Comportamento

Até quando?

Por que a intolerância aumenta tanto nos dias atuais se as pessoas estão mais informadas e o mundo cada vez mais globalizado
Terezinha Moreira
190 - 03/02/2017

Pedro Vilela/Agência i7

Racismo, homofobia, xenofobia, desrespeito religioso e às diferenças, sejam elas quais forem. Por que o ser humano está tão intolerante com os que não comungam das mesmas ideias? Até que ponto as informações on-line contribuem para aumentar a intolerância? Elas geram intolerância à intolerância? São muitos os questionamentos sobre este comportamento. Não é fácil assimilar ou aceitar esses tipos de ações e reações do ser humano, mas para tentar entender um pouco essa onda crescente em todo o mundo, a Viver Brasil ouviu alguns especialistas. Confira suas opiniões.

 

Rudá Ricci
cientista político e sociólogo

“O Brasil não tem a cultura da tolerância. Nunca tivemos. Temos a da hospitalidade, mas se o hóspede começa a falar algo que nos ofende, somos intolerantes. A quantidade de linchamentos, de mulheres e jovens negros assassinados. Que país tolerante é este, que é sexista, racista? Temos uma cultura estamental, que são agrupamentos sociais em função do prestígio que os grupos têm, não do mérito. Enquanto o país não mexia nesses estamentos, tinha uma ou outra brincadeira intolerante, mas na medida que você tem um deputado como o Jean Willys (Psol/RJ) no Congresso, lei das cotas, lei Maria da Penha e começa a discutir os direitos das minorias para valer. A edição da cartilha do MEC sobre o direito à diferença, o casamento homoafetivo entrando na pauta e os pobres andando de avião, afeta-se o prestígio dos segmentos médios, que começam a falar que os aeroportos viraram rodoviária. Essa cultura vem da forma como o estado se construiu, desde a coroa portuguesa, com a desconfiança da sociedade civil. Há a ideia de que o pobre é pobre porque é vagabundo. Mas pesquisas comprovam que, na América Latina, é o pobre que divide o pouco que tem. No Brasil, em especial, o rico não abre mão de jeito nenhum. Segundo o Banco Mundial, somos o segundo país onde a classe alta é a que mais sonega. Várias pesquisas provam a intolerância política no Sul-Sudeste e não identificam esse rigor no Norte e Nordeste. O que tem na cultura que estimula esse ataque? A ética do trabalho, que é muito rígida em São Paulo e associa a ele a ideia do sucesso porque quem trabalha tem de ter alguma recompensa. O sucesso vem do consumo, do salário, o que gera individualismo. Na contramão disso, as pessoas que recebem recursos do governo, provenientes de imposto, seriam objeto de uma injustiça social”.

 

Pedro Vilela/Agência i7Antonio Júlio Neto
sociólogo pós-doutor em sociologia e educação (UFMG)

“A intolerância tem a ver com a falta de diálogo humano. Se temos diálogo, temos a capacidade de tolerar. Se não, partimos para outra forma de fazer com que as coisas funcionem do jeito que queremos. Seja através da violência direta, da intolerância, do menosprezo, do rebaixar o outro. Isso não é novo e nem é uma causa em si, ela tem fatores que levam o ser humano a criar intolerância. O nazismo tinha como um de seus princípios, a intolerância, a superioridade ariana, mas não foi ele que a inventou. Hoje, temos os conflitos de Israel com os palestinos. Vamos encontrar causas nas quais os indivíduos querem levar vantagem, garantir sua sobrevivência, buscando rebaixar o outro. O perigoso é que isso vira cultura, parece natural. Temos na cultura uma forma de dominação e outra de resistência. Quando a Europa estava expandindo o seu domínio pelo mundo, necessitou de força de trabalho aqui na América e rebaixou o negro, tirou até sua alma e, com isso, ressuscitou a escravidão, algo contraditório no capitalismo, e gerou a cultura da inferioridade do negro no Brasil, que ainda prevalece. Para os intolerantes, é importante que isso faça parte da cultura. A inferioridade da mulher também é notável. O homem a colocou no papel secundário e fez com que as pessoas acreditassem nisso. A intolerância não é algo solto. Temos de buscar sua causa. Como a nossa história é de opressão, cria-se a intolerância com o outro para que as pessoas passem a acreditar naquilo. Temos vivido isso com grande frequência. Precisamos ser otimistas para construirmos relações sociais mais justas, mais igualitárias nas quais a diversidade se torne fator positivo e que a gente aprenda a conviver e respeitar as diferenças. Vejo o problema da intolerância como social. Não sei se, por mais justo que seja o governante, em uma sociedade tão complexa, com tantos interesses em jogo, temos condições de fazer a igualdade apenas com leis e educação, que é fundamental para o desenvolvimento da sociedade, mas é limitada porque ela não tem o papel de dirimir os conflitos, nem capacidade de mudar tudo. As lutas e a organização das pessoas podem gerar reações contrárias e o pior é que alguns movimentos têm intolerância entre eles. A busca por uma sociedade mais justa, igualitária é ainda o centro da nossa luta, mas não vai resolver de uma hora para a outra o problema desses grupos que sofrem intolerância durante milênios. Temos de trabalhar na totalidade, que seria a discussão de uma sociedade mais justa. Há alguns movimentos que não pensam na totalidade. Se não fizermos isso, não resolveremos o da intolerância.”

