Entrevista

Desafio na saúde

Sueli Cotta
205 - 05/01/2018

Nossas dificuldades não são assim tão diferentes da maioria dos países. Temos, assim como os outros, uma população vivendo mais e uma medicina cada dia mais dependente da tecnologia, que nem sempre é a resposta para todos os males. Viver mais e a incorporação de novas tecnologias custa caro. Com uma população mais envelhecida, vamos precisar de mudanças profundas nas cidades para assegurar ao cidadão mais velho condições de acessibilidade e moradia, sem falar na formação de pessoal capacitado para atender esse cidadão. Essa reflexão precisa ser feita, segundo o presidente da UnitedHealth Group Brasil, empresa responsável pela plataforma Amil, Claudio Lottenberg, que reforça a ideia de que esse problema não é exclusivo do Brasil. Oftalmologista, Lottenberg comandou, por  15 anos, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e foi o convidado da edição de dezembro do Conexão Empresarial.

Qual é o quadro da saúde brasileira hoje?
A saúde brasileira enfrenta uma série de desafios, que não são diferentes daqueles que as economias dos outros países enfrentam. Nós temos uma crise que tem que trazer as respostas em relação ao envelhecimento, uma resposta em relação à incorporação das diferentes tecnologias e que, evidentemente, passa por um processo de sustentabilidade. Hoje, o benefício saúde representa um item bastante pesado no contexto das sociedades contemporâneas e o Brasil tem problemas parecidos com o de outros países, claro que com as suas desigualdades, suas condições geográficas, um país que ainda tem muito o que fazer no sentido da inclusão social, mas que no quesito saúde, no fundo, tem uma dificuldade que é bastante parecida com das outras economias.

Qual o impacto do envelhecimento da população na área da saúde?
Primeiro, acho que deve haver uma conscientização nos mesmos moldes que tem que existir a conscientização para a Previdência. As pessoas querem viver mais e vão ter que trabalhar mais e contribuir mais. Nós temos hoje limites de idade que estão absolutamente fora da realidade. Viver mais significa custar mais e essa questão é bastante representativa. Fora isso, significa que nós vamos ter que criar uma infraestrutura para uma população mais velha, ou seja, as cidades terão que ter um tipo de conotação diferente, os acessos, as condições das residências e teremos que nos organizar com o potencial do capital humano, porque cuidadores, pessoas que não têm uma função de participar do cenário de atendimento ao idoso vão ter que estar preparados para uma realidade onde a dependência é muito grande. É fato que a telemedicina ajuda, mas o fator humano sempre fará muita diferença. Uma sociedade tem que se modernizar e simplesmente imaginar que é um problema de recurso, de dinheiro, é minimizar algo que é muito mais profundo.

Em relação aos planos de saúde, há pelo menos cinco anos não existia o plano individual, só os coorporativos. Como essa modalidade vai mudar para as pessoas?
No fundo, quem custeia isso não é a operadora, é o próprio cidadão. A operadora vai se interessar pelos projetos de planos de saúde a partir do momento em que eles tenham resultado positivo. Ninguém vai querer entrar em uma operação em que vai ter prejuízo. As pessoas têm que se acostumar a cuidar da sua saúde e administrar a sua saúde. Com as modalidades que nós temos hoje, até por uma falha regulatória pelo excesso de proteção ao consumidor, os planos individuais desapareceram. Esse desaparecimento causou uma preocupação na sociedade. Nós, particularmente na nossa empresa, a Amil, lançamos o plano individual novamente e isso quer dizer que eles passam a ter uma alternativa, quando se desligarem de seus empregos, coisa que antes não existia.

Com a crise, muitos trabalhadores perderam o plano de saúde e, Como consequência, houve uma saturação do Sistema Único de Saúde.como resolver essa situação?
Acho que existem muitas coisas. Em primeiro lugar, imaginar que a economia deva andar até mais rápido, porque se não há um crescimento do PIB superior a 2%, a taxa de desemprego não muda. A taxa de desemprego não mudando, logicamente, o acesso aos planos privados acaba ficando restrito e sobrecarrega o SUS e, de novo, a atividade econômica indo mal, a parcela que se investe é correspondente a um teto orçamentário, então a resposta para todas essas questões está na economia, por um lado. Em contrapartida, tem que haver uma gestão mais eficiente dos recursos públicos e privados, com uma visão um pouco mais responsável, um zelo em relação ao desperdício, uma mecânica remuneratória um pouco mais justa, que privilegia quem é competente. Quer dizer, há dois trabalhos que precisam ser feitos: um que depende da economia e outro que depende fundamentalmente do trabalho de cada um de nós na gestão dos planos de saúde e na esfera pública em relação ao Sistema Único de Saúde.

sem o contato próximo, direto, entre médico e paciente, como se dará essa evolução tecnológica?
Cada vez mais se fala que o contato humano é insubstituível. Isso é um fato. Evidentemente, existem situações para as quais se pode mecanizar, pode automatizar. Na verdade, até fortalece a capacidade de entendimento daquele paciente por parte do médico, por isso não é bom dividir de maneira tão simplista essa visão de enxergar o tipo de relacionamento. Existe espaço para as duas coisas. Nós não podemos imaginar que, mesmo por trás desta tecnologia, distante ou não distante, ou mais distante que a gente imagine, essas pessoas jamais abrirão mão de ter um profissional por trás delas. Cabe ao médico, na verdade, orientar e esse papel de orientar tem sido pouco exercido. Na verdade, tem até dado espaço, mas muitas vezes corporativista, com medo de perda de mercado, o que é uma bobagem. O mercado só vai aumentar, desde que a gente saiba, de fato, utilizar adequadamente os recursos tecnológicos.

O que esperar dos governantes? a política tem feito mais bem ou mal para a área da saúde?
A política tem feito muito mal para o país. Os políticos estão muito preocupados com as suas carreiras, com as suas posições, utilizando dos atuais cargos para almejar cargos futuros. Eles não estão se comportando como verdadeiros servidores da causa humana. A política, infelizmente, tem feito muito mais mal para o país do que bem. É importante que as pessoas que têm algum papel na sociedade comecem a falar, porque elas reproduzem um incômodo, principalmente, daqueles que não conseguem se expressar, porque talvez não tenham nem a capacidade de entender, limitados que são na sua participação em um mundo democrático. Eles têm uma visão compensatória, a visão política tem sido de curto prazo, a política tem sido a do bônus de natureza eleitoral, quando no fundo nós sabemos que essas mudanças não acontecem de forma compensatória. Para elas serem verdadeiras elas têm que ser estruturantes. Mudança estruturante leva tempo e o tempo, nem sempre, ocupa o mesmo mandato. As pessoas, logicamente, lateralizam aquilo que depende do tempo, visando benefícios de natureza pessoal. É muito triste isso. vb




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