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Há muito trabalho...

... e eles , acima dos 65 anos, vão continuar na ativa, sabem que podem contribuir com a sabedoria adquirida na vivência, flexibilidade, capacidade de atualização
Fernando Torres
Edição 142 - 05/12/2014

Pedro Vilela/Alberto Wu

O sonho da aposentadoria está ficando cada vez mais raro para os brasileiros que ultrapassam a fronteira dos 65 anos. E não tem nada a ver com o rombo da Previdência. Com expectativa de vida média de 73 anos, os novos integrantes da terceira idade não querem mais se ajustar aos antigos padrões de envelhecimento e à deprimente cena de passar o dia inteiro de pijama em frente à TV. Em vez disso, preferem continuar ativos na carreira, sem dar ouvidos à tese de que o mercado não irá absorvê-los. Os números são animadores: 27,4% da população acima de 60 anos se mantêm em atividade profissional, total de 7,2 milhões de pessoas, segundo dados coletados pelo IBGE em 2013.


Quem inaugura esse estilo de vida já tem até nomenclatura nas empresas: são os celebrators, pessoas nascidas logo após a Segunda Guerra, integração da geração baby boomer. Sem os estereótipos associados à velhice, eles conseguem unir a sabedoria adquirida com a vivência a valores como flexibilidade, relacionamento e atualização, sem se descuidar da saúde física e mental. Não agem assim por necessidade ou ganância, mas sim, porque identificam como prazerosa a vida profissional. “Esse perfil de trabalhador geralmente pertence às classes sociais mais privilegiadas e assumiu níveis hierárquicos mais altos nas organizações. Mas também está se tornando cada vez mais comum encontrar pessoas mais velhas que, ao atingirem a idade de aposentar, abrem um novo negócio, assumem desafios ou continuam a comandar o legado que construíram”, contextualiza o psicólogo e administrador Moacyr Castellani, especialista em coach profissional e executivo.


Com 73 anos, o empresário mineiro Luiz Pôssas é um desses autênticos celebrators. Além de se manter à frente da cachaçaria Vale Verde, fundada na década de 1980, ele investe em outros tantos empreendimentos. Nas redondezas do alambique e parque ecológico onde é produzida a cachaça, em Betim, a veia empreendedora de Pôssas desbravou o loteamento do condomínio Ecovillas, a fábrica de insetos Nutrinsecta e a produtora de ração Megazoo – sem falar no pitoresco criadouro de jiboias para fins de estimação, o maior do país. Por Minas afora, a diversificação dos negócios ainda passa pelo cultivo de azeitonas e produção de azeite em uma fazenda em Itabirito, a construção de usina de energia solar em Jaíba, no Norte de Minas, e o projeto embrionário de um shopping na Pampulha, em BH. “Em um país em crescimento, as oportunidades são muitas. Não posso deixar passar”, diz Pôssas, em entrevista à Viver Brasil, por telefone, diretamente dos Estados Unidos – para onde viajou não a lazer, mas a trabalho.


De onde vem tanto pique? O empresário afirma que o segredo para dar conta de tantas demandas é a alegria. “É a palavra que melhor define o caminho rumo ao sucesso, tanto para a automotivação quanto para contagiar as pessoas ao nosso redor. Fico realizado em ver os projetos que desenvolvo tomando corpo e considero meu trabalho uma diversão.” Com um quê de improviso, Pôssas garante que despreza a rotina, embora procure fazer atividades físicas, ioga e meditação pela manhã e marque presença no escritório diariamente das 9h às 19h. “Trabalho em algo diferente a cada dia e não faço questão de imprimir minha marca pessoal nos projetos. Prefiro delegar responsabilidades e formar uma equipe mais horizontal, no qual eu possa interagir com os diversos tipos de pessoas e ideias”, afirma. Sem pensar em aposentadoria, ele visualiza o futuro com muito labor, até quando a saúde permitir. “Não me sinto cansado, absolutamente.”


É o que também pensa o empresário Alair Martins, fundador do Grupo Martins, de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, um dos maiores atacadistas do Brasil, com lojas em todo o país. Aos 80 anos, o celebrator desempenha a função de presidente do Conselho de Administração da companhia, mas ainda cumpre expediente religiosamente de segunda a sexta – aos sábados, normalmente, ruma até a Estância Bonsono, em Rio Quente (GO), também de sua propriedade, para recarregar as energias. “Desde que assumi a presidência, em 2008, nada mudou na minha atividade como controlador. O que foi alterado é que, agora, defino as ações que serão desempenhadas pelos executivos responsáveis pelas operações”, explica.


