Entrevista

"Viramos todos inquisidores"

Psiquiatra e psicanalista diz que vivemos um estado de espírito condenatório terrível, seja no trato de questões políticas, sexuais ou de costumes
Sueli Cotta
202 - 11/10/2017

PEDRO VILELA/AGÊNCIA I 7A intolerância, o ódio e a violência tornaram-se rotina para o brasileiro ,que passa boa parte do seu tempo nas redes sociais trocando farpas, criticando, atacando quem não pensa como ele. A política dividiu famílias, afastou amigos e é responsável por situações extremas. Os exemplos são muitos, mas algumas questões ganham destaque pela recorrência e pelas reações exageradas. Um exemplo está nas respostas à decisão do juiz federal Waldemar Cláudio Carvalho, que concedeu uma liminar para tornar legalmente possível que psicólogos ofereçam terapias de reversão sexual, ou a “cura gay”, como passou a ser tratado nas redes sociais e pela mídia. Por que a homossexualidade é um tema tão difícil de ser tratado pela sociedade? O psiquiatra e psicanalista Javert Rodrigues entende que, quanto mais violenta a reação, mais dificuldade o agressor tem em assumir a própria condição de homossexual. Em outras palavras, segundo ele, a intolerância do agressor de homossexuais acontece porque ele próprio é um gay enrustido, que ataca o que o atrai, mas rejeita em si mesmo.

A polêmica da cura gay mostra que a homossexualidade ainda é um problema para a sociedade?
Na Grécia antiga, o amor principal não era o amor às mulheres, mas o amor ao jovem. A homossexualidade era plenamente aceita. Em Esparta, que foi o país mais guerreiro na antiguidade, aos 12 anos os meninos eram mandados para os quartéis, onde eram educados, e um tutor os introduzia não só na arte da guerra, como na atividade afetiva. E ai daquele jovem que não demonstrasse coragem em uma batalha! A homossexualidade masculina era mais transparente, a feminina, mais encoberta. Com o correr do tempo, as pessoas famosas que eram homossexuais eram toleradas na sociedade. Mas, na época vitoriana, tomando o exemplo da Inglaterra, a homossexualidade não era admitida. O escritor Oscar Wilde foi preso porque era homossexual. Havia uma perseguição a toda atividade homossexual em certos lugares da Europa, uma repressão acentuada, inclusive, com a criminalização da homossexualidade masculina. A feminina passava despercebida.

Por que a sociedade mudou em relação a essa questão?
Antigamente, as meninas andavam de mãos dadas e todo mundo achava normal, ninguém colocava maldade. Em 1935, Freud responde a carta de uma mãe que dizia que o filho estava tendo práticas e condutas homossexuais, dizendo que tratamento não resolve. A homossexualidade é a escolha do objeto, que não é feito de forma consciente, às vezes em um trajeto consciente, inconsciente. Algumas escolhas podem ser feitas em situações quando uma mãe é extremamente possessiva, que promove uma identificação muito grande da criança com ela própria, a criança acaba adotando uma certa imitação, se identificando com a mãe. Como, às vezes, o pai castrador e violento acaba provocando uma rejeição à figura masculina e uma identificação com a figura feminina. Esses são alguns traços da homossexualidade.

o que define a sexualidade?
Isso é um enigma, de certa maneira. Somos formados por um genoma feminino e um masculino. A maneira como eles se conjugam é aleatória. É possível perceber que certos meninos já nascem com toda uma conduta e trejeitos femininos. É difícil dizer que há um caminho biológico, mas deve haver, sim. No caso da transexualidade, essa questão talvez seja mais intensa, porque desde pequeno o transexual tem uma rejeição pelo estatuto biológico do sexo dele. É uma mulher com o corpo de um homem ou um homem com um corpo de mulher. Isso é irreversível, o aspecto biológico talvez influencie mais. Nunca fui procurado na minha clínica, nesses 50 anos de profissão, por um transexual. Não é comum que te procurem porque eles estão tão convictos da identidade deles, que não têm essa questão, a dúvida. Já fui procurado por homossexuais femininos e masculinos, não que quisessem deixar de ser homossexuais, mas pelos conflitos.

Há 50 anos, era mais difícil a família aceitar a homossexualidade. A rejeição dificultava a própria aceitação?
Antigamente, havia a rejeição da família, do grupo, da sociedade. As pessoas viviam um conflito interno muito grande e toda atuação tinha que ser escondida. Daí criou-se uma condição, que era prejudicial a eles, de procurar, muitas vezes, parceiros promíscuos, como garotos de programa. Mas isso acontecia da mesma maneira com os heterossexuais que, para fazer a iniciação sexual, procuravam uma prostituta.

Os homossexuais, muitas vezes mantinham uma vida dupla, constituíam família e tinham os encontros homossexuais...
Eles conseguiam manter uma aparência, muitas vezes se disfarçavam e tinha uma vida oculta. E quando essa vida se revelava, trazia uma questão psicológica para os filhos. Há 50 anos, era impensável ver meninas de mãos dadas se beijando, meninos se beijando na praça. Os homossexuais começaram a estabelecer vínculos abertos, estáveis, sem precisar correr riscos ou procurar parceiros promíscuos. Isso foi uma coisa muito boa, a formação de um par, de uma família.

Atualmente existe, inclusive, a representação dos homossexuais no Congresso. isso é um avanço?
Não existe uma perseguição como havia na Idade Média, como na época vitoriana, mas ainda há violência contra os homossexuais. É uma intolerância e, é bom destacar, que todo agressor de homossexuais é um homossexual enrustido. O sujeito ataca aquilo que ele teme e por aquilo que ele se sente atraído, de certa forma. A pessoa agressiva, violenta contra o homossexual, pode saber que, inconscientemente, ela se vê naquela posição e quer destruir aquilo que não aceita nela. Na Alemanha nazista, houve uma perseguição violenta aos homossexuais, aos ciganos e aos judeus. Mas boa parte dos soldados nazistas tinha traços homossexuais. Esse é um fator pouco estudado, mas, no fundo, existe.

Quando surge uma questão como o da "cura gay", as reações são virulentas. Mas isso vem acontecendo em várias questões. O Brasil tem dificuldade em debater seus problemas?
Umberto Eco diz o seguinte: a mídia deu voz aos imbecis. O que vemos, em grande quantidade, são pessoas pouco dotadas, com atitudes agressivas e violentas, seja de que lado for. Seja no trato de questões políticas, sexuais, costumes, na condenação dos outros, percebemos cenas deploráveis. As pessoas estão em um estado de espírito condenatório terrível. Viramos todos inquisidores, queremos fazer justiça com as próprias mãos.

Os líderes políticos têm certa culpa nesse processo, ao fomentar essa divisão na sociedade?
Historicamente, a intolerância em qualquer área, religiosa ou política é um sinal de barbárie, de precária civilização. Procura-se sempre um bode expiatório para colocar a culpa. Essa virulência, de certa forma, sempre existiu: a intolerância religiosa com São Bartolomeu, na França; a inquisição, que torturou e matou; os fundamentalistas islâmicos, que ameaçam explodir as casas e, aqui no Brasil, tivemos a polêmica na exposição fechada em Porto Alegre. Por que não colocaram um limite de idade? Vai quem quer. Estamos vivendo um momento complicado. Essa intolerância, essa virulência, fomentada tanto pela esquerda quanto pela direita, é extremamente prejudicial à sociedade.




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