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Super Conectado

Dependência de internet e redes sociais pode causar prejuízos no trabalho, nos estudos e nos relacionamentos, afetar a qualidade do sono e aumentar sintomas de ansiedade e depressão
Miriam Gomes Chalfin
199 - 16/06/2017

1 Se você passa muito tempo conectado, sente total desespero se estiver sem o celular, vive acessando as redes sociais, fica irritado ou deprimido se não tem como checá-las ou recebeu poucas curtidas, tem prejuízos no trabalho e nos relacionamentos sociais e afetivos, cuidado: você pode estar dependente. “Temos observado que as redes sociais têm sido utilizadas, cada vez mais, com mais frequência e intensidade. Isso contribui para que as pessoas fiquem bem mais dependentes porque a comunicação, na atualidade, tem sido primordialmente virtual. É comum que a pessoa faça uma postagem e fique na expectativa de que o retorno seja quase imediato.

Quando obtém o retorno, se sente aliviada e segue postando. É um movimento de estímulo e resposta que, dada a facilidade do uso sempre à mão do smartphone, aumenta a possibilidade do uso abusivo”, afirma a psicóloga Sylvia van Enck Meira, do Programa de Dependências Tecnológicas do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Pro- Amiti) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP).

“As redes sociais provocam estímulos que atingem o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina, neurotransmissor que causa prazer. A pessoa tende a repetir esse comportamento em busca daquela sensação ou para se afastar de sentimentos negativos que esteja vivenciando, como tristeza, ansiedade, solidão”, destaca a psiquiatra Julia Khoury, professora do Departamento de Saúde Metal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Inclusive, ela realizou, juntamente com o coordenador do Ambulatório de Dependências Químicas do Hospital das Clínicas da UFMG, o psiquiatra Frederico Duarte Garcia, a chamada Avaliação do Risco de Dependência de Smartphones em Estudantes Universitários.

A pesquisa foi feita entre 2014 e 2016, com 415 alunos da UFMG. Cada um deles respondeu a um questionário com 26 questões relacionadas ao uso de celular, como, por exemplo, “Eu me sinto inquieto e irritado quando não tenho acesso ao smartphone” ou “Em mais de uma ocasião, eu dormi menos que quatro horas porque fiquei usando o smartphone”. No resultado, quem marcou sete ou mais questões com “sim” tem alto risco para dependência e deveria procurar um psiquiatra para ter o diagnóstico. Segundo Julia,
44% dos entrevistados apresentaram rastreamento positivo e foram atendidos por especialistas. Desse total, 73% (137 pessoas) tiveram diagnóstico de dependência de smartphone e 93% (127), de redes sociais. “A dependência do celular reflete a de redes sociais porque o acesso é muito mais facilitado”, comenta a pesquisadora.

2 As consequências desse tipo de transtorno vão da redução do rendimento acadêmico, laboral e de outras atividades não relacionadas, como esportes e convívio social, à menor quantidade e qualidade do sono, além de aumentar o risco de acidentes de trânsito. “Também pode aumentar sintomas de ansiedade e depressão e causar dores no pescoço, no punho e nas costas por causa da posição”, acrescenta Julia Khoury.

O universitário Alexsander Douglas Matias, 23 anos, reconhece que, por várias vezes, correu risco de ser atropelado porque estava acessando as redes sociais na rua. Também já sentiu dor no braço por causa da má postura e perdeu prova na faculdade porque não conseguiu acordar. “Todas as noites, fico no celular e, muitas vezes, cheguei a dormir apenas duas horas. Quando acordo, a primeira coisa que faço é olhar o Instagram. Inclusive, acordo mais cedo para isso”, diz. Ele mesmo se considera dependente de redes sociais, já que tentou se desapegar e não conseguiu. “Desativei meu Facebook e Instagram, mas não consegui ficar sem. Fiquei muito mal de pegar o telefone e não ter nenhuma notificação, não poder ver os conteúdos que gosto, os blogueiros e digital influencers”, explica.
O relacionamento interpessoal também sofre as consequências. “Quando saio com meus amigos, fico postando fotos. Sempre tem alguém que fala para eu conversar em vez de ficar no celular. Já chegou a atrapalhar meu namoro, deu briga. Meu namorado queria mais atenção”, conta. Até mesmo o trabalho foi afetado. “Quando fui demitido, um dos motivos para isso foi o fato de eu ficar sempre olhando o celular”, revela. A vontade de acessar as redes o tempo todo é tão grande, que Alexsander não sai de casa sem o aparato completo: iPhone, relógio que conecta ao celular e iPad. “Isso para não correr o risco de ficar desconectado. Saio com eles todos os dias. O celular e o relógio são inseparáveis”, frisa. Ele também não se importa em gastar com aparelhos de última geração. “Quero cada vez mais um celular melhor para poder acessar as redes sociais e ter mais conforto. No último ano, comprei quatro aparelhos”, justifica.

