forem de benefícios pessoais. É dessa forma que fazemos política. E assim viveremos em crises cotidianas, sem nos modernizarmos, sem, efetivamente, nos estruturarmos para mantermos uma economia minimamente estável, menos sujeita à ciclotimia do setor. E assim vamos chegar atrasados ao passado. Ao futuro, nem pensar.
Pensem nisso, no entanto, sem se esquecer de que não basta se preocupar com o presidente. É preciso lembrar que governadores e prefeitos também fazem estragos. Que deputados – estaduais e federais – e senadores fazem muito mais. Lembre-se de que a despreocupação com o voto leva às más escolhas de ministros – também do Judiciário –, assessores, dirigentes de estatais e de uma série de outras autoridades que, reparem, fazem parte do cardápio das delações.

Paulo Cesar de Oliveira, jornalista




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