Como gestor, Alair procura se cercar de profissionais competentes e de confiança, que possam dar sequência às vitórias da empresa, fundada há 51 anos. Para isso, ele buscou profissionalizar a organização, distanciando-a do núcleo familiar. Nenhum de seus 3 filhos possui cargo executivo na empresa – Juscelino, filho do meio, já exerceu o cargo de diretor-geral de 1995 a 2001, mas, hoje, ocupa a presidência do conselho do Tribanco, focado no financiamento. “Estruturamos uma governança corporativa que nos dá segurança para seguir em frente. Meu sonho é ver o Grupo Martins se perpetuar e ser a primeira empresa do segmento atacadista-distribuidor a completar 100 anos. Acho que está bem encaminhado nesse aspecto.”


Intuitivamente, tanto Luiz Pôssas quanto Alair Martins seguem alguns dos conselhos recomendados para obter longevidade e produtividade na carreira. “Os gestores de hoje não têm como demanda principal o gerenciamento de atividades, mas, sim, a tarefa de gerenciar fluxos, que implicam em mudanças e relacionamentos interpessoais. O segredo para isso é saber controlar a energia, manter o equilíbrio e desenvolver a autogestão, isto é, definir os próprios rumos”, diz o coach Moacyr Castellani. Também é essencial manter acesa a chama da curiosidade, da atualização e do constante aprendizado. Tudo isso, somado, vale ouro nas empresas.

VB
Professor do Departamento de Engenharia Metalúrgica da UFMG por quase 3 décadas, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG, José Martins de Godoy, portador de doutorado obtido na Noruega, se assume um celebrator legítimo ao afirmar que busca agregar conhecimento diariamente: “Ainda me vejo com muito futuro, em luta contínua para participar, contribuir, ensinar e aprender. Isso é o que mais me realiza e me mantém atuante”, diz o educador. Com 74 anos, Godoy assume, no início de 2015, a presidência do Conselho de Administração do Instituto Áquila, empresa de consultoria e treinamento em gestão.

A nova fase terá foco nas tarefas específicas de um conselho de administração e na orientação de projetos estratégicos, depois de 3 anos de quarentena compulsória, único período em que ele se manteve distante da tarefa de gestor, depois de 38 anos nesse mister. “Vou desenvolver uma rotina de orientação e liderança e não propriamente de execução. Quem se acostumou com um ritmo frenético de trabalho não tem condições de ficar parado”, diz o professor, que foi também superintendente e diretor da Fundação Christiano Ottoni da UFMG por 10 anos, coinstituidor da Fundação de Desenvolvimento Gerencial (FDG) e cofundador do Instituto de Desenvolvimento Gerencial (INDG), sendo seu presidente, respectivamente, por 6 e 8 anos.

Durante a quarentena, Godoy não ficou parado. Dedicou-se à FDG, fundação assistencialista na área da educação, da qual é conselheiro. Cuidou das fazendas da família, aproveitou o tempo livre para desenvolver atividades particulares e, justamente, aprender mais. Além de se manter atualizado na área técnica e acadêmica e com os gadgets – possui smartphone de última linha, usa WhatsApp, mas não tolera o Facebook –, Godoy também se interessa por arte, música, literatura e conhecimentos bíblicos. “Penso em fazer um curso de Teologia”. Gosta de viajar e ir à fazenda para contato com natureza, revela. Prestes a voltar para o mercado, ele ativa a disposição com caminhadas três vezes por semana, musculação duas vezes por semana, alimentação balanceada e um cálice de vinho ao jantar. “É para manter a saúde do coração”, ensina.


Saúde, a propósito, é item essencial para manter o nível de produtividade. “Qualidade de vida é viver sem doenças, com boa memória e vida sexual agradável”, define o geriatra e gerontólogo Eduardo Pinho Tavares – ele mesmo com 65 anos, saúde de ferro e plena atividade profissional, gerenciando 3 clínicas em cidades diferentes. Segundo ele, uma das queixas mais frequentes com o passar da idade é a memória, especialmente para fatos recentes, o que pode atrapalhar bastante quem deseja se manter em atividade profissional. O que pode ajudar a reverter o quadro é investir na dieta rica em selênio, mineral antioxidante presente em grãos, castanhas e peixes. “Também sugiro a suplementação do hormônio pregnenolona, que auxilia na melhora da lucidez e do raciocínio e, portanto, essencial para o funcionamento completo do cérebro.”

