Memória

O amigo do rei

Um dos mais próximos companheiros de Hélio Garcia, João Buteco relembra passagens com o ex-governador
Flávio Penna
203 - 01/11/2017

Juliana Flister

Na pia batismal ele recebeu o nome de João Batista da Silva. Um nome que nem ele mesmo usa. Faz questão de se apresentar como João Buteco, como é conhecido e, como tal, foi eleito prefeito de Ataléia, no Norte de Minas, por três vezes. Hoje filiado ao PSB, mesmo distante da vida pública, João passou pela  Arena, PFL, PP e PMDB, numa trajetória política feita por muitos que, tendo começado a vida pública no período dos governos militares, fizeram a transposição para a democracia acompanhando a candidatura de Tancredo Neves ao governo de Minas. Acabou se transformando em testemunha e, em alguns casos, partícipe das transformações políticas nos anos 1980.
O que era apenas uma parceria política acabou se transformando numa sólida amizade. João Buteco era figura constante, e discreta, ao lado do ex-governador Hélio Garcia. Tão constante e tão próximo que, mesmo no exercício do mandato de prefeito de Ataléia, ele chegou a morar no palácio das Mangabeiras, bunker de Garcia, que só deixava o palácio para atos públicos ou, então, fugidas noturnas para fiscalizar as obras que dera início como prefeito de Belo Horizonte. “Essas visitas eram rotineiras, mas sem qualquer programação. Como muitas obras eram tocadas em ritmo de 24 horas, muitas vezes a gente estava conversando no palácio, e ele se levantava e chamava a quem estivesse por lá para visitar obras, como as do Arrudas e do túnel da Lagoinha. Quando chovia forte, a visita era certa. Ele queria acompanhar de perto para ver se não tinha estragos”.

Arquivo pessoal

João Buteco pertencia ao restrito grupo de amigos de Hélio Garcia, que não reunia apenas políticos, mas vários ex-companheiros da juventude no Minas Tênis e das festas e noitadas em Belo Horizonte. Eram muitos os amigos, mas poucos os que tinham realmente intimidade com ele. Hélio Garcia era quase um solitário, que deixava poucos – quase dava para contar nos dedos da mão – participarem de sua vida pessoa. Na política, era ainda mais solitário. Suas decisões eram, invariavelmente, pessoais. “Era um grande pensador da prática política. Quando precisava decidir algo, decidia sozinho, após pensar um pouco sobre o assunto. Sem interferência de ninguém.”
Se colocou os pés na lama de obras, João Buteco, acompanhando Garcia, acabou por colocar olhos e ouvidos na história política recente do país. Foi testemunha de muitos conchavos para fazer de Tancredo vencedor no Colégio Eleitoral. Como, por exemplo, a escolha do nome do vice. Tancredo queria Marcos Maciel, que recusou todos os convites. Sarney queria o posto e tinha fortes apoios, mas Tancredo relutava, temendo a reação popular a este tipo de aliança. “Até que, um dia, o Hélio foi ao palácio e conversou sério com Tancredo, argumentando que não dava mais para esperar e que a solução seria mesmo aceitar Sarney. A aliança foi fechada”. Tempos depois, outro episódio envolve Garcia e Maciel. Fernando Henrique Cardoso sondou Hélio Garcia para vice, mas ele recusou. Pedro Simon, cacique do PMDB do Rio Grande do Sul, tentou convencê-lo a aceitar em vão. No final, FHC fechou com Maciel, o que gerou um comentário do governador mineiro. ”Pode apostar, o Fernando Henrique vai ganhar esta eleição. Marco Maciel não entraria se houvesse riscos”.

Arquivo pessoal

Buteco também acabou sendo testemunha de acordos pouco republicanos que ajudaram a eleger Tancredo. “O Hélio Garcia teve que fazer um acerto com sete deputados para que eles votassem em Tancredo no Colégio Eleitoral’.  Por acerto, ele admite, entenda-se “compra dos votos”. Só que ele não revela nomes, embora se comente que foi de uma bancada inteira de um estado do Norte antes comprometida com Maluf. João Buteco define o amigo Hélio Garcia como um homem duro, amigo dos amigos, mas que não usava meias palavras. Não continha explosões, como a que teve numa conversa com um empreiteiro envolvido na construção da BR-381. “O homem foi ao palácio propor ao governador uma modificação no projeto. Insinuou uma propina. Ouviu de tudo. Saiu assustado”.
João Buteco, pelo que assistiu e viveu, não tem dúvidas de que, se não fosse Hélio Garcia, Tancredo não teria sido governador. E muito menos teria vencido a disputa no Colégio Eleitoral. “A história do Brasil seria outra.”




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