Artigo

A esperança não aplacará o medo

Paulo Paiva
206 - 05/02/2018

Entre os estrategistas políticos, é comum a convicção de que o sucesso de um candidato está na capacidade de oferecer esperanças para o eleitor. Assim, não cabe em suas mensagens propostas de medidas amargas, como corte de gastos, redução de programas sociais ou ajustes econômicos que resultem em recessão e desemprego, mesmo quando necessários para garantir a prosperidade em um segundo momento. Oferecem sonhos e ocultam a verdade nua e crua. É o lado real das campanhas eleitorais.
O medo costuma predominar nos eleitores reacionários e resistentes a mudanças. Mas a história comprova que a esperança quase sempre venceu o medo, como ficou visível na reeleição de Lula. Afinal, eleitores são frequentemente cativados pela ilusão da felicidade fácil.
Mauro Paulino, diretor do Instituto Datafolha, vem chamado a atenção para um fato novo: ao contrário do passado recente, mais de 70% dos eleitores têm demonstrado sentimento de medo, derivado de forte rejeição aos políticos e à política em geral. Por causa da perda de credibilidade dos políticos, eleitores têm declarado preferir não votar ou, se forem às urnas, votar em branco ou anular o voto. Não demonstram sedução pelas velhas e vagas promessas.
A apreensão é generalizada. Há medo da falta de segurança e da violência. Medo da perda de direitos, quer pelas consequências das reformas da Previdência e trabalhista, quer pela insegurança que essas discussões causam. Medo do desemprego e da volta da inflação. Medo da continuidade do governo Temer.
A ampla rejeição aos políticos é atribuída ao elevado nível de corrupção que corroeu a confiança. O risco agora é de que, do medo, possa florescer um desejo difuso de mudança para o desconhecido. Enfim, há no ar grande hostilidade à política e uma profunda insegurança, refletidas no sentimento de temor.
Enquanto isso, os velhos e eternos políticos estão cuidando de sua própria sobrevivência, com expectativa de conquistar o eleitorado, oferecendo, como no passado, falsas esperanças e sonhos. Parece que neste ano a esperança não aplacará o medo. 




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