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Mineiros no Vale do Silício

Conheça as histórias de quatro jovens que deixaram Minas Gerais para conquistar emprego na Google, uma das empresas mais inovadoras do mundo
Alysson Lisboa
206 - 05/02/2018

Alysson Lisboa

Conhecer a sede mundial da Google, para aficcionados em tecnologia como eu, equivale à cena de uma daquelas crianças entrando na Fantástica Fábrica de Chocolates de Willy Wonka. Recebi meu crachá de visitante na recepção do Prédio 43 do Googleplex, em Mountain View, na Califórnia. Diferente do que é idealizado no filme da década de 1970, a magia do lugar não está apenas nos corredores coloridos, geladeiras repletas de guloseimas, mascotes espalhados por todo lado e bicicletas multicoloridas. O encantamento acontece também pelo impacto que cada produto desenvolvido naquele lugar tem em nossas vidas e como o ambiente é repleto de jovens criativos. É de lá que saem soluções que alteram o cotidiano de bilhões de pessoas e empresas ao redor do mundo. Você consegue imaginar sua rotina sem um e-mail ou sem o mapa no celular? “Dar um Google” ou “Googlar” já virou expressão usual, não é mesmo?
Visitei a sede do Google em busca de boas histórias de mineiros que trabalham lá. Em meio a centenas de edifícios e paredes pintadas de vermelho, azul, verde e amarelo, encontrei alguns jovens que deixaram Minas para buscar o sonho de trabalhar nos Estados Unidos. A região escolhida, o Silicon Valley ou Vale do Silício, abriga várias cidades que são sedes das principais empresas de tecnologia do mundo.
Ao visitar a Califórnia, tive a rápida sensação de estar realmente em um lugar muito particular. Além de ser um espaço rico, repleto de belezas naturais e excelentes universidades, como a Stanford e a Universidade da Califórnia, em Berkeley, a região é cercada por cidades como San Francisco, Palo Alto, Los Gatos, Los Altos, San Bruno e a própria Moun-
tain View. São locais que abrigam hoje as maiores empresas de tecnologia e startups do sucesso do mundo e que já fazem parte do nosso cotidiano, como Apple, Facebook, Google, Microsoft, Netflix, Twitter e tantas outras.
Antes de visitar a sede do Google, uma parada na casa que, por 20 anos, pertenceu a Steve Jobs. Foi no número 2.101 da Waverley Street, em Palo Alto, que o gênio da Apple morou até sua morte, em outubro de 2011. A atmosfera convida à reflexão por sua exuberante paisagem, canto de pássaros e poucos pedestres ou curiosos.
Fiz o percurso de Palo Alto em direção a Mountain View. Chegando à sede da Google, fui recebido pelos mineiros André Souza, Vinícius Felizardo, e Thales Filizola. Ana Carolina Gurgel, mesmo adoentada, contribuiu com a entrevista via chat hangout. Ela se recuperava de uma virose e trabalhava de casa. Sim, isso é comum por lá, e as pessoas fazem isso porque gostam do trabalho. Esses mineiros que trabalham hoje no Google deixaram o Brasil para viver um sonho. Os jovens contaram um pouco sobre o que é viver e trabalhar naquela região. Aceitaram conversar com a reportagem da revista Viver Brasil para relatar sobre carreira, cotidiano, saudade de casa e desafios encontrados.

Alysson LisboaUm passo de cada vez e um objetivo claro na cabeça
Aos 15 anos, Vinícius Felizardo deixou a pequena Muriaé, na Zona da Mata, para estudar no Rio. Depois de passar por algumas faculdades, resolveu cursar Engenharia de Computação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Durante os estudos, fez intercâmbio no Chile e, depois, no estado da Pensilvânia, já nos Estados Unidos. O jeito tímido e o tom baixo na conversa não escondem a inteligência e a percepção do jovem, que ainda conserva o sotaque mineiro.
Depois de conseguir um estágio no setor de vendas da sede da Google em São Paulo, o felizardo Vinícius percebeu que grande parte do trabalho realizado poderia ser automatizado. E não deu outra: foi convidado para evoluir a solução na sede de Mountain View. Observando a oportunidade que tinha nas mãos, tratou de buscar uma vaga no time global da empresa.

