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Ser mãe moderna - Eliana Fonseca

É ter mais do que o desafio de criar e educar os filhos, é conviver com mundo digital, valores éticos desgastados, consumismo
Eliana Fonseca
Edição 128 - 23/05/2014

Capa - Foto Igor Coelho-Agência i7Ser mãe nunca foi tarefa fácil e não, é à toa que a expressão padecer no paraíso vem de tempos antigos para dimensionar essa missão hercúlea. Mas as mães modernas parecem estar tendo muito mais trabalho – especialistas afirmam que elas estão no limiar de uma época de mudanças em que as relações somadas ao avanço das tecnologias compõem uma realidade em que limite, amor, carreira, autonomia e educação não são conceitos desgarrados no núcleo familiar. Pelo contrário, formam uma amálgama cada vez mais consistente.

Estudiosos também refletem sobre quais são os principais erros e como lidar com questões complexas, como ética, consumismo, culpa. A boa nova para quem está se desesperando com a tarefa de educar o filho é que os tropeços e acertos são comuns ao baú de cada mãe. Convidamos 4 delas para contar quais são os principais desafios e como lidam com a dinâmica do dia a dia de educar filhos pequenos e adolescentes.

Pouco importa se você acabou de se tornar mãe ou se o seu filho já está crescidinho, provavelmente, a culpa já se instalou em alguma parte de sua vida. Desde a emancipação feminina, quando as mulheres começaram a ocupar cargos no mercado de trabalho, deixar os filhos e sair para a labuta, esse é o primeiro sintoma. E haja culpa. Culpa por trabalhar, por ter menos tempo com o filho, por não dar conta de tudo. E aí surge um novo elemento ao educá-lo, como dizer não, dar limite, se, psicologicamente, a mãe se sente em falta? É uma questão complexa, segundo a psicanalista e psicopedagoga Cristina Silveira, porque é preciso dar conta da tarefa de criar e educar a criança em uma época em que já que não basta mais a qualidade do tempo, é preciso apostar na quantidade de horas com os filhos.

“A mãe é a responsável por fazer a integração da criança com o ego. Se isso não ocorre, essa criança vai para o mundo despreparada e sofre muito, porque não se apropria de sua realidade”, observa Cristina. Na prática, as mães contemporâneas têm de dar conta da criação e da educação do filho, com participação. Ela pode ter valiosos parceiros, como a escola ou a funcionária, que a ajudem na rotina do filho. “A escola pode ser grande ajuda para a mãe, quando se torna um local em que se pode confiar, que cuida, acolhe e ajuda a entender essa criança”, diz. A parceria com a pessoa que cuida do filho também é mais do que bem-vinda. Organizar agenda e utilizar a tecnologia – por que não whatsapp, skype para conversar mais com o filho e também acompanhar a rotina dele? “A criança de hoje é mais exigente, tem muita informação e acesso à comunicação, é mais questionadora. É preciso reaprender a ser mãe, sem autoritarismo, mas com limite, que é uma prova de amor para com o filho.”

Para quem é mãe, não há receita. O limite, a negação, a falta, experiências tão importantes para impulsionar a maturidade da criança, são enfrentados por cada um de maneira diferente. A fisioterapeuta e educadora física Sandra Jovita Cunha, 52, ficou viúva há 10 anos, e seus filhos, João Vítor e Júlia, tinham 2 e 6 anos, respectivamente. Ela conta que criou os filhos sozinha, na base do companheirismo, em que o diálogo e a transparência na relação foram os seus maiores aliados. Se teve que remar contra a maré? Várias vezes, segundo ela. “É um desafio passar algo sobre formação de caráter em uma época em que grande parcela das pessoas não tem valores fortalecidos. É algo difícil. E ainda há os valores impostos por televisão, redes sociais”, reflete.

Sandra já foi chamada de esquisita pelos filhos por ser rigorosa no limite, já que as mães dos coleguinhas eram liberais quanto a horários de televisão e internet. A fisioterapeuta conta que, até a morte do marido, era mãe em tempo integral. Quando voltou à profissão, teve a flexibilidade de que precisava para cuidar deles. “Vejo que estou dando conta. Ter filhos é um prazer que compensa qualquer desafio.”

Transmitir amor e, através dele, firmar compromissos é uma das lições que a empresária Renata Muzzi Lacerda, 43, mãe de Felipe, 16, e Rafael, 10, tenta passar aos filhos. “Tenho orgulho e alegria de ser mãe”, diz a empresária, que passou a ter uma rotina flexível desde que os filhos nasceram, mas nunca deixou de trabalhar. A educação passa pelo carinho, mas também pela firmeza, e Renata faz questão de enfatizar que não cria os filhos para si, mas, sim, para o mundo. Os limites são claros, e ela e o marido fazem de suas ações os exemplos éticos e morais que desejam transmitir aos filhos. O consumismo é rechaçado em casa, com noções claras dos limites materiais dos pais. “O que tentamos fazer é investir em boas escolas, em viagens culturais e estimular o que aprendi com o meu pai, que é a caridade e o respeito ao próximo”, observa Renata.

