Economia

Agora vai?

Sueli Cotta
202 - 11/10/2017

Os números da economia começam a acenar para dias melhores. O país sai da recessão com o registro do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos dois trimestres. A taxa básica de juros Selic, que era de 14,15% em julho de 2015, quando o Brasil amargava o auge da crise, entra em queda, com previsão de chegar a 7% até o fim de 2017, propiciando aumento no consumo e expansão do faturamento das empresas. O índice de inflação também despenca, ao atingir 2,5% em agosto deste ano, contra 10,67% em dezembro de 2015. As estatísticas econômicas vão além, ao registrar aumento do crédito físico, da renda e do consumo entre os brasileiros, além do arrefecimento na taxa de desemprego, após dois anos de profundo retrocesso na economia.


Boas notícias? Sim, mas para o economista Ari Francisco de Araújo Jr. são números ainda tímidos para trazer resultados imediatos e significativos no setor econômico de bens de consumo. “Nos segmentos de bens duráveis, como imóveis e veículos, que dependem mais da taxa de juros decrescentes para ter melhores resultados, é registrada recuperação, mas pequena. Já na área de venda de produtos de beleza, por exemplo, que sofre pouco impacto com a queda da taxa de juros e está mais atrelado à renda dos consumidores, não é notado avanço”, compara o economista.


Professor do Instituto Ibmec BH, Araújo Jr. diz que o crescimento registrado nos últimos meses merece análise mais profunda. Ele observa que a elevação da taxa do PIB em 1%, no primeiro trimestre de 2017, teve como principal responsável o setor de agropecuária. “O setor registrou alta de 11,7%. Setores como o comércio não contribuíram tanto”, atenta.


Na visão do economista, a recuperação registrada nos últimos meses está de fato ligada ao aumento do consumo, provocado pela queda acentuada da inflação. “Mas não dá para garantir crescimento baseado só em consumo”, observa. Para o professor, é necessário formação bruta de capital, ou seja, investimentos das empresas. “Mesmo que a taxa de juros tenha baixado, os empresários têm incertezas no mercado, em função dos problemas políticos e dúvidas se reformas, como a da Previdência, serão aprovadas no Congresso. O que garantiria o crescimento seria o investimento dos empresários, e isso não foi recuperado”, avalia Araújo Jr.


Cauteloso, o professor diz que é preciso esperar as eleições de 2018 para uma definição mais precisa do futuro econômico do país. “Não é necessário o resultado das urnas, mas a definição dos candidatos já é suficiente para dizer se abala ou contribui para a retomada do otimismo do setor privado”, assegura.


Enquanto 2018 não chega, a Viver Brasil foi atrás de cinco empresários para saber se os números positivos da economia já repercutem em seus negócios e se eles estão otimistas quanto ao cenário econômico futuro. Confira nas páginas a seguir.

divulgação

Ariano Cavalcanti de Paula, presidente da Netimóveis

“Houve uma melhora discreta. Sofríamos com o problema de adiamento de decisão dos clientes por causa da crise. Neste semestre, registramos crescimento de 5,5% nas vendas. Já no anterior, as vendas se mantiveram estáveis, mas houve queda nos períodos anteriores. O setor de locação se recuperou ao longo de 2016 e está bem. Acredito que a previsão da Selic de 7% até o fim do ano trará mais crescimento. Vários investidores estão vindo para o mercado imobiliário aproveitar este momento.  Estou no mercado há 20 anos e confesso que esta não foi a pior crise econômica que vivemos: a de 1980 foi pior”. 

PEDRO VILELA/AGENCIA I 7

Fernando Bicalho, administrador da Celle Perfumaria

“Atuo há 40 anos no segmento de produtos de beleza, e esta é a pior crise que já enfrentamos. As vendas caíram de 20% a 25%. Não senti ainda a retomada, talvez porque o varejo seja o primeiro a entrar na crise e o último a sair. Primeiro, as pessoas deixam de consumir. O ano de 2015 foi bom, a economia ainda estava aquecida, mas em 2016 foi caindo, até hoje. O fluxo de pessoas na loja e o número de vendas reduziram. As pessoas estão mais seletivas, comprando o que é necessário. Antes chegavam e levavam cinco, seis itens. Hoje, levam dois, três, só o que precisam. Isso é um termômetro de mercado desaquecido. A meu ver, a economia só terá mudanças em 2018, com as eleições. Mesmo assim, não deixo de ser otimista, o importante é estar vivo enquanto muitas lojas fecham as portas.”

Iris Clemência, dona da loja de roupas feminina Iris Clemência

“Sinto já um encorajamento das clientes ao entrar na loja. A recessão durante esses dois anos provocou queda de 50% nas vendas. As clientes escolhiam, se encantavam com as roupas, mas, depois, não levavam, devido a dificuldades, como medo da perda do emprego ou, no caso de empresárias, redução no faturamento. Graças a Deus, tudo passa. Agora, elas estão comprando mais. Estou no mercado há 30 anos e vivi tantas crises que desenvolvi muita esperança. Creio que essa não seja a pior crise que vivemos, mas foi aquela que atingiu mais o emocional dos brasileiros, devido à revelação de tanta corrupção política.”

Marcos Silva Basílio, diretor comercial das concessionárias Honda Saitama e Gran Japa

Percebo mudanças desde julho deste ano. O fluxo de clientes e o número de vendas aumentou nas lojas em aproximadamente 20%. Sinto a clientela mais tranquila e menos ansiosa. Tivemos a sorte, no período em que todo mundo sofria com a crise, de fazer o lançamento de modelos que fizeram enorme sucesso, com fila de pessoas para comprá-los. Acredito: a tendência agora é de a economia se recuperar.”

Marise Rache, chef do D'Artagnan Bistrô

Apesar da expectativa que 2017 seria um ano de crise, percebo que existe uma reação favorável na economia. Creio que, devido à nossa constante preocupação na escolha dos melhores ingredientes, fornecedores e sempre oferecendo um serviço de qualidade, tivemos uma resposta positiva neste período. Estou certa que ainda temos um longo caminho até que toda a cadeia econômica se restabeleça. O Brasil já superou outros momentos difíceis e, acredito, sairá desse fortalecido.”




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