5 Mas como saber se, neste mundo totalmente globalizado pela tecnologia, a pessoa é ou não viciada? Para a psicóloga Sylvia Meira, a dependência ocorre quando não se consegue deixar de usar o aparelho ou acessar as redes e, assim, outras demandas da vida acabam ficando de lado. A reação também é outro componente: se a pessoa não tem acesso ao smartphone, fica irritada, ansiosa ou deprimida. “Isso traz uma série de problemas quando se pensa na questão das interações sociais e familiares. Pessoas que estão vivendo períodos difíceis na vida (desamparo, perdas afetivas e/ou profissionais) são mais susceptíveis a essa dependência. Muitas vezes, elas estão com dificuldades para enfrentar situações na vida como tomar decisões e agir no mundo e acabam buscando refúgio na aparelhagem, aliviando um pouco a tensão do momento. As redes sociais funcionariam como um tipo de escape da situação que está gerando angústia ou ansiedade e, para obter alívio e prazer, a pessoa precisará acessar cada vez mais, como se fosse uma droga”, afirma a psicóloga.

Além do prazer, as redes sociais também trazem sofrimento. Por exemplo, quando a resposta não é o que a pessoa gostaria, como ter poucas curtidas ou receber comentários com os quais não concorda. Daí é apenas um passo para achar que não é querida, aceita ou admirada – e uma bofetada na autoestima. “A felicidade das redes sociais geralmente prejudica quem tem predisposição à ansiedade e à depressão. As pessoas têm que entender que essa felicidade postada é ilusória”, alerta Julia Khoury.

“Para quem é depressivo e usa redes sociais para se sentir melhor, a tecnologia ajuda no momento, mas ela não combate a causa do problema”, completa Sylvia Meira. Por outro lado, o relacionamento virtual pode ajudar no caso de fobia social. “O problema é que isso tende a fazer com que as pessoas busquem cada vez menos relacionamentos reais”, pondera a psiquiatra Julia.

“O fato de a realidade das redes sociais ser falsa quase me afetou. Sigo um monte de modelos. Quando uma posta foto de corpo sensacional, penso que gostaria de ser igual a ela. Acabo indo à academia ou fechando a boca para não engordar. Mas não acho que isso seja um problema, é um incentivo”, comenta a universitária Clara Marques Damasceno, 23 anos, que se considera viciada em redes sociais. Ela confessa que fica conectada praticamente a manhã toda e à noite. “Gosto de saber dos outros, o que estão fazendo, ver fotos.

É uma distração. Também tenho mania de postar fotos minhas e fico monitorando curtidas e comentários. Já cheguei a apagar fotos que tiveram poucas curtidas”, conta Clara. Ela também diz que sente dor no pulso pelo excesso de uso do smartphone e que, na faculdade, às vezes fica desatenta por causa de notificações recebidas.

3A universitária Ariana Pennacchia, 20 anos, diz que já chegou a sentir dores nas costas por causa da má postura na hora de utilizar o smartphone. Também pudera: como ela tem um blog, canal no Youtube e perfil no Instagram, acaba ficando de 18 a 19 horas, sem parar, com o telefone na mão. “Até na hora de comer e quando estou cansada, fico olhando as redes sociais. Apesar de tudo, acho que melhorei. No começo, há mais ou menos três anos, eu praticamente deixei a minha vida social de lado para ficar nas redes sociais. Hoje, consigo fazer as duas coisas”, garante. Mesmo assim, quando sai com os amigos, eles reclamam que ela não para de checar as notificações. A dependência é tão grande, que Ariana confessa que, se estiver sem o aparelho, fica maluca. “Recentemente, meu celular quebrou e fiquei sem ele por seis dias. Eu acordava e sentia que estava faltando um pedaço de mim”, frisa.

Já Luísa Soares Carneiro, de 19 anos, tomou a iniciativa de dar um tempo nas redes sociais. “Ano passado, posso dizer que eu era viciada. Acessava as redes sociais o tempo todo para ver o que as pessoas estavam postando e também páginas de humor. Eu me sentia feliz, me distraía e não pensava em outras coisas. Quando não acessava, sentia ansiedade. As pessoas reclamavam comigo porque eu só dava atenção ao celular. Meus pais falavam comigo, mas eu não prestava atenção. Em abril, quando comecei um novo relacionamento, resolvi dar um tempo porque isso ia me atrapalhar”, conta a universitária.

A abstinência foi um período difícil. “No início, ficava querendo entrar nas redes, me sentia triste por não saber o que estava acontecendo. Dava a sensação de estar desligada do mundo. Depois, fui percebendo que estava sendo muito mais produtiva na faculdade e no trabalho. Desativei meu Facebook e só acesso o Instagram para ver o que me interessa, como fotos de arquitetura e de amigos”, comemora. Luísa também destaca que o fato de as redes sociais mostrarem só coisas bonitas e felizes influenciou a atitude dela. “Percebi que esse mundo criado era irreal, era só aparência, não tinha conteúdo.” Por isso mesmo, ela faz questão de deixar um recado: “Muita gente precisa perceber que o mundo das redes sociais não ajuda a vida de ninguém. É só entretenimento”.


4 Luísa é um exemplo de quem conseguiu resolver, por conta própria, esse tipo de dependência. Entretanto, há casos de pessoas que precisam de ajuda especializada, incluindo avaliação neuropsicológica, entrevistas e atendimento com psiquiatra. Por enquanto, essa dependência não é reconhecida como doença. No entanto, identificam-se, associados a ela, quadros de ansiedade generalizada, como ansiedade, depressão e transtornos do controle dos impulsos. “Ainda que não se possa associar a dependência tecnológica como causa da depressão ou ansiedade, o uso dela pode estar ligado a sintomas dessas doenças, inclusive à fobia social ou ao Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade”, frisa a psicóloga Sylvia van Enck Meira.




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