Alysson LisboaA persistência de André e a certeza do caminho que gostaria de trilhar
“Quando decidi trabalhar na Google, cheguei a enviar 37 vezes o currículo para seleção”, conta André Souza, que está na empresa desde novembro de 2016. O percurso para chegar até lá foi muito diferente da maioria das pessoas, mas a persistência fez toda a diferença na contratação. Formado em Letras pela UFMG, atualmente ele trabalha como cientista de dados e concentra seus esforços em um conceito bem atual, o aprendizado de máquina.
“Esse é cargo que está presente em várias frentes dentro da Google. Então, enviei o currículo para diversas divisões aqui”, revela André. Não foi rápido conquistar uma cadeira na empresa, mas determinação nunca faltou ao jovem. Quando chegou aos Estados Unidos, por meio de um convênio entre a UFMG e a Universidade do Texas, em Austin, trazia no bolso só US$ 25, dos quais gastou US$ 15 para comprar um pré-histórico cartão telefônico e avisar à mãe que estava bem. Ex-morador do bairro Vera Cruz, em Belo Horizonte, André teve infância pobre, conheceu de perto as dificuldades, mas isso nunca o amedrontou.
Para sobreviver, aprendeu a fazer de tudo um pouco e não parou de trabalhar. Cortava grama, lavava pratos até que, denunciado, teve que regressar ao Brasil. Ainda determinado a voltar aos Estados Unidos, conseguiu apoio da professora que conheceu no Texas e se ofereceu para ajudar na pesquisa como voluntário. A professora, por sua vez, convidou André a voltar, dessa vez como estudante de doutorado em Psicologia Cognitiva.
Mas, para entrar na Google, o caminho continuava longo e estreito. “O processo de entrevista é bem demorado. Todas as semanas, chegam pelo menos 20 mil currículos na empresa, e menos de 1% é aproveitado”, informa. Segundo André, isso se deve não por baixa formação ou falta de cursos de especialização, mas porque os entrevistadores exigem um pensamento lógico para a solução de problemas reais. “Os candidatos, na maioria das vezes, não estão preparados para responder perguntas totalmente inusitadas, muitas vezes, de outras áreas do conhecimento.”
André, que também fez pós-doutorado no Canadá, destaca ainda que, apesar de a Google ser uma empresa de engenharia, eles contratam psicólogos, biólogos, historiadores, entre outros profissionais. “Estar disposto a gerar impacto no mundo com soluções tecnológicas já faz de você um forte candidato. O currículo não é só o que conta”, completa.

Alysson LisboaCérebro eletrônico
O engenheiro de software Thales Filizola começou a trabalhar no YouTube, braço da Google com sede em San Bruno, em outubro de 2015. Antes disso, passou por algumas startups e consultoria em big data e também realizou um trabalho para o governo de Minas, no setor de dados massivos. Ele é um entusiasta das novas tecnologias e acredita que máquinas, cada vez mais inteligentes, poderão realizar rotinas mais rápido que nós, mas a criatividade é um dom natural humano, que dificilmente a máquina conseguirá substituir. “Conseguimos navegar em domínios que ela ainda não consegue”, afirma Thales.
A máquina também não substitui a saudade de casa. Thales vem uma vez por ano ao Brasil, geralmente no Natal, para reencontrar a família. Perguntado se pensa em voltar para BH, ele não refuta: “O ambiente de trabalho é diferente. O impacto que podemos causar nas pessoas e no mundo é incrível. Quero continuar aqui.” Trabalhar na Google coloca as pessoas em contato com uma nova cultura de informação e organização. “O choque cultural é muito marcante. Todos temos o modo ‘googleness’ de pensar. É uma cultura aberta”, completa. Na empresa, os funcionários dispõem de 20% do tempo para desenvolver qualquer tipo de negócio ou produto, mesmo projetos particulares. A cobrança é descentralizada, enquanto o envolvimento dos funcionários e o ambiente competitivo incentivam a busca pela superação.

Alysson LisboaPresença feminina
“Nunca pensei que era um ambiente masculino. Fui atrás de informação e segui minha trajetória.” As aspas são de Ana Carolina Gurgel, que trabalha na Google da Califórnia e pede que mais mulheres busquem posições importantes em empresas de tecnologia. Para ela, não há barreiras. “As relações de trabalho são muito diferentes das do Brasil. Não há espaço para tantas brincadeira”, compara.