Capa2 - Foto Pedro Vilela-Agência i7A empresária leva constantemente os filhos para visitar projetos sociais e, no diálogo permanente, fala da importância de tratar as pessoas bem. “Sempre enfatizo que, para sermos alguém, temos de tratar as pessoas como alguém.” O resultado é uma relação de respeito mútuo, em que os filhos usam o bom senso e respeitam tanto as regras de casa quanto as da escola e as sociais, além de terem um grande senso de responsabilidade.

Renata e o marido incentivam a prática de esportes e tanto Felipe quanto Rafael fazem hipismo. O interessante é que, mesmo com a fase de festas de 15 anos e outros compromissos da idade, Felipe nunca falta às aulas da atividade. “Não é preciso cobrança. É por conta própria que eles se levantam para praticar o esporte”, comenta a mãe.

Nem todas as mães têm essa facilidade em suas relações com os filhos. A psicóloga Dayse da Cunha afirma que, se antes ser mãe era uma experiência que exigia das mulheres muito mais feeling para saber lidar com situações especiais, que tinham de ser vividas na privacidade e a partir da realidade de cada um, atualmente muita coisa mudou. “A sociedade está cada vez mais engessada, padronizada, e as pessoas procuram muito mais saber como foi a experiência do outro do que passar pela sua própria vivência. Estudos, teorias, pesquisas – todo um conhecimento científico – passam a determinar a forma ou a fórmula de se tornar uma boa mãe”, diz.  

O resultado é que, segundo Dayse, torna-se cada vez mais difícil lidar com a vida real, em que não há lugar para manual. Toda mãe tem que se defrontar com as necessidades do filho que tem de ser cuidado, assistido, ajudado, ensinado a se tornar humano. E não são possíveis as ausências. A psicóloga observa que as funções mais básicas, da alimentação até os comportamentos e trocas sociais mais elaboradas, passam pela interferência da relação com outro ser humano.  

“Assistimos, atualmente, com frequência, a mães que só conseguem que seus filhos se alimentem (ou se concentrem) se forem hipnotizados por um iPad ou outro aparelho tecnológico. Tal precocidade da criança no uso da tecnologia é, muitas vezes, comemorado pelos pais como sinal de inteligência e esperteza. Mas, na verdade, expressa a dificuldade dos adultos em lidar com a criança”, afirma Dayse. Não adiantam fórmulas mágicas, para cuidar e educar bebês ou adolescentes. “A maioria dos pais encontra dificuldade em impor limites aos filhos. É um problema coletivo, mas a solução tem que ser encontrada por cada um, dentro das particularidades de sua experiência.”

Quem encontrou o caminho para a relação positiva com os filhos sempre enfatiza o diálogo. É o caso da administradora Kiki Harmendani, 42, que observa que a educação deles passa por um conceito de formar cidadãos, com obrigações e sabedores das consequências de cada ato. Mãe de Ana, 13, e João, 10, Kiki é de uma geração que não teve celular nem computador, como as crianças e adolescentes atuais. Ela se diz assustada com a exposição exacerbada, a questão da segurança e assuntos graves, como a pedofilia na rede. O filho mais novo tem celular controlado e somente nos finais de semana. A filha de 13 anos tem mais liberdade, mas tudo com muito diálogo. “Aconselho diariamente sobre a questão das postagens, aceitar pessoas que não conhecem em redes sociais. Acho que o momento é o de orientação”, diz.

A transparência, na casa de Kiki, é a panaceia para tudo. Com um horário flexível no trabalho, ela pode ficar mais tempo com os filhos, mas isso não significa que inexista culpa quando não pode acompanhar parte da rotina. Como o desejo é de filhos autônomos, que construam um futuro a partir do trabalho, Kiki sempre faz questão de dimensionar para os filhos que não seria completa se não fosse a sua profissão. “Sempre falo com eles que não se trata somente da questão financeira. Tenho orgulho de trabalhar.”

A executiva Bianca Braz, que tem duas filhas, Rayla e Laila, de 15 e 18 anos, diz que aprende todos os dias com as jovens e estabelece diálogo permanente para tentar entender não só o ambiente por onde transitam, mas também a geração delas e tentar ajudar e instruí-las nas dificuldades. “Ser mãe é um desafio constante. Você pode proteger, dar amor, segurança aos seus filhos, mas é limitado, porque, quando eles saem para a rua, vão encontrar um mundo que exige atenção o tempo todo”, afirma.

Bianca conta que tem por hábito recortar jornais com notícias envolvendo, principalmente, a juventude, para mostrar para as filhas e debater os assuntos com elas. “Minha preocupação é sempre enfatizar a educação, mostrando o que é certo, o que é errado, procurando estar perto.”A executiva diz que, em sua casa, não cabem autoritarismo, não pelo não, como era comum a pais em outras épocas. “É preciso explicar porque dizemos não e nos posicionarmos sobre o que consideramos errado para os nossos filhos. Acho que isso é instruir.”




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