Mais um plus que o trabalho proporciona, dessa vez, em via de mão dupla: se a lucidez é essencial para a produtividade, manter-se ativo impacta diretamente na manutenção dos estímulos sociais, físicos e cognitivos. Para a saúde emocional, então, o trabalho é um upgrade e tanto. “Sou da opinião de que nunca deveríamos nos aposentar. Estar ativo e conectado é importante para o equilíbrio mental e intelectual, nos mantém vivos e, inclusive, previne doenças. Já a pessoa que se aposenta tende a entrar em ócio, a ficar deprimida e solitária”, avalia o coach e administrador Hegel Botinha, diretor do Grupo Selpe, especializado em recursos humanos.


Vale lembrar, porém, que a forma como a pessoa envelhece está correlacionada a como ela viveu. A boa notícia é que as condições de vida são cada vez melhores. “A maior prevalência de doenças como o mal de Alzheimer não indica o aumento da frequência, mas, sim, que as pessoas estão vivendo por mais tempo e, portanto, mais sujeitas a quadros de demência característicos da idade”, diz a terapeuta ocupacional Luciana de Oliveira Assis, doutora em neurociências e professora do curso de psicologia da Universidade Fumec. Mas isso não justifica o descuido com a readaptação na fase acima dos 65 anos. “Há a falsa ideia de que o aposentado desenvolve mais atividades de lazer do que a pessoa produtiva. Mas, na prática, não é o que acontece. O ideal é parar aos poucos, e não substituir de uma vez o trabalho por atividades que ela nunca desempenhou na vida”, orienta a terapeuta.


Fundadora e proprietária da grife mineira Barbara Bela, a empresária Helen de Carvalho está no meio desse processo de desaceleração. “Antes, fazia de tudo. Nos últimos anos, passei a distribuir mais as tarefas e hoje trabalho apenas de terça a quinta”, diz Helen, a 1 mês de completar 70 anos. Sem cargo definido na empresa, ela gosta ainda de criar modelos e bordar os famosos vestidos de festa que fazem a fama da marca nas passarelas. “O que mais me realiza é fazer um bordado maravilhoso. Mas estou um pouco desgastada, não sei se quero ficar no mundo da moda até os 80 anos. Chega uma hora em que precisamos achar outros interesses.” Para o futuro, um tanto distante, ela sonha em viajar, mas torce o nariz para os roteiros típicos da terceira idade. “Gosto de lugares exóticos, diferentes. Neste ano, fui 2 vezes à Índia e quero conhecer outros países da Ásia. Sempre trago novas ideias de lá.” Por ora, Helen sabe que não deve e não pode parar. “O setor de confecção vive um período de crise, e sei que vou ter que entrar de cabeça novamente em 2015 para atravessá-la. É um dever entregar esse legado para minhas filhas”, diz.


Essa sensação de legado é outra força motriz que afasta a ideia de aposentadoria. Vide o exemplo da fábrica de bordados de luxo Lygia Mattos, com sede em um casarão na região da Pampulha. “Minha mãe, a fundadora da marca, só parou de trabalhar quando morreu, aos 82, em 2006. Não pretendo repetir essa cena, mas pode ser que isso também aconteça comigo”, conta a empresária Patrícia Mattos, 68 anos, uma das herdeiras do ateliê, que responde pelos setores de finanças e logística, ao lado da irmã, Cláudia. No início do ano, Patrícia decidiu puxar a toalha – que, no caso da grife, pode ultrapassar a cifra de 30 mil reais cada uma – e se aposentar. “Tive um momento de loucura e cansaço, mas repensei e vi que não consigo ficar parada em casa. Não faz o meu gênero.” Mas o que impede realmente o ponto-final na carreira é a dificuldade de formar um sucessor. “Só tenho filhos homens e, há alguns anos, percebi que eles jamais assumirão a tradição do negócio. Estou esperançosa em preparar os netos e minha sobrinha mais nova.”


Com 69 anos, o empresário João Pinto Ribeiro, dono da rede de hotéis Tauá, também segue a lógica de somar forças aos herdeiros. “Não posso parar. Preciso ajudar meus filhos a ampliar o número de hotéis e a fortalecer a marca Tauá, para que ela se torne um dos grupos hoteleiros mais importantes do país.” Com unidades em Caeté, Araxá e Atibaia (SP), o Tauá segue a linha mestre de seu fundador: proporcionar felicidade. “Tornar as pessoas felizes é o que mais me realiza profissionalmente. E não apenas os hóspedes, meus funcionários também”, afirma Ribeiro, para quem o incentivo à capacitação e ao bem-estar dos empregados é a mola propulsora do sucesso e da produtividade. Isso não significa, contudo, que o ritmo de trabalho seja leve. O empresário bate ponto no escritório diariamente, das 7h às 21h. “Gosto de trabalhar. Para mim, é um prazer.”




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