Política

O curinga Anastasia

Distante do perfil de parlamentar tradicinal, senador é nome forte do PSDB para disputa eleitoral nacional e em Minas. Mas ele declina
Sueli Cotta
206 - 05/02/2018

DivulgaçãoEle não tem perfil do político tradicional. Estudioso e disciplinado, tornou-se referência em administração pública e sua palavra costuma ser referendada até por adversários. Trata-se do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), nome cogitado para a disputa nacional e para o governo de Minas das eleições 2018.
Anastasia já avisou que não será candidato. Não fez e nem pretende fazer nenhum movimento neste sentido. Mesmo porque a direção nacional do partido marcou a realização das prévias para 4 de março, quando deve ser confirmado o nome do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para a candidatura à Presidência da República. Por enquanto, além de Alckmin, apenas o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, também está cotado.
Mas, no ninho tucano, o nome de Anastasia é tratado como possibilidade, caso Alckmin seja impedido, por alguma razão, inclusive de viabilidade eleitoral. Mesmo querendo distância do processo, ele também é lembrado para ser vice, se houver acordo entre os partidos. Secretário-geral do PSDB, o deputado federal Marcus Pestana lembra que a indicação do vice deve ser das legendas alinhadas ao PSDB. Nesse processo, a vaga caberia ao DEM. Essas negociações não impedem, no entanto, que todas essas hipóteses sejam analisadas, desejadas e com sorte, concretizadas.
O senador mineiro observa essa movimentação e nega categoricamente a pretensão de participar do processo eleitoral, a não ser nas articulações políticas, como tem feito em Minas. Ele tem conduzido as conversas com aliados e busca manter o grupo unido. Mas tem ouvido com frequência que seu nome é o único que conseguiria garantir a reedição da aliança. A pressão que vem sofrendo é grande. O próprio Alckmin chegou a apelar para que ele participasse da eleição ao governo de Minas. Em vão.
Pestana acredita que Anastasia uniria o grupo e seria um candidato forte, com condições de fazer com que o PSDB ocupe novamente o Palácio da Liberdade. Como essa possibilidade está praticamente descartada, os tucanos não devem lançar candidatura. E foi esse o recado que Anastasia enviou para Alckmin, o de que o partido deve apoiar um de seus aliados. As conversas estão avançadas e pelo menos três nomes estão no páreo: o de Dinis Pinheiro (PP), do ex-prefeito Marcio Lacerda (PSB) e do deputado federal Rodrigo Pacheco (PMDB).
DivulgaçãoEntrando ou não na disputa, Anastasia será fundamental como cabo eleitoral em nível nacional e no estado. Seu prestígio vai além dos limites partidários. O eleitor reconhece nele o perfil de parlamentar sem os vícios da política. Para o cientista político Malco Camargos, Anastasia é um tipo entre o “velho político” e o novo “gestor”. Ele incorpora as duas qualidades, experiência e perfil técnico, e, por isso, é tido como curinga. Outros fatores importantes, segundo Malco, são sua atuação como peça importante no governo de Aécio Neves, e a aura de professor, de alguém que adquiriu conhecimento. Esses aspectos justificariam o fato de que, no momento de maior descrédito da classe política, ele aparece quase como unanimidade. Também é um dos poucos parlamentares que consegue usar a ponte aérea, entrar em restaurantes e lugares públicos sem ser hostilizado. Ao contrário, é cercado e cumprimentado.

Mas sua carreira não foi construída da noite para o dia. Graduado e mestre em Direito pela UFMG, Anastasia iniciou contato com a política ainda jovem, como assessor jurídico do relator da Constituinte Mineira, deputado Bonifácio Mourão (PSDB), em 1989. Logo depois, entrou na administração pública como secretário-adjunto de Planejamento no governo de Hélio Garcia (PTB), entre 1991 e 1994. Em 1995, assumiu o cargo de secretário-executivo do Ministério do Trabalho, com o então ministro Paulo Paiva. Com a saída dele, ocupou o cargo de ministro interino de FHC.
Do Planalto, Anastasia coordenou o programa de governo da campanha de Aécio, em 2002. Vencidas as eleições, ele implementou o choque de gestão em Minas. O novo modelo acabou servindo de exemplo para outros estados e impulsionou sua carreira política. Em 2006, integrou a chapa majoritária do PSDB, sendo candidato a vice-governador. Com a vitória nas urnas, assumiu o controle das contas do estado.
Caminho sem volta, pouco depois, em março de 2010, Anastasia assumiu o governo, com a renúncia de Aécio, para disputar o Senado. Também enfrentou as urnas no mesmo ano, como cabeça de chapa pela primeira vez, sendo reeleito em primeiro turno, com 62,72% dos votos válidos. Nesse momento, passou a ter mais intimidade com as artimanhas políticas e conseguiu manter forte base de apoio. O grupo que o apoiou se mantém ligado a ele até hoje.

Em 2014, Anastasia se elegeu para uma das três cadeiras do Senado destinadas a Minas. Dois anos depois, foi escolhido relator do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Com a indicação, Anastasia teve a vida vasculhada, o governo analisado por lupa e enfrentou a fúria petista. Bombardeado por todos os lados, ele se manteve firme. As críticas não surtiram efeito e o senador concluiu o relatório e o parecer de 441 páginas, considerando que as acusações contra Dilma eram graves e substanciais. Dilma foi afastada definitivamente em 31 de agosto de 2016.
Foi a partir desse momento que Anastasia passou a ser considerado nome forte do PSDB para a presidência. De senador e ex-governador, passou a ser um dos políticos mais comentados. A fama parece ter lhe dado ânimo para intensificar a atuação no Senado, onde encontrou vocação. Bem à vontade na função de parlamentar, ele tem encontrado respaldo para colocar em prática a experiência na administração pública, com apresentação de propostas para corrigir distorções nas leis.
Um de seus projetos, por exemplo, busca ampliar a segurança jurídica e melhorar as decisões públicas. “O estado tem a incapacidade de gerar confiança nas pessoas, nas empresas e no terceiro setor. Ou melhoramos nosso ambiente institucional ou o estado será um inimigo, jamais um parceiro”, defende o senador, que acredita que a proposta vai impactar a sociedade e atrair mais investimentos. Outro projeto aprovado por unanimidade é o que simplifica convênios e a prestação de contas de pequenos municípios, o Simples Municipal. A ideia é garantir tratamento diferenciado a municípios de pequeno porte, facilitando o acesso a mais recursos e tornando a prestação de contas mais condizentes com a realidade de escassez dessas prefeituras. A medida, em trâmite na Câmara, deve beneficiar mais de 70% das cidades.
Sua atuação chamou a atenção dos órgãos que acompanham os trabalhos dos congressistas e Anastasia foi escolhido por três anos consecutivos como um dos “cabeças do Congresso” pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). O empenho tem razão de ser. É no Senado que ele coloca em prática os conhecimentos teóricos conquistados em sala de aula, inclusive como professor, sua experiência na administração pública e agora, mais intensamente, nas articulações políticas.
Ao que tudo indica, a maior dificuldade do congressista mineiro será o de convencer os líderes tucanos e os partidos aliados de que ele prefere ficar no Senado a entrar em disputas eleitorais, mesmo que isso signifique o encolhimento da sobrevivência da legenda. vb




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