Artigo

Caricatura de uma cidade

Hermógenes Ladeira
207 - 05/03/2018

Desde minha época de jornalismo, quando fui diretor do diário Última Hora, em Belo Horizonte – e lá se vão muitos anos –, aprendi que os motoristas de táxi são uma das melhores fontes de informação e avaliação. Formam uma classe plural no que se refere à escolaridade, formação profissional (já encontrei advogados e engenheiros dirigindo) e educação de modo geral. Além disso, transportam gama enorme de passageiros, homens e mulheres de todas as classes econômicas e culturais também. E são hábeis quando querem colher opiniões.
Outro dia, ouvi de um desses motoristas uma avaliação muito boa sobre Belo Horizonte. Dizia ele que nossa cidade parece hoje uma caricatura. A cada local que passávamos, ele comentava que não estava mais como era. O lixo acumulado e a má conservação fazem desses locais uma caricatura do que foram no passado. A expressão por ele usada está correta, e sua interpretação correspondia à realidade dos lugares apontados, não resta dúvida. E assim vai a capital mineira se transformando em uma sombra apagada do que já foi, ou uma caricatura, de acordo com a apreciação daquele profissional do volante.
De fato, cidade jardim ela não é mais. Possuidora, em sua época, da maior rede de trilhos para bondes, também não é mais. Pioneira no uso de ônibus elétricos há muito deixou de ser – hoje eles circulam no Recife. Exemplo de arborização, com a avenida Afonso Pena causando inveja a muitas cidades, é hoje uma metrópole “desarborizada”. Das ruas bem pavimentadas e dos passeios igualmente calçados, resta apenas a lembrança. De um trânsito tranquilo e disciplinado, resta o caos atual.
A poluição visual corrompeu a fachada de prédios antigos e históricos sem contemplação. Os canteiros centrais das grandes avenidas não existem mais, e a pavimentação é de dar dó. Tem razão o motorista. Belo Horizonte é hoje uma caricatura do que já foi. 




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