Especial Nova Lima

De volta aos trilhos

Seja na mineração, na produção de cervejas artesanais ou no investimento para atrair empresas de inovação, município tem se destacado por projetos modernos e reformas polêmicas, mas substanciais para o crescimento
Iaçanã Woyames
206 - 05/02/2018

Historicamente, Nova lima sempre se destacou pela extração mineral. Foi inclusive pela exploração de ouro e minério de ferro que o núcleo urbano que originou a cidade foi formado, em meados do século 18. Com cerca de 90 mil habitantes, o município passou por uma fase conturbada em 2016, incluindo cassação de mandatos e processos. Mas, aos 317 anos de história e 127 anos de emancipação político-administrativa, comemorados em fevereiro, Nova Lima conseguiu retomar a agenda de trabalho com reformas substanciais, redução de despesas e, agora, anuncia um pacote de obras. 

Juliana Flister“Pegamos a prefeitura totalmente desestruturada, desorganizada, endividada e com funcionários desmotivados. A sensação era que havia ficado sem gestor por uma década”, afirma o atual prefeito, Vitor Penido (DEM). Natural de Nova Lima, ele foi empossado pela quinta vez como prefeito por decisão do Tribunal Superior Eleitoral em setembro de 2016, face à procedência de uma ação eleitoral ajuizada em 2012. Concorreu, então, à reeleição em
2 de outubro de 2016 sendo eleito para o sexto mandato, de 2017 a 2020, com 70% dos votos válidos. Além de prefeito, é também presidente, no biênio 2017/2018, da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig) e da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte (Granbel) – em ambas, participou diretamente da idealização e da fundação.
Penido não se intimidou em seu primeiro ano de mandato, ao fazer reformas consideradas primordiais. “Tivemos que agir com coragem para tomar as medidas necessárias e, muitas vezes, nada populares, com o propósito maior de tirar Nova Lima daquela situação”, diz. A primeira atitude foi realizar uma reforma administrativa. “Tivemos que diminuir a folha de pagamento. Antes, 69% da receita era utilizada nos gastos com pessoal. Agora, alcançamos 55% e queremos chegar este ano a 54%, com o Programa de Desligamento Voluntário (PDV)”, relata. Só a reforma administrativa gera economia de cerca de R$ 50 milhões ao ano. “Além disso, atuamos para reduzir o custeio da máquina pública. Renegociamos, por exemplo, 90% dos contratos de aluguéis, com alguns valores caindo pela metade. Imóveis que não eram utilizados foram prontamente devolvidos e, com essa medida, a economia para os cofres públicos ultrapassa a marca de R$ 2 milhões por ano.”
O segundo ponto que a nova gestão elegeu como prioridade foi a reforma tributária. “Mesmo com medidas austeras, o município ainda precisa ampliar a arrecadação, para ter condições de investir na prestação de serviços e na qualidade de vida da população. Nada foi corrigido e mudado nos últimos 12 anos, o cálculo do imposto estava defasado e não era reajustado. E para que pudesse trabalhar de forma consciente e com legalidade, tive que realizar mudanças”, reforça Penido. Segundo ele, o governo municipal herdou uma cidade sem viabilidade econômica e com visível inchaço da máquina pública.
Nesse sentido, foi proposto o reajuste do IPTU, cuja planta genérica não era revisada havia 11 anos, causando discrepância nos cálculos de lotes e áreas construídas e prejuízo à cidade, que deixou de arrecadar o que era devido. “Além de um imposto mais justo, a readequação vai isentar 10 mil moradias da população de baixa renda, beneficiando cerca de 40 mil habitantes”, enumera.
Penido também cita as melhorias realizadas no primeiro ano de mandato. “Há 12 anos, quando saí da prefeitura, havia deixado 13 escolas municipais em tempo integral, em que os alunos tinham aulas de informática, música, espanhol e artesanato. Em 2016, apenas três delas estavam funcionando – e precariamente. Mas já voltamos a ter período integral, no quarto e no quinto ano, e voltaremos com o inglês em todas elas.” Outro exemplo do primeiro ano de trabalho é que as escolas municipais passaram a ter cinco refeições: café da manhã, lanche e almoço, e as de tempo integral são acrescidas de lanche da tarde e jantar.
Ainda no departamento educacional, Penido conta que sua administração conseguiu reaver o projeto de um campus do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet). “O Cefet está voltando a Nova Lima. Com isso, teremos quatro escolas técnicas funcionando”, promete. O prefeito também projeta o passe estudantil para estudantes que não podem arcar com o gasto, seguindo os critérios para avaliação de concessão do benefício.
“Já na saúde, pegamos o município com mais de 10 mil procedimentos sem atendimento. Havia cirurgias pedidas há mais de cinco anos. Hoje, todos os exames clínicos e de imagens estão sendo realizados com, no máximo, uma semana, e as cirurgias que estavam paradas devem ser zeradas até março. Além disso, estamos credenciando empresas, com o fim de zerar as cirurgias de catarata.”
Para 2018, os projetos são ambiciosos. “Vamos lançar um pacote de aproximadamente 35 obras, entre pequenas e médias, para atender a população nas demandas mais urgentes.” Ele afirma que os eleitores podem ter certeza de que Nova Lima está de novo nos trilhos. “Prefeito tem que ter seriedade, transparência e trabalhar bastante. Não tem invenção na administração pública: é fazer o feijão com arroz. Tudo que nós estamos fazendo é o necessário, com transparência”, reforça.
Sempre usando o “nós” em sua fala, Penido enaltece a equipe de funcionários da prefeitura. “O governo precisa de pessoas sérias, que tenham compromisso com a cidade e que estejam dispostas a trabalhar.” Para ele, grande parte dos problemas do Brasil está nos municípios. “A maioria dos governantes não se preocupa em fazer o dever de casa.” Mas o prefeito reconhece que não foi fácil realizar todas estas mudanças. “Apesar de minha experiência e de estar à frente de Nova Lima pela sexta vez, sou moderno e tenho uma administração antenada com que está acontecendo no mundo, sempre de olho em novos projetos”, afirma.