 

Juliana Flister/Agência i7Celso Rennó
membro da Escola Brasileira de Psicanálise

“A intolerância sempre existiu, mas aumentou muito. Estamos vivendo reedição às avessas das famosas Cruzadas. Os cristãos saíram da Europa para atacar os muçulmanos e, hoje, o movimento é contrário. Acredito que as razões mudaram, apesar de os efeitos serem semelhantes. Estamos sofrendo mudança na nossa cultura, desde meados do século passado de forma acelerada. Há coisas boas e outras não. A ciência se desenvolveu de forma radical e trouxe consequências. Temos acesso às informações de forma instantânea. Um dos grandes progressos foi a pílula anticoncepcional, que trouxe como consequência a liberação da mulher do vínculo do casamento. Ela não precisaria ter um homem que a sustentasse e escolheria quando, onde e com quem engravidar. Logo em seguida, a ciência ofereceu à mulher a possibilidade de dispensar o parceiro para engravidar. Isso desfez, de alguma maneira, algo que existia desde a Renascença, até meados do século passado, que era a unidade do casamento porque era nessa célula que reinava o que a psicanálise chama de em nome do pai: a lei. A pessoa nascia em um ambiente em que as coisas estavam determinadas: homem se casa com mulher, cresce, trabalha, produz dinheiro. Na medida que a mulher foi se deslocando, criou-se uma possibilidade de novas investidas da própria ciência. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês morto recentemente, coloca no livro A modernidade líquida, de maneira bem clara, como nossos limites foram se dissolvendo e dá exemplo da mudança da sociedade hardware para software, em que as empresas estão cada vez mais líquidas. Antes, éramos um grupo, hoje, estamos no reinado do 1 e esse 1, para se proteger, está cada vez mais avesso às diferenças. Não as suportando mais, ele tenta agredi-la ou se agrega aos que têm aversão a determinado estímulo. A liberdade de escolha para os homossexuais é agressão para os homofóbicos. Essa liquefação diz que está cada vez mais exigindo de cada um a responsabilização de seus atos. Há insuportabilidade da diferença em função de toda essa evolução que vem, o que chamamos de declínio da função paterna, em que a lei perde os seus limites. Quanto menos você sabe dos seus limites, mais frágil se coloca para suportar a diferença e, paradoxalmente, a falta de limites é que propicia mais liberdade. Hoje, não se tem mais respeito ao outro, e isso é consequência séria da falta de limites, por causa da sociedade software. Se não está bom, não tolero essa frustração, eu mudo. As diferenças estão insuportáveis. Não suportamos no outro o que não conseguimos consentir na gente.”

 

Pedro Vilela/Agência i7Stélio Lage
psiquiatra e psicanalista

“A intolerância sempre existiu. Na história da civilização ocidental, em vários momentos, tivemos conflitos, genocídios. O holocausto é o exemplo mais evidente disso. A história da civilização é cheia de segregação. Tolerar é suportar, é a capacidade de suportar aquilo que é distinto do que eu tenho como valor, princípios. Qualquer grupo humano se reúne em torno de uma referência, segregando quem não acata essa referência. O Império Romano era intolerante, a inquisição, o antissemitismo, a eugenia nazista. Atualmente, o que há de diferença é essa disseminação da intolerância, que é até difícil de se localizar. Por mais que as religiões tenham o amor, o acolhimento, que são coisas positivas no sentido civilizatório, para se impor, se afirmar, agiram com certa intolerância. A condição humana de constituir-se por intermédio de uma referência quase absoluta interna, conduz à intolerância. O foco subjetivo, quando tem agregação social, grupal, se torna mais fortalecido e atua de forma segregativa com quem não coaduna com seus valores. Os ataques do Estado Islâmico são, hoje, menos por questões religiosas. São a declaração ao estado de um mundo dominado por movimento capitalista, onde essa referência que poderia ser posta em um deus como Alá, que não tem forma, foi transferida para objetos de consumo. Esse extremismo fundamentalista tem, no bojo, certa opressão que valores mais tradicionais, que não se coadunam com esse discurso capitalista, se vê emparedado e parte para essa reação mais violenta de afirmação. A xenofobia é uma grande intolerância. O fundamento da intolerância é a crença enraizada, irremovível que um grupo admite defender e apregoar. O fundamento da intolerância tem raiz subjetiva muito intensa. Enquanto o homem for homem vai buscar resposta para algo que não possui e vai encontrar respostas prontas em alguns redutos, seja pela salvação mística, glorificação da ascensão capitalista, que são postas como resposta absoluta para a falta de resposta. Isso é, até certo ponto, universal. A consequência da intolerância é criar grupos de iguais e a diferença é tratada de forma agressiva, excluída. O grande problema é essa consideração de que somos todos iguais. Em todo grupo há um foco de intolerância, que se distribui dependendo da subjetividade de cada 1. Cada discurso que unifica 1 grupo trás consigo a potência da intolerância. Há certos extremismos, como a intolerância à intolerância. Escapar disso é uma tarefa que cabe à humanidade e não sei se ela será capaz de solucionar essa questão. Por mais que a gente tenha conhecimento, que as informações sejam mais divulgadas e acessíveis, a intolerância continua em grau elevado. Esta é uma questão humana por excelência. O ser humano é intolerante. Somos uma sociedade de exibição e as questões de homofobia, racismo são expostas, inclusive, em certas atitudes de contestação ao status quo da segregação, portanto, da intolerância. A intolerância fecha a porta da liberdade. A atitude baseada na intolerância só a fomenta mais, não resolve nada. A humanidade evolui, mas não deixa de carregar com ela certas coisas que não evoluem, como a intolerância. Estamos no século 21, mas ainda vemos coisas medievais. Não existe um caminhar da humanidade em passo único, é multiforme. A intolerância faz parte da comunicação humana e, como a sociedade é de informação, ela graça por todos os lugares.
É extremamente contraditório, pois se vê de tudo na comunicação de massa, mas isso aumentou a intolerância. O ser humano é o animal mais agressivo porque ele é sofisticado em sua agressão, é muito aparelhado, é agressivo com palavras.




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