Especial

Bernardo Santana

Líder do PR na Câmara dos Deputados diz que o partido se pronunciou a favor de movimento, Dilma mantém a candidatura e que agora falta a resposta do ex-presidente: “Que diga sim ou não, mas responda”
Sueli Cotta
Edição 128 - 23/05/2014

Entrevista Bernardo Santana - Foto Igor Coelho-Agência i7À espera de Lula

O movimento Volta Lula, abraçado publicamente pelo PR, pode ser o início do que, em terras mineiras, se chama o estouro da boiada. Não é de hoje que os partidos alinhados com o Palácio do Planalto enviam sinais de descontentamento com o governo nas negociações com o Congresso Nacional. As dificuldades aumentaram com a tentativa de isolar o líder do PMDB na Câmara, deputado Eduardo Cunha. A hora da revanche, no entanto, parece que só está começando. A ideia do retorno de Lula surgiu no próprio PT, partido da presidente Dilma. Foi endossada e leva a assinatura do PR. O movimento Volta Lula foi dividido em 3 atos. O primeiro foi a declaração do líder do PR, deputado Bernardo Santana. O segundo ato foi a resposta da presidente Dilma: segue na disputa, mesmo sem apoio da sua base de sustentação. O terceiro ato, segundo Santana, é o posicionamento do ex-presidente Lula. O sim ou não definitivo, que só se consolida na convenção, vai definir o posicionamento dos partidos que atualmente apoiam a presidente e para ele não seria surpresa uma corrida para as candidaturas do senador Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) se a resposta for não.

Após o lançamento do movimento Volta Lula, qual foi a resposta no Congresso?

Na grande maioria dos partidos e das pessoas que encontrei, a reação me trouxe a certeza de que a nossa bancada teve muita sensibilidade e percepção do momento político atual, porque foi muito bem recebido. Tanto é que, passado esse tempo todo, a não ser uma coisa pontual, você não encontra uma crítica de parlamentares da base. A ideia que nós propusemos de unidade, ela se demonstrou lá no plenário.

Isso quer dizer que o relacionamento da presidente Dilma com o Congresso não é bom?

Eu evito fazer essa análise, mas existem problemas de relacionamento e todos sabem. Mas, no nosso partido, isso não foi determinante. Foi muito mais a aproximação de um momento que você tinha dois grandes nomes, ela (Dilma) ainda muito bem avaliada e com programas importantes, em que pese algumas oscilações, e o presidente (Lula), que foi um presidente que saiu com aceitação extraordinária, que mantém até hoje. Foi muito mais no objetivo de dizer temos esse grande estadista, dentro da aliança e, aí, não em detrimento de nenhum outro candidato. Essa é uma proposta, uma sugestão e um caminho, porque a gente não tem como escolher isso. Quem escolhe é o partido, a legenda.

A presidente garantiu que vai manter sua candidatura, mesmo sem o apoio da base, e insinuou que o movimento seria por causa de cargos.

Acho que a presidente Dilma não respondeu para o PR, porque o PR só a elogiou e a enalteceu na sua manifestação, não a agrediu ou a desqualificou. Pareceu uma resposta a uma agressão e, do nosso partido, isso não saiu. Acho que ela pode ter entendido até errado, como agressão. Não é, é entendimento político. Política não se faz com o fígado, se faz com entendimento, com negociação, com diálogo, muita atenção com seus aliados, companheiros de primeira hora. Nós estamos vivendo no Brasil um período em que você pode ter uma ideia só. E isso não é só no governo, está na nossa sociedade. É importante termos a diversidade de pensamento, não só para a democracia mas também para o crescimento da inteligência que vem do debate. Mas esse argumento de cargo sempre é usado para qualquer coisa que contraria o governo e  atrapalha na relação. E quem lê um pouco de política sabe que cargo não é a prioridade, 6 meses de antes do pleito. Vai nomear um ministro há 6 meses da eleição?  

O senhor teve algum sinal do ex-presidente Lula em relação a esse movimento?

Não. Muita gente pensou isso, no começo, e muita gente me perguntou. Ele não foi comunicado e posso garantir que ficou surpreendido. Ele tinha dado uma entrevista um dia antes, um pouco diferente desse caminho e não conhecia o movimento.

