Entrevista

Por uma eleição mais frugal

Senador Álvaro Dias, da nova sigla Pode, defende critérios de campanha mais econômicos
Sueli Cotta
200 - 04/08/2017

FOTO  THATIA MARTINSO cenário político brasileiro passa por um momento de transformação forçado pelas investigações da operação Lava Jato. As regras eleitorais e partidárias, no entanto, permanecem as mesmas, e o eleitor corre o risco de não ver as mudanças desejadas nas próximas eleições. Para alterar esse quadro, o senador Álvaro Dias (Pode-PR), acredita que seria necessário deixar a discussão do fundo eleitoral para outro momento e se fazer uma "disputa franciscana, miserável do ponto de vista econômico e financeiro", para afastar a corrupção e, quem sabe, os maus políticos. Ele afirma estar disposto a fazer uma campanha assim, caso entre na disputa no ano que vem.

O desgaste da classe política é um problema para os que vão disputar as eleições de 2018?
Considerando que não existe nação sem política e políticos, é fundamental contribuir para que as pessoas possam separar o joio do trigo na atividade pública. É uma missão complexa, mas que deve ser desenvolvida com o apoio das pessoas mais lúcidas da sociedade. Temos, sim, um momento de grande desgaste dos políticos, de modo geral, e os partidos políticos estão arrasados. Teremos grande dificuldade quando iniciarmos o processo eleitoral no próximo ano. Nossa tentativa ao contribuirmos com a criação do Pode [sigla para Podemos] é exatamente afastar os partidos políticos rejeitados pela população, na esperança de que, com um comportamento diferenciado e uma tática inovadora, possamos conquistar o apoio popular.


Como mostrar ao eleitor que o podemos não é só um velho partido com uma nova roupagem?
A estratégia é deixar bem claro nosso programa, nosso modelo de gestão e práticas adotadas, não só no discurso, mas com exemplos. Por isso, já nas primeiras semanas da sigla, tomamos providências como a expulsão de um prefeito no interior da Paraíba e de dois vereadores de Foz do Iguaçu (PR) pela prática de corrupção. Quem investigar pode verificar que nenhum dos partidos políticos, mesmo com essa enxurrada de denúncias, expulsou qualquer dos seus militantes por esse motivo. Ao contrário, há quem homenageia seus presos.

Se não houver mudança nas regras, a tendência não é a de se ter mais do mesmo?
A operação Lava Jato está mudando o cenário eleitoral e será o princípio adotado pelo eleitor: excluir os que estão realmente envolvidos em corrupção. Isso me parece uma atitude preliminar da população. Acredito que as pessoas lúcidas da sociedade - refiro-me a lideranças sociais, como trabalhadores, empresários, igrejas e instituições com líderes de credibilidade - certamente não se omitirão no processo eleitoral. Omissão até aqui pode ser perdoada, mas, daqui por diante, pode ser fatal para as pretensões de se recolocar o país nos rumos do desenvolvimento. A crise econômica, social, política e ética se aprofundou de tal modo que, se não tomarmos cuidado, certamente levaremos o país a uma situação dramática por mais tempo.

FOTO  LUIZ WOLFF

O custo das campanhas eleitorais também está em debate, principalmente depois das denúncias do uso de caixa dois. Como serão as regras no ano que vem?
Acredito que o Fundo Eleitoral de aproximadamente R$ 3,5 milhões deve ser aprovado. Isso se apresenta para a população como uma espécie de afronta, diante do quadro de descrédito que permeia os partidos políticos. Quando há siglas acusadas de serem organizações criminosas e lavanderia de dinheiro sujo, instituir o Fundo Eleitoral que vai abastecer de recursos o caixa desses partidos certamente provoca indignação. Particularmente, sou contra essa iniciativa ou o financiamento público de campanha, que pode vir a ser discutido futuramente em outro cenário. Hoje, ele encontra o repúdio, a rejeição da população e, por isso, me posiciono contrariamente a essa proposta. Acho que essa campanha eleitoral deve ser muito diferente das demais. Mais do que uma campanha franciscana, deve ser uma campanha miserável do ponto de vista econômico e financeiro. Acho que deveríamos utilizar os recursos da modernidade, por meio da internet, com a utilização do cartão de crédito, sem a burocracia que obrigue o doador a ir a uma agencia bancária fazer depósito em nome de seu candidato. Acho que deveríamos facilitar essas doações pessoais, obviamente limitadas à legislação. Acho que, desta forma, teríamos uma eleição com índices de corrupção reduzidos.

A condenação do ex-presidente Lula muda o quadro para as eleições de 2018 e pode acirrar o quadro eleitoral?
Ela confirma a alteração do cenário das eleições na esteira da operação Lava Jato. Aliás,não só essa decisão. A ação da investigação revelando todas as mazelas da política nacional é que muda o quadro partidário. Por se tratar de um ex-presidente da República, esse fato tem maior notoriedade, portanto, maior peso. Promove um desgaste maior daqueles que estão envolvidos. Sem dúvida, os políticos que saem em defesa do ex-presidente e que o têm como modelo e contra o procurador Deltan Dallagnol estão aprofundando o desgaste que pesa sobre eles. Com a divulgação que o ex-presidente depositou R$ 9 milhões em um fundo, obviamente há prova cabal e definitiva, não há o que se discutir em relação a prova material e documental. É a explicitação do comportamento de quem liderou um processo de corrupção no país.

Há uma tentativa de desqualificar a condenação do ex-presidente Lula pelo juiz Sérgio Moro e o trabalho da operação Lava Jato. Essas críticas podem abalar as investigações?
É uma tática usual no mundo do crime: desqualificar quem investiga, quem denuncia e a própria denúncia. É uma tática utilizada pelos especialistas do crime. Naturalmente a população brasileira está atenta a esta realidade e vai se posicionar na defesa da Lava Jato, do Ministério Público Federal, das pessoas que se tornaram emblemáticas como o juiz Sérgio Moro, o procurador Rodrigo Janot e o procurador Deltan Dallagnol.

O presidente Michel Temer se articula para se manter no poder. Que futuro ele pode ter no governo?
É um verdadeiro calvário. O presidente Temer usa o seu tempo de forma integral, os seus dias, as suas horas, os seus minutos na busca de estratégias para a preservação do seu mandato, mas o país continua sangrando. Esse é o drama que vamos viver. Os procedimentos são lentos e, certamente, este mandato ainda não se esgota nos próximos dias. É um mandato que se prolongará. Não sei se até o fim dos seus dias, mas certamente por mais algum tempo e se prolongará até que o desgaste do presidente, que já é fantástico, se torne ainda maior e ele acabe sendo julgado.

 




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