Formada em Administração, Ana trabalhou na área de consultoria em Minas. Passou três anos no Canadá e em Nova Iorque, quando resolveu fazer MBA na França. Depois, fez vários cursos de empreendedorismo e de tecnologia. E a virada aconteceu. Atualmente, ela trabalha na ferramenta G Suite, serviço de produtos que podem ser personalizados pelo usuário. “O processo seletivo do Google é bem rigoroso, mas também é preciso sorte. Já contratei várias pessoas que não passaram na primeira vez e tentaram novamente”, diz ela, que trabalha na empresa há cinco anos.

Apesar de flexível, Ana lembra o quanto o mercado norte-americano é competitivo. “Agora, por exemplo, estou em casa, gripada. Mas trabalho normalmente. Somos cobrados por resultados e não por estar trabalhando fisicamente na empresa”, ressalta. É nessas horas que a saudade de casa bate forte. “Nos dois primeiros anos, me senti muito sozinha. Foi muito difícil. Mudei para os Estados Unidos aos 30 anos, casada. O esquema é diferente, a cultura é bem fechada, os eventos têm hora para começar e para terminar.”

Ela acredita que, para atrair cada vez mais mulheres para o campo da inovação e da tecnologia, é preciso ocorrer uma mudança cultural muito forte. Sem se intimidar, Ana só tinha uma obstinação: Como faço para entrar? Ela perguntava aos homens como fazer para alcançar determinados postos. Para ela, quanto mais mulheres estiverem em posições importantes, maior será a atração para que cheguem novas candidatas.

Inteligência de máquina
O carro da Tesla avisa um risco iminente de colisão. A máquina consegue processar os acontecimentos em uma rodovia de modo muito mais rápido e completo que nós, humanos. Mas, segundo André Souza, apesar do desenvolvimento da ciência e da compreensão do cérebro a partir de um nível neural, existem coisas que não conseguimos traduzir com máquinas. “A gente tem determinadas reações muito curiosas, como, por exemplo, não ir com a cara de fulano ou gostar de sicrano”, exemplifica André. E complementa: “Nosso processo criativo e a capacidade de realizar conexões são processos ainda muito complexos. As máquinas não conseguem simular essas relações – ainda”.

Divulgação

Gigante que não para de crescer

Cerca de 33 mil funcionários trabalham atualmente na Google de Mountain View. Somando os outros escritórios ao redor do mundo, a empresa emprega mais de 72 mil colaboradores divididos pelos diversos produtos da marca. “Temos acesso a coisas que vão ditar o futuro. O carro que dirige sozinho é uma das coisas que nasceu aqui”, comemora André Souza.
O prédio 43 do Googleplex, conhecido também como prédio dos nerds, foi nosso ponto de partida com esses mineiroS que deixaram para trás a família e os amigos em busca do sonho de trabalhar fora. Segundo o ranking Brand Finance Global 500, com as marcas mais poderosas no mundo, divulgado no início de 2017, a Google é hoje a marca mais valiosa do planeta, estimada em US$ 109 bilhões.

DICA 1: TENHA UMA REDE CONTATOS
O norte-americano faz muito network. Entre em contato com as pessoas. Você tem que fazer pesquisa para entender o que quer. Depois, busque pessoas que possam te ajudar. “Pedir para ser ‘colocado’ no Google não é o tipo de coisa que as pessoas gostam de receber aqui. Estamos falando de uma empresa com mais de 70 mil funcionários. É preciso ter um propósito muito claro. Faça perguntas assim: ‘Queria saber como funciona o seu trabalho, o que você faz e que tipo de competências preciso ter?’” Ana Carolina, estrategista da plataforma G Suite

DICA 2: PESQUISA NO GOOGLE
“Temos hoje um mar de informação sobre os processos de seleção. Até livros já foram publicados. Compre os livros e leia o material disponível; acesse o site de carreiras careers.google.com, com muito conteúdo explicado. Tente pensar do outro lado: ‘O que o Google vai ganhar me contratando?’” Vinícius Felizardo, analista técnico de operação de vendas

