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100 dias de solidão
Nesta edição

REPORTAGEM
Índia: Que país é esse?

Um passeio pelos contrastes desta nação que cresce a taxas de 8% ao ano e tem 25% da população vivendo abaixo da linha da pobreza.

Texto: Nayara Menezes
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Dizem que ninguém volta o mesmo depois de conhecer a Índia. Não é difícil entender o porquê. Desvendar os mistérios desse gigantesco mosaico é mesmo fascinante. O segundo país mais populoso do mundo é uma miscelânea de cores, sabores, culturas e religiões. A convivência harmônica de mais de um bilhão de pessoas de valores muitas vezes antagônicos é, no mínimo, intrigante. Os contrastes estão presentes por todos os lados. Detentores de uma das economias que mais cresce no mundo, os indianos conseguem manter intactas tradições milenares. Empresas de tecnologia de ponta se desenvolvem a pleno vapor no mesmo país que ainda preserva costumes tribais. A desigualdade e a pobreza ainda são grandes, mas, curiosamente, as taxas de violência não acompanham na mesma velocidade.
E foram os contrastes e riqueza cultural que levaram a dramaturga Glória Perez a escrever a novela Caminho das Índias no horário nobre da Re­de Globo. A trama pretende descortinar aspectos como o sistema de castas, o dote pago pelo casamento, rituais religiosos, entre outros. Assuntos polêmicos e de difícil compreensão para o mundo ocidental devem acalorar as discussões. Buscando entender algumas das ambiguidades desse país, a Viver Brasil preparou uma reportagem especial. Nela, você poderá conhecer um pouco da história, cultura, economia e tantos outros assuntos que fazem da Índia um país místico, excêntrico, singular.

Apesar da rigidez de algumas tradições, a Índia abriga uma infinidade de grupos étnicos e religiosos totalmente distintos entre si. Eles sequer falam a mesma língua. Existem dezenas de dialetos locais, mas duas são as línguas oficiais do país: o inglês e o hindi – falado por 40% da população e principalmen­te na capital Nova Delhi. O ensino das duas línguas é obrigatório nas escolas. Mesmo com essa vantagem, a Educação ainda é um dos maiores problemas do país. Se­gun­do dados do IBGE, os analfabetos são quase 35% da população. Quase 75% dos indianos vivem no campo, o que dificulta, e muito, o acesso à educação. Outro grave problema é a desigualdade social. Apesar do crescimento anual de 8% ao ano na economia, 25% da população indiana vive abaixo da linha da pobreza.

Curiosamente a desigualdade parece não gerar violência. Os índi­ces de criminalidade são baixos. Para o historiador Sérgio Clarck, especialista em cultura indiana, tal fato é explicado pela religiosidade do povo. “Na Índia a riqueza e a pobreza convivem pacificamente. Não há revolta pelas diferenças sociais”, revela. Aproximadamente 85% da população são adeptos do hinduísmo. A filosofia é baseada na crença do merecimento. Além disso, praticar um crime é estar sujeito a duras penas, como o rebaixamento ou até expulsão da casta. Para ter uma noção de quão severa é a punição, é preciso entender o que é o sistema de castas. Apesar de criticado pelo mundo ocidental e proibido pelas leis do país, o sistema está enraizado na cultura indiana e vigora na maioria das comunidades.

São as castas que determinam a origem de uma pessoa. Quem nasce em uma casta baixa ou mediana (vide quadro) jamais alcançará casta superior. Isso porque a casta não se refere às condições econômicas ou sociais, mas sim ao espiritual. Os hindus entendem que Deus é quem determina a casta a que cada um pertencerá, de acordo com o nível de evolução do espírito daquela pessoa. O homem não tem o poder de intervir na divina decisão. Em algumas cidades o sistema é bastante questionado. 

Os críticos à cultura hindu entendem que ele gera preconceito e discriminação.
Outros costumes indianos que geram polêmica são o casamento arranjado e o pagamento do dote. As famílias determinam com quem os filhos irão casar e, assim, o pai da noiva deve pagar valor acertado para a família do homem. O cônsul honorário indiano Élson Barros defende a tradição. “O dote é  excelente, pois assim a pessoa pode começar bem a vida”, explica. Para Barros, o grande problema dos casamentos na Índia é a figura manipuladora da sogra. “Os casais costumam morar com a família do noivo após o casamento. A mãe do homem costuma interferir diretamente na relação”, comenta.

Outro ponto ressaltado pelo cônsul que, segundo ele, é motivo de equívocos por parte da visão ocidental, é o papel da mulher na cultura indiana. “Ela não é subjugada como muitos pensam, pelo contrário, é exaltada na maior parte das comunidades”, garante. Segundo o cônsul, a Índia é predominantemente uma sociedade matriarcal, “um país de alma feminina”. Prova disso seriam os símbolos sagrados ligados à sexualidade feminina, presentes na maioria dos templos indianos. Além disso, ele lembra que o país foi governado por muitos anos pela primeira-ministra Indira Gan­dhi, que teve papel crucial na história. Atualmente o país é presidido também por uma mulher, Prathibha Patil.