Esse movimento surgiu no momento em que a presidente está em queda nas pesquisas de opinião. Isso não fragiliza ainda mais a sua candidatura?

Nós não podíamos imaginar o resultado da pesquisa. Não tínhamos os dados. Não digo que não faríamos se soubéssemos, mas não foi com base na pesquisa. Nós convidamos os jornalistas para coletiva para falar do movimento antes. A pesquisa foi posterior ao gesto. Até porque nós, no partido, nunca tivemos medo de enfrentar política mesmo que em um momento  difícil. Em nível de estado, apoiamos Anastasia com 4% das intenções de voto, na última eleição ao governo. Fomos o primeiro partido a apoiá-lo. Na eleição da presidente Dilma, também fomos os primeiros a manifestar apoio a ela, que estava começando. Era uma candidata que não tinha histórico para apresentar. Na primeira eleição do presidente Lula, durante um bom período, ele não estava em primeiro lugar. Nós não nos pautamos por isso.

O PTB também está aderindo ao movimento Volta Lula. O senhor acredita em mais adesões?

Eu não conversei com os deputados ainda para saber disso com certeza. Não me espantará se algum partido da base fizer coro, porque, se eu não acreditasse que essa proposta que nós temos desde 2002 é a que dá para unir a todos, nós não teríamos proposto o movimento. O nosso partido não teria tomado a decisão.

Pretendem procurar o ex-presidente Lula para fazer um apelo?

Penso que na política você tem momentos e cada ação desdobra em consequências, como tudo. Nós fizemos manifestação pública de um entendimento. Nós tivemos manifestação pública da presidente. Esses 2 gestões ensejam 1 terceiro. Que diga sim ou não, mas que responda ao chamamento.

Parece que, no momento, a oposição é que está se beneficiando com o lançamento do Volta Lula. A tendência agora é essa, da oposição se fortalecer?

Isso nós vamos saber mais para frente. Hoje vejo que é uma eleição muito diferente, desde a de 2002, no sentido de que é preciso haver essa grande união nacional em torno de um projeto, da aliança de novo do capital e do trabalho para o desenvolvimento e termos um país cada vez mais competitivo.

Se for mantida a candidatura à reeleição da presidente, parte da base pode migrar para a candidatura de Aécio Neves e Eduardo Campos?

Eu falo que insatisfação você conversa e tenta resolver. Ela existe, mas não foi o mote de ação do meu partido. Aí teremos que sentar e conversar de novo e não descarto nenhuma hipótese.

Há pessoas que acham que essa movimentação toda foi orquestrada pelo senador Aécio Neves. Ele estimulou o lançamento desse movimento?

Não. Até porque, independentemente de qualquer coisa, nós sempre tivemos uma excelente relação e ele sempre respeitou a aliança nacional, é muito elegante, não faria uma interferência dessa forma, dentro do partido.  

Devido a essa forma de fazer política, o senador Aécio pode atrair um arco maior de aliados para apoiar a sua candidatura?

Estamos esperando a terceira manifestação pública. Mas não me surpreenderia, por conhecê-lo.

Como as coisas devem ser encaminhadas daqui para frente? Ficou difícil para a bancada do PR apoiar a reeleição da presidente Dilma?

Como líder da bancada, é preciso tomar cuidado com a verbalização do que você pensa, porque é a da vontade da maioria. Cada coisa tem que ser discutida de uma vez. Para definir esse movimento, nós fomos conversando com as pessoas, de uma forma até individual, colhendo apoiamentos. Qualquer decisão do partido só acontecerá após a manifestação do presidente Lula. Nós fizemos sugestão, moção de apoio e uma carta aberta. Mas é o partido dele que tem que decidir. Não existe traição, não fizemos nada escondido, de forma sorrateira, nada só de bastidores. Fizemos algo de forma aberta, declarada, divulgada e nós precisamos, por respeito a essa nossa atitude, de aguardar a manifestação a ela. E tenho certeza de que não deve demorar, até por uma questão de coerência, ela não tarda.

