Coluna

Esqueçamos Brasília: ao trabalho

José Martins de Godoy
199 - 16/06/2017

No penúltimo artigo, afirmei que havia atingido o limite da paciência. Todavia, o limite do brasileiro tem que ser elástico. A situação só piora, e o país parece derreter. Debitei ao foro privilegiado as mazelas que vêm nos assolando. Tinha a expectativa de que fosse derrogado pelo Congresso. No Senado, em segunda votação, a PEC proposta originalmente foi desfigurada. “Nossos representantes” querem mesmo o salvo-conduto para delinquir, amparados na morosidade da terceira instância. Na Câmara, tudo indica que o foro terá o mesmo desfecho. Nenhum parlamentar será preso, em vista da manutenção dos privilégios. Recentemente, com a delação de executivos da JBS, ficou demonstrado que não há exceção, a maioria encontra-se na vala comum. Agora não dá para diferenciar este ou aquele partido. É tudo igual. O espírito público e a lisura nos procedimentos são retórica de discursos.


Revisitando pronunciamentos de envolvidos, constata-se a desfaçatez. Todos os mencionados em delações negam peremptoriamente, na cara de pau, qualquer participação nos fatos narrados, dizendo que são ilações, mentiras, a fim de que os delatores tenham penas reduzidas. Como a rapinagem foi generalizada, articula-se um “acordão” para proteger a corja, inclusive sufocando a Lava Jato.


Do ponto de vista da gestão, tem-se que visar os cabeças do movimento, em consonância com a Lei de Pareto: em todo problema, poucas causas são importantes e muitas, triviais. É imprescindível cassar os nomes conhecidos, sendo desnecessário nomeá-los. São eles os grandes articuladores na luta pela manutenção deste lamentável estado de coisas. Se, por um passe de mágica, pudéssemos eliminar os líderes da corrupção, haveria uma onda moralizadora, a ponto de se construir uma consciência de que delitos como colar em provas e estacionar em local proibido são muito graves. Hoje, esses “pequenos” delitos são considerados “fichinhas” comparados ao que acontece no país, devido à promiscuidade entre os setores privado e público. Como “não há mal que nunca acabe”, fico na esperança de algum fato novo, que mude nossa realidade.


Podemos amenizar o clima: esqueçamos Brasília. Aliás, vejo bons exemplos acontecerem. O campo está dando resposta à crise, com safra recorde de grãos. A indústria de caminhões e máquinas está exportando montantes substanciais. Não obstante, muitas associações de classe e empresários ainda ficam aguardando concessões e providências do poder central. Na minha vida na universidade, trabalhamos para a indústria incessantemente e, por isso, captamos recursos para nossas atividades de ensino e pesquisa. Trabalhamos muito para governos e empresas e fomos remunerados pelo trabalho, sempre produzindo resultados além dos prometidos. Não devemos favor.


A propósito, todo povo tem o governo que merece – há controvérsias, pois acho que não merecíamos os últimos governos. Os Estados Unidos têm Trump agora. Não é que ele rompeu com o Tratado de Paris? Cabe à China, grande poluidora, tomar a liderança na condução de ações para frear as mudanças climáticas. Dando o exemplo, acaba de inaugurar a maior usina solar flutuante.


Da minha parte, também contribuo. Instalei usinas de geração de energia solar, uma na minha residência e duas na fazenda. Já tenho uma produção de 6,5 mil kWh/mês. Quando da primeira usina, em 2015, havia cerca de 400 projetos no país. Agora, quando da instalação da segunda, são cerca de 12 mil, e o custo caiu 30%. Vamos trabalhar, pessoal! Ora et labora, lema dos beneditinos. Em 2018, vamos tratar os políticos como merecem. Quanto a Trump, espero que fique isolado do concerto das nações.

José Martins de Godoy, engenheiro pela UFMG, dr. engenheiro pela Norges
Tekniske Hogskole, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG, cofundador
do INDG, instituidor e integrante do Conselho de Administração Superior da
Fundação de Desenvolvimento Gerencial (FDG), presidente do Conselho de Administração do Instituto Aquila. Visite www.blogdogodoy.com




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