Artigo

Morre o último desejo

Paulo Paiva
207 - 05/03/2018

Michel Temer herdou de Dilma Rousseff o pior: a crise fiscal, que desestruturou a gestão pública e jogou a economia em sua maior recessão. Começou, então, sua administração com a ínfima aprovação deixada pela presidente afastada. Seu capital político foi constituído, unicamente, ainda no período da interinidade, pela ampla maioria na Câmara: os 367 deputados que votaram a favor do impeachment.
Com claro diagnóstico, Temer comprometeu-se a recolocar a economia nos trilhos por meio de profundo ajuste fiscal, cujos pilares – duas reformas constitucionais – seriam encaminhados ao Congresso, após sua efetivação na presidência. Uma reforma impondo limite global aos gastos da União, e outra promovendo ampla mudança no regime previdenciário.
Ao direcionar o foco na economia, Temer valeu-se das velhas práticas políticas para manter a base parlamentar, no que ele denominou de semiparlamentarismo. Foi, de fato, a manutenção do surrado “toma lá, dá cá” e suas nefastas consequências.
Seis meses após a posse, a PEC 95, que estabeleceu o teto dos gastos, foi aprovada com o expressivo apoio de 366 deputados. A proposta de reforma da Previdência somente foi enviada ao parlamento em dezembro de 2016, cujas discussões transcorreram-se nos primeiros meses de 2017, com votação marcada para maio.
No ano passado, todavia, após delações de Joesley Batista, Temer teve que lutar para evitar a autorização de investigação sobre possíveis atos seus de corrupção. Nas duas votações, a base parlamentar encolheu: para 263, em agosto, e 251, em outubro. Perdeu 116 parlamentares, um terço da base inicial.
Dessa forma, a votação da Previdência Social foi postergada no mês passado, e, por fim, sepultada por causa da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Adeus, reformas constitucionais.
Por ironia do destino, como no samba de Noel Rosa, sem votos, seu último desejo “morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete”. Triste fim. 




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