Cidade

Será o fim da sangria?

Depois de acidentes fatais no último mês, prefeitura de Belo Horizonte quer assumir a gestão do Anel Rodoviário em caráter de urgência
Fernando Torres
202 - 11/10/2017

LINCON ZARBIETTI  O TEMPOMotociclista morre em acidente com caminhão. Carreta prensa veículo em mureta e deixa três mortos. Seis ocupantes de uma van ficam feridas em engavetamento. Todas essas tragédias, noticiadas neste mês de setembro, têm como palco o Anel Rodoviário. Só este ano a via já presenciou 22 mortes, cerca de 50% de todas as ocorrências registradas pela Polícia Militar Rodoviária (PMRv). Uma verdadeira hemorragia.


Com fluxo diário entre 150 e 160 mil veículos, expansão de quase 50% desde 2011, o Anel coleciona projetos de revitalização. Mas os estudos não saem do papel, a exemplo do elaborado pelo DER-MG: orçado em R$ 1,5 bilhão, se arrasta desde 2011, sem previsão de início, quando a entrega era oficialmente anunciada para 2014.


O atual responsável pela rodovia é o Departamento Nacional de Trânsito (Dnit). Mas a prefeitura de Belo Horizonte quer mudar isso. Em junho, conseguiu parecer favorável na Câmara ao Projeto de Lei 251/17, que busca transferir ao Executivo a administração do Anel. Dado o acidente de 6 de setembro, que envolveu um caminhão, seis automóveis e resultou em três vítimas fatais de uma família de Caratinga, a municipalização tomou caráter de urgência.


Dois dias depois da tragédia, a PBH entrou com uma ação civil pública contra a União, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a Via 040 (que administra a BR-040 e 10,5 km do Anel), solicitando a transferência de recursos federais para o município. Devido à gravidade, a procuradoria-geral ainda pede à justiça uma antecipação da tutela, que pode ser concedida por meio de liminar.


“Assumir a via é um projeto para não matar gente. Não é questão de trafegabilidade, é de vida humana. Essa carnificina tem que acabar”, declarou o prefeito Alexandre Kalil (PHS), em coletiva. A prefeitura ainda entregou ao Ministério Público uma representação criminal contra o superintendente do Dnit em Minas, Fabiano Martins Cunha, solicitando abertura de investigação para apurar crimes de prevaricação, lesão corporal culposa, entre outros. Procurado pela reportagem, a autarquia (nas esferas federal e estadual) não atendeu aos pedidos de entrevista.


Se a municipalização vingar, uma das principais urgências é colocar em prática o projeto de pista exclusiva para caminhões. “Também queremos alargar os estreitamentos, melhorar a sinalização e as marginais, abrir áreas de escape e instalar mais redutores de velocidade e pontos de vigilantes físicos”, adianta o procurador-geral de BH, Tomáz de Aquino Resende. O Anel também poderia passar a ter semáforos, redução de velocidade e maior acessibilidade para pedestres. Na coletiva, Kalil disse que as medidas imediatas custariam R$ 600 milhões.
A transferência de tutela também altera a forma de olhar para o corredor, já que, para a prefeitura, o Anel se transformou em uma avenida urbana – bem diferente do propósito com que foi concebido nos anos 1950, com apenas duas pistas. “Além de muito ruim, a via está sendo usada de forma inadequada, com tráfego de caminhões, carros de passeios, motos, bicicletas e pedestres. A solução ideal seria a construção de um contorno viário mais afastado, o Rodoanel, destinado a transporte de carga de passagem”, constata Resende.


A ideia de municipalização, porém, não é exclusividade do governo Kalil. Em 2009, primeiro ano da gestão de Marcio Lacerda (PSB), a Câmara votou em segundo turno projeto de lei semelhante. Mas a proposta não vingou e pelo menos mais de 150 mortes aconteceram. Como o acidente em janeiro de 2011, no Betânia, envolvendo uma carreta e 15 veículos, que resultou na morte de cinco pessoas. “Estava no congestionamento e vi, pelo retrovisor, o caminhão descer, sem freio. Não tinha pra onde ir, nem o que fazer, só esperar”, recorda uma das motoristas, Petrarka Gibosky. No carro, junto com ela, duas filhas e uma sobrinha. A caçula Ana Flávia, de apenas 2 anos, morreu na hora. Já Laura, a sobrinha, de 4, ficou internada por seis meses e ficou com paralisia cerebral.


“Meu sofrimento e minha saudade são diários e devastadores. Só falo publicamente com o intuito de que alguma autoridade realmente tome providências. É triste saber que nada irealmente preventivo foi feito. Não quero que outras pessoas sofram o que eu sofri, que virem estatísticas como nós”, conclama.




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