Especial Mobilidade

Integração metropolitana

Presidente do Sintram, Rubens Lessa, defende preferência para o transporte coletivo em vez de  automóveis na Grande Belo Horizonte
Márcia Queirós*
153 - 05/06/2015

Pedro Vilela/Agência i7

O acesso da população a um transporte público de excelência, que se aproxime de serviços das metrópoles do Primeiro Mundo, exige a superação de grandes desafios na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Essa é a visão do empresário Rubens Lessa Carvalho, que desde 2001 está à frente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram). A entidade reúne 35 empresas associadas, responsáveis pela prestação de serviço de transporte público em 34 municípios da RMBH – e entre eles –, com uma frota de 3.759 ônibus. Por dia, cerca de 1 milhão de passageiros viajam nos veículos do sistema metropolitano.

Um dos desafios para melhorar o serviço é a priorização, sobretudo pelo poder público, do transporte coletivo em vez do estímulo à aquisição de automóveis. Em março de 2014, Belo Horizonte inaugurou o Move, Sistema de Transporte Rápido (BRT), considerado o maior avanço dos últimos anos do município no quesito mobilidade urbana, mas, na opinião de Lessa, a rede de corredores exclusiva para ônibus necessita ser aprimorada. “Precisamos de mais faixas exclusivas, estações pré-pagas para melhorar a velocidade dos embarques e ampliação do sistema BRT”, diz.

Mércia Lemos/SetopAtualmente, os corredores das avenidas Antônio Carlos e Pedro 1º contam com 16 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus. Na avenida Cristiano Machado, são 6 quilômetros de pistas e 7 quilômetros de faixas só para ônibus. O sistema opera com 28 estações pré-pagas e 12 em processo de instalação. Mas é preciso mais. “Falta concluir os trechos da avenida Vilarinho a Justinópolis, da Vilarinho ao bairro São Benedito e da Vilarinho ao Morro Alto”, explica o presidente do Sintram. Além disso, ele lembra que ainda não foram finalizadas obras dos terminais São Benedito e Justinópolis, que funcionam em instalações provisórias. A conclusão resultaria em viagens mais rápidas, tornando mais suave o cotidiano dos moradores.

Apesar das obras ainda não concluídas do Move, o presidente do Sintram reconhece que o sistema metropolitano de transporte contou com avanços, nos últimos anos, principalmente com a chegada de novas tecnologias. Um deles foi a implantação do Ótimo, sistema de bilhetagem eletrônica, que consiste no pagamento de passagens por meio de créditos eletrônicos. Implantado em 2008, o cartão trouxe conforto, segurança e cidadania para os usuários do transporte coletivo. Passageiros não precisam mais andar com dinheiro e, em caso de roubo ou extravio, os créditos são recuperados com uma segunda via do cartão.

O pagamento com o cartão torna as viagens mais ágeis. Sem contar que as empresas empregadoras são beneficiadas, uma vez que não é necessário se deslocar a um ponto comercial para comprar créditos eletrônicos. Eles podem ser solicitados pela internet e recebidos nos validadores dos ônibus (carga a bordo).

Rubens Lessa, que também é diretor do Sindicato das Empresas do Transporte de Passageiros de Minas Gerais (Sindpas), cita como outras conquistas a instalação do Centro de Controle Operacional (CCO), que acompanha a operação dos serviços – horários das viagens, frota e incidentes – , contribuindo em mais eficiência e segurança para os usuários. O controle da operação das linhas troncais dos 5 terminais da região metropolitana do Move é realizado por meio de monitoramento ativo de 242 câmeras, presentes em 28 estações de transferência nos corredores e nos 2 terminais no centro de Belo Horizonte. O CCO iniciou as operações em abril do ano passado.

Carlos Alberto/Secom-MGA adesão a novas tecnologias, no entanto, não substituirá os homens pelas máquinas, garante o presidente do Sintram. No dia 28 de abril deste ano, rodoviários fizeram manifestação em Contagem, na Grande BH. O motivo era a insatisfação com as empresas, que, segundo os trabalhadores, poderiam acabar com a função de cobrador nos coletivos. De acordo com Lessa, com a implantação da bilhetagem eletrônica, o pagamento da tarifa por meio do cartão Ótimo está em torno de 80%, mas os cobradores não estão sendo demitidos. “Eles são remanejados para outras funções, como agentes de estação e motoristas, assim mantendo os benefícios e, em alguns casos, gerando aumento de salário.”

Lessa lembra que o reaproveitamento da mão de obra dos cobradores reduz gastos, fator que interfere diretamente no cálculo tarifário e na economia para o usuário. Além disso, segundo ele, os motoristas que trabalham em veículos sem cobrador recebem adicional de 20%, conforme convenção coletiva de trabalho assinada com os 7 sindicatos dos rodoviários. As empresas associadas ao Sintram geram em torno de 20 mil empregos diretos.

Há 14 anos à frente da entidade, Rubens Lessa diz que as empresas enfrentam desafios constantes, um deles é equilibrar o custo das operações com o preço das tarifas. O último aumento de passagens ocorreu em dezembro de 2014. “Depois desse reajuste já houve aumento em diversos itens da planilha de custos, entre eles salários dos trabalhadores e combustível”, enumera. Um problema ainda enfrentado pelas empresas é a concorrência desleal com transporte clandestino. Apesar de ter sido combatido em Belo Horizonte, nos últimos anos, em função de políticas públicas, eles ainda rondam a Região Metropolitana.

“O Sintram procura identificar as áreas de atuação do transporte clandestino, bem como os transportadores ilegais, para buscar meios de combatê-lo junto aos órgãos competentes”, avisa Lessa. Mas, mesmo diante de tantos embates, o empresário não desiste da luta em defesa de um transporte coletivo de qualidade na RMBH. “A mobilidade urbana é o maior desafio.”

Perfil 

Rubens Lessa

Começou a atuar no setor de transportes em 1997, quando, depois de se formar em engenharia elétrica, fundou com o pai e os irmãos a Saritur, empresa de transporte de passageiros e cargas. A corporação tem frota atual superior a 2.100 veículos e mais de 13 mil colaboradores

O ingresso no mercado de trabalho, no entanto, começou mais cedo, aos 14 anos, como office boy da Docegeo, subsidiária da antiga Vale do Rio Doce, hoje Vale. O espírito de liderança levou o jovem a ocupar a gerência de compras da empresa. Lessa nasceu em Carmésia-MG e se mudou para Belo Horizonte ainda criança, para estudar

Ele diz ter filosofia de trabalho pautada em parcerias entre as entidades empresariais, poder público e comu­nidade, promovendo a qualidade de vida da população e contribuindo para o desenvolvimento sustentável de Minas e do setor de transportes no Brasil

* Especial para a Viver Brasil




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