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Made in BH

Artistas conquistam espaço no exterior fazendo o que mais gostam: atuar, produzir e cantar
Miriam Gomes Chalfin
201 - 11/09/2017

DivulgaçãoSonhar faz parte da vida, é intrínseco do ser humano. Pensando bem, é muito fácil. O difícil mesmo é concretizar um sonho, mas isso está longe de ser impossível: quando se quer muito alguma coisa – e se faz por onde, é claro –, parece que o mundo conspira a favor. E aí tudo acontece. Foi assim com Gabriela Dias, Daniela Savassi e Yuri Guerra, três belo-horizontinos que enfrentaram os mais diversos obstáculos, como a língua estrangeira e a saudade da família, para fazer sucesso no exterior com a própria arte.
Gabriela, por exemplo, tinha o sonho de estar na TV. Pensou em fazer jornalismo, mas acabou optando pela profissão de atriz. Aos 15 anos, foi com a cara e a coragem para os Estados Unidos, tentar uma vida melhor. Por lá, começou trabalhando como doméstica em Cross City, uma pequena cidade da Flórida. As dificuldades começaram ainda na viagem: “Chorei muito no avião porque estava nervosa. Não falava inglês, estava indo para um lugar que não conhecia, sem ninguém por perto para cuidar de mim”. Mas ela garante que a adaptação não foi traumática. “Sempre fui muito responsável, não era mimada, o que me ajudou. Também me adapto rapidamente, adoro mudar de lugar”, explica.

Depois de concluir o ensino médio, Gabriela se mudou para Nova Iorque, onde trabalhou como babá, cuidadora de cães e também em restaurantes. “Tinha muito emprego à noite e comecei a conhecer pessoas. As oportunidades acabaram aparecendo”, lembra. Sabe aquela coisa de o universo conspirar? Pois é: Gabriela começou a estudar atuação na escola de teatro Stella Adler, uma das mais famosas de Nova Iorque, e se entrosou no meio. Daí surgiu o primeiro teste e, depois, vieram as participações em filmes independentes. 

O primeiro grande filme em que atuou foi The truth about Emanuel (A grande ilusão), lançado em 2013, com Jessica Biel e Kaya Scodelario. O papel de Gabriela foi a infância da personagem da Jessica, com quem ela tem semelhança. “Trabalhei com pessoas de alto calibre, tive muita mídia, saí em várias revistas. Isso me abriu muitas portas. Também passei a fazer propaganda para marcas como Wella, Pantene, Nestlé. Hoje em dia, sou convidada para os comerciais como atriz, como alguém que já tem nome reconhecido”, destaca.
De degrau em degrau, Gabriela foi conquistando seu espaço, não só como atriz, mas também como produtora. No momento, está em pré-produção um filme de ação, que começará a ser filmado ano que vem na Rússia e no qual Gabriela será atriz coadjuvante. Ela também está negociando os termos de uma proposta para filmar um longa-metragem em Bollywood. Aliás, Gabriela Dias já fez muitos trabalhos na Índia. Mas a novidade mais quente – e esperada pelos fãs da atriz – é o lançamento mundial, em 2018, do longa Burguesinha, filmado em Greenwich, Connecticut, uma das cidades mais ricas da América. Gabriela faz a protagonista, Luísa, brasileira filha de um político de Minas Gerais, que vai para os Estados Unidos, no verão, estudar. Com o envolvimento do pai num escândalo político, ela acaba não podendo voltar ao Brasil. “É a história do imigrante, só que com o viés contrário: ela vai rica e fica pobre”, adianta.
Segundo Gabriela, esse é seu primeiro papel como protagonista, em que contracena com muitos artistas famosos de séries. Parece difícil? Não para esta mineira decidida: “Não foi um desafio, é o meu trabalho. Estou no mundo do entretenimento há quase duas décadas. Não tenho qualquer dificuldade de estar à frente das câmeras”. Além do novo filme, Gabriela Dias também vai lançar, em novembro, um livro de autoajuda, com a própria experiência de perseverança e positividade no dia a dia.
DivulgaçãoJá a atriz Daniela Savassi atuou bastante no Brasil antes de partir, em 2013, para o Canadá, onde cursou atuação na escola de cinema de Vancouver, uma das mais conceituadas do mundo. Durante o curso, chegou a fazer 20 curtas na escola, dois deles premiados. Também participou de outros trabalhos, como o longa indiano Sardaarji, história sobre um caça-fantasmas contratado para trabalhar num castelo. “Fiz participação como repórter e também trabalhei no figurino e como assistente do departamento de arte. Depois, fui chamada para fazer dois videoclipes indianos e comerciais”, conta.
No fim de 2015, lançou a produção própria Everything for almost nothing (Tudo por quase nada), que participou de três festivais, na Ásia, na Índia e em Portugal. “É um filme sobre desapego e o sentido da vida, baseado na minha história real quando decidi ir para o exterior”, resume. No ano seguinte, atuou no longa sobre o tráfico de pessoas Salva-nos, selecionado para o Festival de Cannes. Também filmou o piloto da web série Menage, uma comédia escrita, produzida e encenada por ela e dois atores. A série já foi selecionada para sete festivais e venceu dois deles em Los Angeles, um no Caribe e um na Índia. “Agora estou entretida com isso. Já temos 10 episódios escritos e vamos estrear a temporada em 2018”, avisa Daniela. Segundo ela, Menage é a primeira minissérie internacional com uma atriz brasileira.

