Educação

Ensino à prova

Democratização das universidades no Brasil e mudança do papel do professor impõem novos desafios
Fernando Torres
195 - 21/04/2017

Juliana Flister/Agência i7

Os bancos da faculdade não são mais os mesmos. Com o mundo em ritmo cada vez mais acelerado, a universidade corre o risco de formar profissionais para atuar em áreas que ainda vão ser criadas, resolver problemas que ainda não existem e atuar em um mercado imprevisível. Há também uma crise em andamento, com poucos objetivos delimitados, muito conteúdo e aprofundamento raso, fruto da hiperconectividade e da vasta gama de informações.

No Brasil, um dilema visível é a deficiência do recrutamento de candidatos em diversas carreiras, em parte pela precariedade do ensino fundamental. “Nas últimas décadas, o país fez o possível para ampliar o acesso à universidade, algo extremamente necessário, porém, ao mesmo tempo, captou público com formação básica mais precária”, analisa o sociólogo João Valdir Alves de Souza, pós- doutor em educação e professor de sociologia de educação da UFMG. A conjuntura levou à imensa expansão do sistema privado, mas sem controle rigoroso de qualidade. “Cursos compromissados apenas com o diploma surgem da noite para o dia, com muita propaganda e baixos custos, prejudicando todo o sistema”, critica o doutor em educação Carlos Roberto Jamil Cury, professor de política educacional da PUC Minas.

Mas embora o Brasil tenha peculiaridades, a incógnita da educação é mundial. Tanto que, em 2013, as organizações norte-americanas New Media Consortium e Educase Learning Initiave apresentaram o estudo Horizon Report, com as principais tendências do ensino até 2018. Entre elas, estão o compromisso em recapacitar mestres e estudantes, a revisão das formas de avaliação e a otimização do uso da tecnologia. O panorama debate a tradicional transmissão e recepção de conhecimento e projeta padrões de educação mais fluidos. Nesse modelo, o professor deixaria de ser o bastião do saber para se transformar em facilitador, alguém que ilumina o caminho.

Isso não significa que o papel de mestres e doutores será relegado à segunda linha. Na verdade, se tornam ainda mais importantes, pois além da transmissão da instrução, agora têm a missão de mostrar ao aluno como aplicar o aprendizado. “O profissional, hoje, se equilibra entre o papel clássico, de ensinar a partir da instrução adequada e, ao mesmo tempo, mediar as informações trazidas pela classe que tem acesso a bibliotecas virtuais e consulta on-line em tempo real”, pondera Carlos Cury.

Espera-se que o estudante também assuma postura com mais autonomia e menos passividade. É o que pensa a universitária Amanda Ferreira, do curso de jornalismo da Fumec. “As informações, hoje, mudam muito rápido, mas também dependem do profissional se atualizar. Sempre procuro participar ativamente e aprender tudo o que posso na faculdade. Quando os professores indicam livros extras, se for um assunto que me interessa, vou atrás”, diz. Ela reconhece, porém, que nem todos seguem a diretriz. “Acho que minha geração se acostumou a receber tudo na mão, e alguns saem do terceiro ano e caem de paraquedas no curso superior.”

As universidades também não devem fugir da responsabilidade de moldar o novo aluno. “Parte de nossa missão é buscar suprir as deficiências e conduzir a passagem entre o ensino médio e o superior, desenvolvendo competências e habilidades necessárias para a gestão do próprio aprendizado”, reconhece a professora Ana Célia Santos, pró-reitora de ensino da Escola Superior Dom Helder Câmara, especializada em direito.

Pedro Vilela/Agência i7No decorrer do percurso, porém, seria um contrassenso manter as tradicionais e temidas provas ao fim de cada conteúdo nesse novo paradigma. Mas como aferir a assimilação do aprendizado? A resposta depende de processos que ativem o protagonismo do aluno, de forma que ele aprenda a conviver com situações ambíguas. “O que se postula é a capacidade de participar dos conteúdos transmitidos, com aulas dialogadas e incitamento ao conhecimento sólido, de forma que ele possa dar sentido e seja capaz de fazer correlações”, propõe o professor Carlos Cury.

A discussão ainda passa pelas tecnologias, que assumem papel importante nos novos modelos de educação – como meio e não um fim em si mesmo. “Existem áreas em que a única maneira de formar profissionais altamente qualificados e competentes é por meio de um processo árduo de disciplina e estudo, o velho exercício metódico de leitura, crítica, reflexão e inovação”, afirma o sociólogo João Valdir.

Também é importante pensar o currículo sob um formato mais flexível, com a possibilidade de escolher disciplinas de acordo com a habilidade, mas sem supervalorizar a prática em detrimento da teoria, a formação humanística ante a racionalidade técnica. “As metodologias envolvem o tripé ensino, pesquisa e extensão, com atividades externas complementares, assuntos e debates que contextualizem melhor o mercado”, diz Ana Célia Santos.

Os novos tempos ainda propiciam o fortalecimento da educação à distância (EaD), com flexibilização de horários e a possibilidade de estudar em instituições renomadas fora da cidade ou do país. Porém o ideal é que o curso não seja todo à distância. Os especialistas concordam que a combinação entre aulas virtuais e outras presenciais, de forma a forçar o aluno a estudar sozinho e tirar as dúvidas com o professor, são mais proveitosas e relevantes, mais adequadas para o mercado de trabalho.




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