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Yes, she can!

Embora ainda sejam minoria no mercado de startups, as mulheres se organizam e mostram que têm competência de sobra para empreender e inovar
Fernando Torres
203 - 01/11/2017

Homens saem para caçar, enquanto mulheres ficam na caverna. É mais ou menos assim, no Paleolítico, que está o mercado da tecnologia em relação à igualdade de gêneros. O desnivelamento e a baixa representatividade começam já na faculdade, com quase 80% de índice de evasão em cursos ligados à tecnologia da informação (veja quadro na página 59), e passa pelo próprio mercado, com dificuldade de alocação, baixos salários e discriminação. Infelizmente, isso não é exclusividade brasileira. Em nível mundial, o sexo feminino representa, por exemplo, apenas 17% do quadro de funcionários da Google e 30% da Apple, segundo dados da Escola de Negócios de Harvard. E embora o Vale do Silício tenha mulheres em altos cargos de chefia – como Sheryl Sandberg, chefe operacional do Facebook –, as startups locais chefiadas por mulheres receberam apenas 8% do total de capitais de 2016, de acordo com estudo feito pela firma de investimentos Female Founders Fund.
Pedro VilelaSão números como esses que tornam iniciativas como a She’s Tech tão importantes. O coletivo, fundado em Belo Horizonte, em outubro de 2016, busca fortalecer a presença feminina em startups. “Nosso objetivo é inspirar, engajar e capacitar mulheres para trabalhar e empreender em negócios de inovação e tecnologia”, descreve a líder e fundadora do movimento, a publicitária e relações-públicas Ciranda de Morais. A história teve início quando ela própria sentiu despertar a veia empreendedora. “Comecei a frequentar reuniões e cursei uma disciplina no Departamento de Ciência da Computação da UFMG. Foi quando observei que, praticamente, 90% das pessoas que transitavam por esse universo eram homens. Percebi que nós, mulheres, precisávamos nos unir, nos fortalecer e criar uma rede”, relembra.
A partir daí, Ciranda foi atrás das empreendedoras mineiras. E descobriu algumas mulheres que, mesmo em meio ao machismo do mercado, teimavam em fazer a diferença. Pequeno no início, o grupo só foi crescendo e hoje conta com mais de 600 membros, entre CEOs, desenvolvedoras, empreendedoras, lideranças femininas e agentes de aceleração. “Das que estão sendo aceleradas em Belo Horizonte atualmente, posso citar como exemplo as CEOs Priscila Gama, do Malalai; a Ana Cláudia da Mata, da LinCare; a Juliana Brasil, da Myps; a Marcella Rocha, da As31; e Natália Melo Campos e Priscila do Carmo Silva, do Figurini”, enumera Ciranda.
Pedro VilelaA jornalista Sofia Fada é outra dessas “teimosas”. Depois de mais de dez anos de trabalho como roteirista e redatora, ela decidiu enveredar pela área de inovação e desenvolveu a startup Kriativar, voltada para aprendizagem infantil. “Desenvolvemos site e aplicativos que tornam o ensino mais criativo, propiciando o engajamento dos alunos e tornando o ensino mais eficiente”, descreve. Selecionado pelos programas de aceleração de startups Seed e Fiemg Lab, a empresa acaba de lançar seu primeiro produto: uma plataforma de cocriação em que alunos podem criar e compartilhar seus conteúdos, de desenhos e textos a livros digitais. “Estamos em negociação para vender para as primeiras escolas, mas o objetivo é também entregar para o cliente final”, diz.
Na esteira de ideias, Sofia também planeja lançar os produtos Pequeno Cineasta e Pequeno Cientista. O primeiro será um aplicativo para que as crianças montem seus próprios filmes. O segundo, ainda em fase embrionária, será um projeto de iniciação científica. “Tem dado muito certo”, comemora. “Mas reconheço que já ouvi falas preconceituosas, como a de que eu deveria arrumar um sócio homem para poder fechar contratos com mais facilidade”, conta.
Esse tipo de discriminação é só um dos desafios para as mulheres entrarem e permanecerem no mercado de startups. Não é raro que, em uma rodada de negócios do nicho, as representantes femininas sejam ignoradas pelos investidores. Também é comum, nos cursos universitários ligados à computação no mercado de trabalho, que elas ouçam piadinhas machistas. As razões dela são culturais. Afinal, desde crianças, as meninas são incentivadas a brincar de boneca ou casinha, enquanto os meninos, em tempos modernos, ganham tablets e videogames de presente.