DICA 3: VÁ DEVAGAR
Como ter êxito profissional fora do Brasil? “Temos a cultura de querer o sucesso muito rápido. Se você quer ser bom em alguma área, isso vai tomar tempo. Pense nisso e invista tempo. Para ser bem-sucedido no Google, seja pró-ativo. Você pega e faz. Tem um problema, tante resolver. Você terá um título aqui, mas terá que agir para além de suas atribuições.” André Souza, cientista de dados

DICA 4: PENSAMENTO ABERTO PARA NOVAS COISAS
As coisas não nasceram de um dia para o outro. O Facebook demorou dez anos para começar a ser lucrativo. “Para engenheiros de software: pense fora das caixinhas. Liberte-se do pensamento: eu estudei computação e sei apenas computação. Você precisa entender os avanços do mundo e ter opinião formada. Como você pensa sobre os assuntos? É preciso ter noção de como as coisas funcionam.” Thales Filizola, engenheiro de software

Alysson LisboaEnquanto isso, na Netflix...

Formada em Fonoaudiologia, Luciane Carrillo é hoje gerente de experiência do consumidor na Netflix, em Santa Clara, também na Califórnia. Mas, para chegar até lá, ela precisou se reinventar. O primeiro obstáculo foi em relação à falta de domínio da língua inglesa, razão pela qual perdeu várias oportunidades. “Sem inglês você não vai ser ninguém.” Esse foi o conselho que ela escutou e a ajudou a perceber que algo precisava ser feito.
Como o sonho era maior que as pedras pelo caminho, viajou para os Estados Unidos e se dedicou ao aprendizado da língua. Fez vários cursos para aprender inglês e também outros assuntos ligados à gestão nos negócios. Ela confessa que, nos primeiros meses, não entendia absolutamente nada, mas, depois de um ano, a coisa evoluiu, e ela entrou de cabeça no aprendizado da língua.
Luciane chegou a Palo Alto em 2005 e foi acolhida por uma família via o programa de intercâmbio de au pair: ela cuidava das crianças em troca de residência e alimentação. Mesmo com dificuldade com a língua, a brasileira de São Paulo seguiu em frente, largando a família e o consultório montado no Brasil para se dedicar aos estudos. Em resumo: humildade para dar um passo para trás e a crença em um futuro diferente. “Basta ter determinação e saber para onde quer ir”, diz Luciane, entre uma garfada e outra de salada, no restaurante da Netflix.

Um degrau de cada vez
“Vim para aprender inglês e queria voltar para o Brasil. Mas, quando já estava aqui, conheci meu atual marido e decidi ficar. Não poderia transferir minha graduação em Fonoaudiologia para trabalhar nos Estados Unidos. Então, o único caminho era me reinventar”. Como gostava de comunicação, Luciane foi estudar mestrado em Psicologia Organizacional na Universidade de Golden Gate, em San Francisco. Como o curso era muito caro, dividia os estudos com o trabalho de secretária em uma pequena empresa. Foram cinco longos anos até conquistar a vaga na Netflix.
“Aqui, temos liberdade de criar, mas também precisamos assumir as consequências”, relata. Segundo a gerente, o ambiente da empresa favorece a contratação de pessoas pró-ativas e que olham o mundo como um todo. “Produzir muito e trazer resultados: essa é a cultura da empresa”, ressalta ela.
Luciane trabalha na Netflix há aproximadamente sete anos e observou de perto muitas demissões, geralmente, daqueles ex-funcionários que demoravam tempo demais para trazer coisas novas. Como o mercado da tecnologia demanda uma performance dinâmica, inventar e reinventar faz parte do cotidiano profissional.
Os horários de trabalho também são diversos. Ela conta que faz reuniões por telefone enquanto apronta os dois filhos para a escola e enfrenta trânsito, sempre conversando com pessoas do mundo inteiro. “Não há mais espaço para carreiristas, pessoas ligadas a processos sistemáticos do passado ou que buscam um emprego confortável.”
Ela compara a tomada de cena de um filme de Hollywood hoje, de 2 segundos em média, com a década de 1950, de 27 segundos, demonstrando que o mundo pede outro olhar e movimentos mais rápidos. “É preciso ser ágil, produtivo e trazer resultados sólidos e rápidos para as corporações”, conclui.




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