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Músico Célio Balona prepara novidades para 2018, quando completa 80 anos, mais de 60 deles dedicados à música
Marcelo Moreira
206 - 05/02/2018

Pedro VilelaAntiguidade é posto. Se para muita gente o ditado é quase um mantra para o conformismo e a acomodação, o músico mineiro Célio Balona, com mais de seis décadas de trabalho e às vésperas de completar 80 anos, segue contra essa filosofia e prepara novidades para 2018. O multi-instrumentista que começou a tocar profissionalmente aos 13, quer marcar a data com um novo álbum, Balona e BR Groove, onde, na companhia de novos músicos, compõe de mãos dadas com a música eletrônica.
“Sempre fui inquieto. O eletrônico deu ao tecladista uma infinidade de sons que o ouvido humano não estava acostumado a ouvir. Ele conhecia o acústico, o piano, mas o eletrônico trouxe timbres completamente diferentes”, explica Balona, na terceira pessoa. Amúsica com o sintetizador, em seu entendimento, seria um sopro à criatividade, trazendo novos ares e múltiplas possibilidades. “Pra quem compõe, é uma festa”, declara-se.
A inquietação e a inclinação para o novo parecem ser o segredo para a vitalidade. Além do álbum, que também marca 15 anos do projeto BR Groove, o músico quer fazer apresentações com orquestra de câmara, ampliando as comemorações. “Eu me olho no espelho e falo que meu pai me registrou na data errada. Não me sinto com a idade que tenho, mas tenho maior orgulho dela. Brinco que quero ser um velho moço e não um moço velho, o cara que vai estar com a cabeça a mil, sempre ligado ao novo.”
E ele está ligado mesmo, principalmente nos rumos do mercado fonográfico. Para Balona, a música hoje é business, deixou de ser uma arte mais sofisticada e trabalhada e a qualidade foi descartada, tudo para fazer a fila para os sucessos da temporada seguinte. “Hoje é a Mathilde, amanhã vai ser a Tereza. A música é um negócio, e a qualidade brasileira foi para o chão, isso é inegável. O que está sendo feito de novo em termos de qualidade? Daqui a um ano você vai perguntar quem fez sucesso no ano passado e ninguém vai saber”, opina. O músico aponta o recifense Lenine como o “último dos moicanos”, que tem um trabalho voltado para a qualidade, tanto de letra quanto de melodia, que já é lá de trás, de uma outra época. “É muito difícil analisar a música brasileira hoje porque ela está sem conteúdo, é muito mais o lado erótico, a palavra que quer dizer duas coisas ao mesmo tempo”, critica.
Para Balona, um dos problemas é que a mídia, principalmente a audiovisual, está comprometida. Antigamente o artista tocava na rádio porque o programador gostava da música. Hoje, na maioria dos casos, uma produtora compra o horário. “Se você chegar com um trabalho mais elaborado, de qualidade, eles não se interessam. Se for música instrumental, então, não tem espaço”, lamenta.
Daí a necessidade, segundo ele, das leis de incentivo à cultura, visto que além das dificuldades que um músico enfrenta na hora de gravar, várias capitais, Belo Horizonte, inclusive, não têm mais espaço para esse músico tocar. “O artista precisa da lei de incentivo pra poder viabilizar um CD, um DVD, um show, é a única forma. A lei usada com critério e honestidade é fundamental pra o profissional mostrar seu trabalho”, afirma.
O músico fala ainda sobre as grandes perdas pelas quais a música mineira passou nos últimos meses, como Chiquito Braga, um dos maiores violonistas brasileiros, nascido em Belo Horizonte; o tecladista Claudinho Faria; Renato Lima, líder do Lombinho com Cachaça, além de Flávio Henrique Oliveira, morto em 18 de janeiro, vítima de febre amarela. “São perdas irreparáveis para a música brasileira. Você tem que preservar com muito carinho, cuidado e respeito o legado que todos eles deixaram.
É uma coisa eterna, isso tudo fica gravado e deve ser preservado.”

Clube da Esquina
Para Balona, a música mineira tem uma forma só dela, algo muito sutil e único. Antes da bossa nova, por exemplo, a música brasileira tratava basicamente de dois temas, o ufanismo, com exaltação ao país, ou letras mais pesadas, como as canções sobre traição. Foi uma grande revolução. “Só que já fazíamos isso aqui, em Minas. A gente estava num movimento de música mais moderna, com melodia sofisticada. Procurávamos ouvir música americana, jazz. E com o surgimento da bossa nova, foi o encontro das águas, era tudo que a gente queria.”
Para o músico, o Clube da Esquina é um movimento totalmente reconhecido. “Músicos como Nivaldo Ornelas, Chiquito Braga, Paulinho Braga, Paulinho Horta, Valtinho Baterista e Aécio Flávio foram precursores. Nós nos reuníamos, geralmente às segundas, para ouvir as novidades vindas de fora. Procurávamos fazer uma música para que as pessoas entendessem que era diferente, um outro tipo de música, um novo movimento que estava surgindo.”
Apesar do glamour que paira no imaginário popular sobre a vida do músico, Balona acredita que muita gente não sabe das dificuldades que o profissional passa, como ter que ensaiar, fazer um investimento alto para comprar um bom instrumento. “Isso sem falar que, ao acabar uma apresentação, seja num teatro, com mil lugares, seja numa praça, com 5 mil pessoas, você dá a mão para a solidão e vai para o hotel, sozinho. Mas ao mesmo tempo é um grande exercício para refletir sobre sua vida e perceber que cada um que assistiu, levou um pedaço seu”, finaliza. 




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