O fato da presidente Dilma ter dito que a candidatura dela vai seguir com ou sem os aliados não é uma resposta?

Acho que pode ter havido um erro na escolha da frase. Não acredito que de fato ela tenha dito que vá sozinha, porque política se faz com a maioria. Seria injusto com a presidente entender que ela pensa que é possível ganhar só.  

Dilma está tendo uma resposta aos recentes episódios envolvendo governo e parlamentares, como foi o caso da tentativa de isolar o líder do PMDB?

Não se pode responsabilizar a presidente por tudo. Muitas vezes, você não sabe como o diálogo é aberto dentro do governo, em termos de levar a realidade. Política não é assim que se faz. Um parlamento constituído por deputados, que tem voto, base de apoio, que escolhe seu líder. Não se isola líder. Líder não é quem manda, líder é quem verbaliza. Não acho essa a melhor forma de fazer política.  

Isso motivou o movimento?

Temos que pontuar que essa foi a opção de um segmento majoritário da bancada. É claro que quando você decide ser líder tem que ter a coragem para fazer essas verbalizações e assumir o ônus da representação da bancada. Muita gente queria que eu apresentasse nomes dos deputados. Orientei para que, a não ser que eles quisessem muito verbalizar a posição, que deixassem por conta do líder o ônus da representação para não expor a bancada. Tive o cuidado de não cometer injustiças, reconhecendo o trabalho que a presidente Dilma fez durante esse período. O meu partido não começou no governo hoje, saiu de uma posição para uma vitória com o Lula, em que a vice-presidência da República foi importantíssima, naquele momento, pela união de capital, trabalho com José Alencar. Nós entramos nesse projeto em 2002. Agora, com a legitimidade de quem participou dele, desde o primeiro momento, com todo o respeito ao partido da presidente, de fazer sugestão através do nosso manifesto, que não é em detrimento de ninguém. Nós encaramos aí as dificuldades que estão por vir no cenário econômico e não credito isso à presidente. Algumas medidas políticas e econômicas eu sempre combati. Não credito a ela a culpa dessa crise. É um fator mundial. Deslealdade, neste momento, seria se nós fizéssemos uma opção diferente, se faltássemos com o apoio à presidente. Isso não aconteceu e nem vai acontecer. O apoio será até o fim do governo dentro do parlamento e está mais do que garantido.  

Quem começou o movimento na realidade foram setores do próprio PT.

O que chamou mais a atenção, sem sombra de dúvida, foram os movimentos que surgiram uns com mais barulho e outros mais de bastidores dentro do partido da presidente. Não diria que nem é contra a presidente, mas a favor do retorno de um outro  modelo. Nesse momento, o que é leal para quem participa desde o princípio do governo? É buscar um quadro dentro da aliança, que possa e que já demonstrou ter condições de combater crises. Na época do tsunami norte-americano, quando o presidente falou que aqui seria marola, ele foi até muito criticado por isso, mas a verdade é que foi. A crise praticamente não atingiu o Brasil. Partindo da aliança que vem desde 2002, nós fomos procurar um nome que pudesse trazer essa grande integração nacional. Isso é que é muito importante. Qual o nome que pode fazer essa união? Sentindo esse clima não só dentro da Câmara, mas nos quadros partidários, a maioria da nossa bancada, porque nós não falamos em nome do partido, mas de muitos dos deputados que presidem os diretórios estaduais de seus respectivos estados, uma massa importante, e nós demos a nossa opinião baseado nisso, no que poderia ser feito para manter essa união.

Em Minas, o PR vai apoiar quem. Já há uma tendência?

Falo pela bancada dos deputados. Nós estamos conversando. Temos bancada maravilhosa. Um tem uma ideia, outro tem outra, mas o resultado sempre foi acompanhado pelos demais, com raríssimas exceções. Mas o processo está sendo conduzido pelo deputado Aelton Freitas, que é o presidente do diretório estadual. A bancada federal está muito envolvida com a questão nacional, mas terá uma reunião em breve, para definir o posicionamento que vai tomar. Nós temos aliança lá e  aqui. A nossa tendência é manter a fidelidade às nossas alianças.




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