Se por um lado no hinduísmo há esse culto à figura feminina, a mulher assume outro papel no islamismo.
A religião representa cerca de 13% da população. “As mulheres muçulmanas são obrigadas a andarem tapadas e os homens podem ter mais de uma mulher”, esclarece Barros. Assim como o sistema de castas só pode ser entendido quando se está inserido nele, a cultura islã é mais facilmente aceita quando se faz parte dela.
Já o aspecto econômico merece destaque. Nos últimos anos, a Índia vem se firmando como a segunda potência que mais cresce no mundo, ficando atrás apenas da vizinha China. Mesmo em meio à crise, o país mantém taxa de crescimento de quase 8% ao ano desde 1994.  A diversidade econômica abrange a tradicional agricultura familiar, artesanato, indústrias de diversos setores e grande número de serviços. Este ramo, aliás, é a principal fonte da aceleração econômica, contabilizando metade do PIB da Índia.  Mas a prestação de serviços contempla menos de um quarto da força de trabalho no país, enquanto a agricultura representa quase 60% da mão-de-obra. 

Além da variedade na produção, a Índia mantém mercados múltiplos tanto na importação quanto exportação, o que explica o pouco reflexo da crise econômica mundial no país. E o Brasil, que também segue a mesma estratégia de diversificação dos parceiros, tem a Índia como importante aliado comercial. Segundo o diretor e vice-presidente da Câmara de Comércio Índia e Brasil, Leonardo Ananda, os negócios entre os dois países crescem consideravelmente. Os setores que apresentam melhores oportunidades são o farmacêutico, tecnologia de informação, alimentos processados, engenharia, construção e mineração.

As principais empresas instaladas no estado de Minas Gerais têm parceiros indianos de peso como a Arcelor Mital, a Fiat, através do grupo Tata, a Alcan, gigante produtora de alumínio, entre outras. Em contrapartida, Minas também marca presença na Índia. Exemplo disso é a cachaça Diva. Produzida em Divinópolis, ela foi a primeira aguardente conhecida pelos indianos. E a branquinha tem feito sucesso por lá, segundo o diretor da Câmara, que intermediou os negócios de exportação.

Ananda conta ainda que outros produtos estão em negociação entre Índia e Brasil e que a tendência é que o movimento aumente no próximo ano. “Em 2009 o governo de Minas levará uma comissão de empresários e autoridades para incentivar as relações entre os dois países. Este será o ano do Brasil na Índia”, antecipa Ananda. Namaste!

O EMERGENTE

  • Nome oficial: República da Índia
  • Independência: 1947
  • Área: 3.287.590 km2
  • Capital: Nova Delhi
  • População: mais de 1 bilhão e cem milhões de habitantes
  • Idiomas: Hindi, inglês e outros 15 dialetos oficiais
  • Moeda: Rúpia indiana
  • Renda Per Capita: US$ 3,300
  • Crescimento anual: 8% ao ano

BOLLYWOOD

  • A indústria cinematográfica indiana, conhecida como Bollywood é a maior do mundo. Ela surgiu em 1913 em Mumbai ou Bombaim, como conhecido pelos ocidentais.
  • O número de filmes feitos na India é superior a qualquer outro país. O cinema é a maior paixão do indiano, as salas de exibição vivem lotadas. Os indianos adoram seus astros e o estilo bollywood se faz presente por todos os lugares.

VANTAGENS COMPETITIVAS

  • Altas taxas de crescimento do PIB
  • Estabilidade política
  • Boa poupança de investimento
  • Juros baixos
  • Ampla infra-estrutura – 2ª maior rede ferroviária do mundo, transportando 70% da carga do país
  • Mão-de-obra farta, barata e especializada em alguns setores
  • Amplo mercado consumidor

CURIOSIDADES

  • Quando apresentado a uma mulher indiana, o turista jamais pode estender sua mão. Deve aguardar o cumprimento da senhora e apenas acenar com a cabeça;
  • O sinal de sim com a cabeça é horizontal e não vertical;
  • Homens abraçados ou de mãos dadas representa amizade;
  • Os indianos não usam calçados em templos ou dentro de casas; 
  • A vaca é animal sagrado para os hindus, não deve ser tocada ou afugentada. Assim como o porco, cultuado pelos mulçumanos;
  • Homens e mulheres devem vestir-se cobrindo os joelhos. Usar short longe das áreas litorâneas é o mesmo que sair trajando roupas de baixo por lá;
  • O indiano é vaidoso e usa jóias em forma de anéis com pedras e as mulheres com pintura vermelha na testa geralmente são casadas.
  • Namaste ou namaskar é a forma de cumprimento mais comum. A saudação de boas-vindas é dada com as duas mãos juntas.

SISTEMA DE CASTAS

Apesar de proibido pela lei após a luta de Mahatma Gandhi, o sistema, instituído pelo hinduísmo, ainda predomina na maior parte da Índia. Nascer brâmane significa ter espírito evoluído. Já quem nasce sudra ou dalit precisa evoluir o espírito. A forma de fazer isso seria dedicando-se a tarefas tidas como inferiores como limpeza e trabalho braçal.

  • Brâmane - casta superior, formada por filósofos, educadores e intelectuais.
  • Kshatriya - administradores e soldados
  • Vaishya - comerciantes e pastores
  • Sudras - artesãos e trabalhadores braçais
  • Dalits - não pertencem a nenhuma casta – geralmente os criminosos ou aqueles considerados malfeitores por algum ato pertencem a este grupo.
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