“É uma responsabilidade nossa reverter essa desvantagem cultural, estimulando outras habilidades nas meninas, desde pequenas. Ambos devem ser tratados como iguais desde a escola”, salienta Ciranda de Morais, que já liderou o She’s Tech Day, na UFMG e na Faculdade Pitágoras, em Ipatinga. Para ela, o mundo e o Brasil precisam de políticas públicas que fomentem o interesse feminino. “Mas também precisamos trabalhar a conscientização do mercado para evitar atitudes preconceituosas, além de fortalecer a representatividade”, combate.
Juliana FlisterÉ o caso da advogada Anna Martins, que se especializou em cases de startups. “Empreender e inovar sempre foi algo que esteve comigo, mas acabei decidindo cursar direito”, recorda. Já formada, ela descobriu o óbvio: não queria ficar atrás de uma mesa estudando processos e decidiu montar um escritório de advocacia para atender o público de novos empreendedores. “Meu nome começou a ser referência na comunidade de startups San Pedro Valley”, conta.
Mas Anna descobriu que poderia ir além e trocar de carreira completamente. O networking no ecossistema a levou para a diretoria executiva do espaço Órbi, que conecta três grandes empresas – Localiza, MRV e Banco Inter – a empreendedores de 20 startups. “Para chegar lá, trabalhei por seis meses como voluntária, até que, em abril, fui chamada para gerenciar o projeto e formar equipes.” Embora esteja à frente do ambicioso programa e esteja totalmente focada nele, Anna reconhece que a representatividade ainda é desigual – a equipe tem apenas 30% de mulheres e nenhuma, à exceção dela própria, integra o conselho. “É muito comum ouvir nesses ambientes que a mulher precisa ser ‘muito macho’ para, por exemplo, entender sobre internet das coisas.”
A verdade, contudo, é que não existe vantagem competitiva ligada ao gênero. Se competentes, criativos e capazes de executar suas ideias, tanto homem quanto mulher podem atingir o sucesso nas carreiras tecnológicas e de inovação. De certa forma, porém, as mulheres entram na briga já em desvantagem. Elas têm que se esforçar mais e, às vezes, conquistar o espaço na marra. “Uma programadora não pode errar se quiser se destacar. Tem que fazer muito mais que um homem”, observa Anna.
Em contrapartida, a natureza feminina e seu estilo de liderança podem vir a somar em alguns perfis de projetos. Elas estão mais alinhadas a projetos de impacto social e ambiental, negócios que podem trazer benefícios além dos aspectos financeiros. “Homens foram treinados para serem racionais, diretos e pouco emotivos. A empatia, a maior preocupação com o indivíduo, a paixão e a resiliência são características mais desenvolvidas pelas mulheres e acabam se transformando em vantagens”, raciocina Anna.
Arquivo pessoalBom exemplo disso é o projeto Pipe Social, da jornalista Mariana Fonseca. Enquanto vivia em Paris, nos anos 2000, ela começou a se envolver em projetos de inovação social. Foi ela quem trouxe para o país o movimento Pay it
Forward (A Corrente do Bem), que estimula gestos gentis para desconhecidos, visando formar uma grande corrente. “Na Universidade Singularity, da Nasa, na Califórnia, estudei sobre como as tecnologias transformadoras podem ajudar a solucionar grandes problemas da humanidade, como fome, pobreza, acesso à água, educação e saúde”, relata Mariana.
O Pipe entra nesse currículo como um projeto que busca apoiar startups preocupadas com os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. “É uma vitrine de negócios sociais com o desejo de promover conexões de impacto no Brasil. Fazemos pesquisas sobre o mercado de de impacto, ajudamos a mapear e a selecionar empreendedores para aceleradoras, fundos de investimento, prêmios e incubadoras, além de laboratórios de inovação para este setor”, descreve Mariana. Ela chama atenção, contudo, para o fato de que apenas 20% das startups de impacto no Brasil são fundadas por mulheres. “Apesar de sermos maioria nas ONGs, quando falamos de adicionar os vieses ‘negócio’ e ‘tecnologia’, vemos o número cair, em um paralelo bem real ao das startups tradicionais”, lamenta.
Como um paradoxo, Mariana observa que, embora as mulheres tendam a acompanhar melhor o impacto socioambiental de seus negócios, com soluções mais robustas que seus pares masculinos, elas têm maior dificuldade em encontrar modelos de negócio e de captar investimentos – por todos os motivos culturais que já foram ditos aqui. “Precisamos nos organizar e não criar um gap também neste nicho, ainda novo no país e com muito potencial. É necessário incentivar mais mulheres a empreender e, especialmente, conhecer mais sobre tecnologias emergentes e seu potencial”, finaliza.




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