Pedro VilelaPosta em inovação
Para atrair mais empresas e potencializar a inovação, Nova Lima lançou o Zona Limpa de Desenvolvimento. Trata-se de um plano com o objetivo de transformar a região em um ambiente de investimento atrativo, para que novas empresas, com destaque para as de inovação e tecnologia e aquelas que não geram poluição, se instalem no município. Além disso, o projeto busca aliviar os impactos das variações do principal meio de empregabilidade: a mineração. Para se ter uma ideia, o setor emprega quase 5 mil pessoas, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), de maio de 2017.
A Zona Limpa de Desenvolvimento divide a região em diferentes polos de atuação: inovação e negócios digitais; economia criativa; biomedicina; biotecnologia e atividades mistas. Penido explica que as categorias foram baseadas em um estudo aprofundado das particularidades econômicas e topográficas, no sentido de aproveitar e potencializar a vocação das empresas instaladas e da população local, tipos de ocupação, investimentos futuros, legislação, estrutura viária e logística.
Entre as áreas que prometem gerar mais oportunidades de emprego com o projeto, destaque para tecnologia da informação, biotecnologia, química, farmácia, medicina, gestão da qualidade e economia criativa. No momento, a prefeitura acaba de abrir licitação para contratação de consultoria técnica para contribuir no andamento do projeto.

 M A R C E L G A R R I D O . Polo Cervejeiro
Muito além da mineração e, agora, também da inovação, Nova Lima tem se destacado na produção de cervejas artesanais, sendo considerada a cidade com a maior produção do setor em Minas. Atualmente, o município abriga nove cervejarias e 11 home brews (cervejeiros caseiros), produzindo 390 mil l por mês. Sem falar dos prêmios nacionais e internacionais acumulados. E, para ganhar cada vez mais espaço, a prefeitura lançou um concurso para criação de selo alusivo a Nova Lima como polo da cerveja artesanal.
Pioneira no estado, a Krug Bier já está há 12 anos no Jardim Canadá. A cervejaria começou as atividades no Belvedere, em Belo Horizonte, mas o proprietário, o austríaco Herwig Gangl, viu em Nova Lima um local com água excelente para produção da bebida, além da localização e da possibilidade de expansão da fábrica. “Sómente na minha rua, há mais três cervejarias”, relata Herwig. Ele vê como positivo o título de polo produtor de cerveja e enxerga mais possibilidades do que concorrência. “É bom para a cidade, mas também para os produtores, pois gera visibilidade, emprego, auxilia no crescimento do turismo local , fortalece o setor e promove união e compartilhamento”, apoia.
A própria Krug tem investido muito nos últimos anos, inclusive atraindo turistas. Todos os sábados, o mestre-cervejeiro abre as portas da fábrica para um tour guiado, em que o público pode conhecer o processo de produção e ainda degustar chopes artesanais na fonte, harmonizados com salsichas alemãs. Além disso, a cervejaria tem o espaço Krug Biergarten, utilizado para shows, eventos, exposições, recepções, casamentos e aniversários – em alemão, biergarten significa “jardim das cervejas”, conceito que traduz a arquitetura da casa.
Outro produtor que confirma a união dos cervejeiros é Gustavo Simioni, CEO da Koala San Brew, também no Jardim Canadá. Ele valoriza ainda o esforço dos produtores para tornar as bebidas cada vez melhores e lembra os prêmios que as cervejas produzidas em Nova Lima já ganharam, dentro e fora do país. “Acredito que o potencial do polo cervejeiro é enorme e pode ser ainda mais explorado”, diz ele, que escolheu o Jardim Canadá para instalar a fábrica devido à localização, próximo a BR-040.
Cristiano Lamego, superintendente executivo do Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral (Sindbebidas MG) explica que os incentivos públicos e a não restrição no Jardim Canadá para a instalação de fábricas de cerveja foram fatores determinantes para o município ser hoje polo cervejeiro. Ele enaltece ainda toda iniciativa que valorize a bebida artesanal. “Vemos com bons olhos todo projeto que agregue valor à cerveja mineira.” vb




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