Para a atriz, apesar das dificuldades, atuar lá fora é mais profissional do que no Brasil. “Se você é bom, consegue seu agente, que vai te mandar para os testes. Todos têm possibilidade de ir para os testes. No Brasil, tem muito o QI (quem indica), não é tão justo. Muitas vezes, atores excelentes acabam desistindo porque não têm acesso às oportunidades”, compara. Lá fora, a maior barreira é a língua, é ter o sotaque do inglês americano. “Para quem é brasileiro, o trabalho é em dobro. É muito desafiador porque você tem que entender o contexto. Dá um estresse maior na hora de atuar porque as pessoas julgam muito”, desabafa.
Mas isso não impediu que ela conquistasse espaço num mercado tão concorrido. “São muitas conquistas. Cada trabalho é a superação de um desafio, de obstáculos, de medos. É a arte que me faz ultrapassar todos os medos”, comenta. É a arte também que move Daniela desde a infância. “Quando era pequena, fazia apresentação de teatro no prédio, na escola, fazia teatrinho de bonecos. Lembro que, aos 5 anos, uma amiga me perguntou o que eu queria ser quando crescesse. Eu disse: atriz”, conta Daniela. Ela correu atrás do sonho e, mesmo estudando direito, fez cursos de teatro e cinema. A peça infantil O reino encantado, em que fazia três personagens, ficou em cartaz por dois anos. “Percebi que era o que eu realmente queria fazer. Saí do estágio em direito, me formei, mas nunca atuei na área. Dois anos depois, fui para a Europa para conhecer a arte teatral lá fora”, diz. De volta ao Brasil, fez cursos em escolas famosas do Rio e participações em novela e programas da Globo e da Record. O contato com o exterior aconteceu depois do programa Limites humanos, em que era apresentadora de histórias de pessoas que driblaram a morte ao fazer esportes radicais. Pronto: as portas estavam abertas e ela acabou escolhendo a escola de cinema de Vancouver.
 Artur CustódioFoi também em Vancouver que o cantor lírico Yuri Guerra deu uma virada radical na vida. Aos 15 anos, partiu para um intercâmbio no Canadá, mais precisamente na St. George's School. Só que o projeto ia além: ele queria estudar música, o que começou a fazer na Universidade da Colúmbia Britânica. “Depois do intercâmbio de um ano, a escola me convidou para terminar o ensino médio, com bolsa integral. Naquela época, fazia concertos para arrecadar fundos para movimentos sociais. Era um dos cantores convidados”, lembra. Depois de terminar o ensino médio, recebeu convite para estudar na Academia de Música de Vancouver. “Foram dois anos de curso. Fazia apresentações pela cidade, fui artista voluntário de vários festivais, participei de concertos. Nunca parei.”
O próximo passo foi pedir transferência para o Conservatorio Giovanni Battista Martini di Bologna, a mais antiga escola superior de música da Itália, aberta em 1804. Claro: para um cantor lírico, nada mais natural que estudar no lugar que é o berço da ópera. Não foi fácil, já que Yuri teve que fazer testes e chegou lá completamente desconhecido. “Participei de audição com 48 pessoas e oito foram escolhidas. Atualmente, sou o único brasileiro presente no conservatório, onde estou há três anos. Em novembro agora, vou receber o título de maestro de canto lírico”, comemora.
E isso tudo com apenas 22 anos de idade! É que, na ópera, o cantor normalmente consegue se destacar com o avanço da idade. “Você vai se aprimorando, desenvolvendo melhor a voz”, justifica. Fora isso, tem a questão da paciência: quando se é jovem, normalmente se quer tudo rapidamente. “Quando se faz um trabalho na ópera, não acontece assim. É o tempo do corpo, e não do que você quer. Tenho que ter paciência comigo mesmo, me dar o tempo de amadurecer a qualidade vocal e a técnica. São coisas que podem acontecer em meses ou anos”, explica.
Enquanto isso, ele vai encantando os ouvintes por onde passa. Um dos momentos mais emocionantes foi o encontro com o papa Francisco, em uma audiência na praça de São Pedro. “Eu não sabia se sentava, se ficava em pé. Foi um momento surreal. A gente vê o papa na TV, quase não acredita que ele é uma pessoa que você pode tocar. Só não chorei porque tinha que cantar. Depois que cheguei em casa, achei que tivesse sido um sonho”, lembra. Falando em sonho, Yuri deseja se tornar um cantor lírico de reconhecimento mundial. “Também quero ser representante da cultura brasileira no exterior”, adianta. Para isso, trabalha bastante com compositores brasileiros, como Heitor Villa-Lobos. Meio caminho já está andado: “Estou sendo considerado um dos novos intérpretes de Villa-Lobos no Brasil e no mundo”, garante o cantor, que descobriu seu talento aos 6 anos. Aos 8, ingressou no coral da Fundação Torino e, pouco tempo depois, se tornou primeira solista.




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