Livro

Lições de vida

Márcia Queirós
203 - 01/11/2017

foto  juliana flister  agência i7Há muitas razões para escrever uma biografia. Artistas ou empresários bem-sucedidos costumam trazer a público trajetórias de vida movidos pelo anseio de deixar um legado de sucesso ou superação para o mundo.  No caso do advogado, jornalista e empresário Hermógenes |Ladeira, 80 anos, que marcou a história da indústria de cervejas em Minas, a ideia de narrar a saga de sucesso de menino pobre a empresário bem-sucedido veio de uma relação de afeto. “Em um almoço de domingo, meus filhos queriam saber detalhes de como mudei minha posição econômica, vindo de uma infância humilde. Passei grande parte da vida trabalhando, deixando de participar diretamente do dia a dia deles. A educação era a cargo de Diva, minha mulher. Uma sementinha acendeu em mim. Pensei: justamente meus filhos devem conhecer a minha história”, conta.


O resultado da conversa do domingo em família pode ser conferido em Um brinde ao tempo – Biografia de Hermógenes Ladeira. Escrita a quatro mãos com o jornalista Eduardo Murta, a obra de encadernação luxuosa narra em 370 páginas, ilustradas com fotos, a história do menino nascido em Fortaleza que veio, aos 7 anos, para Belo Horizonte com os pais, na época da Segunda Guerra, para viver com a família em um quarto de pensão da avó, no centro de BH, e que se tornou um dos homens mais influentes na cena empresarial mineira.
Para reunir as memórias, Hermógenes passou a carregar um gravador por onde ia. A partir daí, foram quase dois anos de encontros semanais com o jornalista Eduardo Murta, que se encarregou de transpor para o papel a saga do empresário. Mas, se a intenção inicial do autor era compartilhar as vivências do passado com os  três filhos – Mauro, Márcio e Ana Paola –  e  os seis netos, Hermógenes foi muito além. Ao trazer a público as memórias, o empresário brinda os leitores com histórias que resgatam a memória arquitetônica e dos costumes de uma Belo Horizonte dos anos 1940 e 1950, do tempo da delicadeza, em que as crianças podiam brincar pelas ruas sem o risco da violência.


As lembranças mais marcantes são do bairro Carlos Prates, onde Hermógenes passou parte da infância, e do Prado, onde viveu as estripulias da juventude e fez “amigos para a vida toda”, além das experiências estudantis nos colégios Pandiá Calógeras, no Estadual Central e no Marconi, instituições de ensino tradicionais de BH, por onde passaram figuras ilustres do país.


O empresário também dá lições de superação. Mais velho entre os seis filhos da cearense Luzanira, uma normalista que abriu mão da profissão de professora para se dedicar à educação dos filhos, e do mineiro Mauro Ladeira, técnico agrônomo e posteriormente funcionário do Banco do Brasil, Hermógenes viveu uma infância com poucos recursos.  O pai trabalhava em Pirapora, na região Norte de Minas, e passava vários meses longe de casa, obrigando a mãe a educar a família e administrar a casa sozinha, em Belo Horizonte, com “o dinheiro contado”. “Desde cedo, passei a ajudar minha mãe e dar bons exemplos para os meus irmãos. Antes de ir para escola, era eu quem buscava o leite e fazia as compras da casa. Isso me obrigou a saber desde cedo o valor do dinheiro”, conta o empresário, que dividia um quarto com cinco irmãos no Carlos Prates – na mesma casa, também moravam a avó e dois tios.

 

Desde a primeira atividade como engraxate de sapatos na infância, Hermógenes Ladeira, um empreendedor nato, alçou grandes voos. Jovem, iniciou carreira como publicitário e jornalista. Trabalhou na sucursal mineira do jornal Última Hora, dirigido por Samuel
Wainer, fundou e dirigiu a Companhia Alterosa de Cervejas, em Vespasiano, e, num golpe de mestre, vendeu a fábrica para a Antarctica, da qual foi um dos cabeças nos estados de Minas, Rio e São Paulo. Formado em Direito pela PUC Minas, Hermógenes conta que foram também muitos os desafios, o maior deles a decisão de vender a companhia de cervejas, que demorou anos para se concretizar. O empresário também traz  a público uma bonita lição de amor, afeto e companheirismo ao narrar sua história com Diva, com quem é casado há mais de 50 anos.


Este é o segundo livro lançado por Hermógenes, o primeiro foi O engraxate e outras crônicas do Viver”, em 2014, que reúne textos escritos na Viver Brasil. E mesmo depois de desfiar toda a sua história de vida, Hermógenes não quer parar. Prepara mais uma obra, onde estreia como contista. Junto, ele reúne outras crônicas publicadas na Viver depois de 2014. Hoje, mais dedicado à escrita e à leitura – Fernando Pessoa é um dos seus autores preferidos –, ele diz  que ousadia e obstinação são características essenciais, que nunca faltaram em sua vida. E se foi assim na labuta como empresário, não é diferente no ofício de escrever. 




Comentários