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Resistência elétrica

Referência underground, a boate Deputamadre debuta em meio ao renascimento da cena eletrônica em BH
Fernando Torres
206 - 05/02/2018

Pedro VilelaEm tempos de pasteurização da noite, é longínquo pensar que Belo Horizonte já foi chamada de Meca brasileira da música eletrônica. Naquele remoto fim dos anos 1990 e início dos 2000, as festas de techno e house eram o que havia de mais moderno na programação dos inferninhos. O êxtase do público, montado com visual fluorescente, se desdobrou no estouro das raves e de diversos clubs – mas só um deles sobreviveu. Aberto em 2003, no Floresta, o Deputamadre completa 15 anos em março como bastião da resistência. Embora a cena de hoje não esteja no auge, a casa persevera e continua a promover, todas as sextas e sábados, baladas de lineup exclusivamente eletrônico.
Quem personifica a coisa toda é o DJ e proprietário Alexandre Ribeiro. Sem bala na agulha, Lelê, como é conhecido, reaproveitou o espaço da oficina de autopeças do pai, pintou as paredes de preto e, em uma noite de quarta, abriu a boate, batizada a partir de uma expressão em espanhol usada pelos personagens do filme Amores Brutos, do mexicano Alejandro Iñárritu. Foi ele quem imprimiu, ao longo dos anos, a vertente eletrônica da casa, alinhada ao circuito do gênero no Brasil, segundo a revista especializada House Mag. Isso devido à extensa lista de atrações internacionais de peso que já comandaram as pick ups, como o canadense Richie Hawtin e a alemã Ellen Allien, somadas aos DJs locais, a exemplo de Anderson Noise, precursor da e-music em Minas (veja quadro na página seguinte). “Nomes de referência do meio underground ficam entusiasmados em tocar no Deputa, por ser um espaço pequeno, próximo do público. Alguns nunca ouviram falar de Belo Horizonte antes, mas saem daqui encantados”, conta.
Lelê considera que, em se tratando de boates, não há concorrência direta. “Nossa música é diferente do rock d’A Obra, do pop da DDuck, do eletrônico mainstream da naSala e até mesmo da vertente das raves. Aqui, no Deputa, a gente toca música eletrônica conceitual, de vanguarda, uma coisa bem urbana, quadrado preto, alternativa, mais clubber, mais Berlim”, descreve. No detalhamento da concepção da boate, o produtor rejeita o termo amplo de “música eletrônica” – “é queimado, tem muita coisa malfeita que se diz eletrônica” – e prefere especificar as vertentes tocadas: house, techno, nu-disco e acid house. “Psy trance é legal, mas tem a ver com natureza, praia, open air. Brazilian bass e EDM já deram o que tinha que dar, mas, comercialmente, ainda enchem casa, dão grana. Só que não aqui”, decreta.
De certa forma, é esse purismo cheio de escrúpulos, tão distante da realidade comercial da noite, que garante o début do Deputa. Mas que não se pense que a boate surfa apenas na doce vida. Lelê reconhece: “Temos altos e baixos, todo ano tem inverno e verão. Se o imóvel não fosse da família, já teríamos fechado.” O desafio maior, segundo ele, é lidar com a renovação de público, já que a nova geração tende a escutar sertanejo, funk, pop, rap...
Em contrapartida, a e-music também vive certo renascimento em BH, com os eventos de rua, como os promovidos pelos coletivos independentes MASTERp la n o e 1O1Ø. De caráter experimental, as festas ocupam espaços alternativos, como estacionamentos, terrenos baldios e viadutos da região central. “Foram eles que salvaram a cena nos últimos três anos”, reconhece Lelê. “Agora, observo que essa nova galera começa a migrar para os espaços fechados. Festa em lugares públicos cansa, dá trabalho, e o club está ali, toda semana. A tendência é só aumentar, tanto nos lineups, quanto na pista”, aposta, já pensando em virar trintão. 

Pedro VilelaQuem já passou pelas cabines

Brasileiros
Anderson Noise
Robinho
Marky
Mau Mau
Renato Cohen
Maurício Lopes

Internacionais
Booka Shade
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