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Tão perto...

Pesquisadores de Oliveira descobrem dois cometas genuinamente brasileiros
Ana Elizabeth Diniz
Edição 129 - 06/06/2014

Calcário - Foto Igor Coelho Agência i7Tão perto ... tão longe. Qual a dimensão do cosmo? Quantos mistérios ele abriga? Esse fascínio pelo universo levou os amigos Cristóvão Jacques, Eduardo Pimentel e João Ribeiro de Barros a inaugurar em 18 de dezembro do ano passado, um observatório astronômico em Oliveira.

Batizado de Sonear - Observatório Austral para Pesquisa de Asteroides Rasantes à Terra - cuja sigla em inglês pode ser lida como so near, tão perto, o observatório já acumula três descobertas que entraram para os registros mundiais: dois cometas e um asteroide genuinamente brasileiros porque foram descobertos por astrônomos brasileiros usando equipamentos nacionais. Apenas nas duas primeiras semanas após a descoberta, o assunto foi alvo de 3.884 publicações no Brasil e no mundo.

O primeiro cometa foi avistado, em um golpe de sorte, no dia 12 de janeiro. Batizado de C/2014 A4 SONEAR estava a 900 milhões de km da Terra. Só para se ter uma referência, a distância da Terra até o Sol é de 150 milhões de km, ou seja, o cometa detectado pelos mineiros estava a uma distância seis vezes maior.

O segundo cometa, avistado em 13 de março, foi batizado de C/2014 E2 (Jacques) em homenagem a Cristóvão, estava a 174 milhões de km da Terra, movimenta-se em direção à constelação de Centauro e era mais brilhante.
No dia 8 de março, foi descoberto um asteroide que recebeu um código provisório 2014 CZ 4, concedido pelo Minor Planet Center (MPC) da União Astronômica Internacional (UAI) até que se obtenha mais elementos orbitais para que seja batizado e receba código e nome definitivo, o que leva em média de três a quatro anos.

O Sonear é particular, não está aberto à visitação pública e conta com tecnologia desenvolvida exclusivamente no Brasil. O telescópio de 130 kg tem uma lente principal de 450 mm de diâmetro e foi construído sob encomenda por Sandro Coletti, em Curitiba. O tubo foi feito pelo engenheiro mecânico aposentado Marcelo Moura. O telescópio está acoplado a um sistema de computador que permite acessar remotamente todas as informações pelo programa Skysift, criado pelo brasileiro Paulo Holvorcem.

“Como temos outras atividades além do observatório, essa tecnologia nos dá a possibilidade de baixar imagens, analisar e descobrir um astro onde quer que estejamos”, comenta o astrônomo João Ribeiro de Barros, o único que mora em Oliveira.

O observatório se dedica ao rastreamento de objetos celestes com trajetória próxima à Terra (NEOs, na sigla em inglês) ou seja, em rota de colisão e, ainda, não se ocupa da descoberta de supernovas, mas no futuro, com a aquisição de outros equipamentos, também poderá fazer essa busca. “A próxima meta é comprar um equipamento de busca de meteoros. Já temos estações em Oliveira, Lagoa Santa, Belo Horizonte e Rio de Janeiro e queremos triangular com outros locais para descobrir corpos celestes que possam entrar na atmosfera da Terra”, analisa João.
A dinâmica cósmica é frenética. “A mecânica celeste não para, tudo está em movimento, a Terra gira ao redor de seu eixo, do eixo do Sol, assim como a Lua e o Sol giram em torno da galáxia, e por aí vai. A estrela mais próxima de nós depois do Sol é a Próxima Centauro que está a 4.2 anos luz. A luz viaja a 300 mil km por segundo”, ensina o astrônomo.

João não esconde o orgulho das descobertas recentes que premiam o investimento financeiro e emocional do grupo. “Estamos satisfeitos em deixar Oliveira registrada na história da ciência. Sabíamos que íamos descobrir algo, mas não tão rápido”. Voltando no tempo, João se lembra de sua infância quando convivia com Vicente Ferreira de Assis Neto, conhecido como Paque, grande astrônomo que foi seu primeiro mestre. “Ele construiu o Observatório do Perau, em São Francisco de Paula, cidade aqui ao lado de Oliveira. Desde então, a astronomia me acompanhou. Ainda pequeno ouvia palavras como luneta, telescópio, astronomia, eclipse, cometa e cresci olhando para o céu”.
Aos 19 anos, já morando em Belo Horizonte para estudar, caminhando pelas ruas do bairro Sagrada Família, João deu de cara com uma tribo diferente que logo identificou como sua. Era Bernardo Riedel, astrônomo, professor e criador de telescópios para vários observatórios do país, que se tornou seu segundo mestre. “Logo fiz amizade e me filiei ao Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais (Ceamig) onde fui conhecendo outros astrônomos como Cristóvão Jacques, o terceiro mestre”, conta.

Com o professor Riedel, João fez seu primeiro curso de iniciação à astronomia e anos mais tarde fez pós-graduação em astronomia em um curso único oferecido pela Universidade Federal de Ouro Preto. Como jornalista, escreveu de 1997 a 2007, no Diário da Tarde, uma coluna semanal sobre astronomia “Olhando para o Céu”. Em 2010, voltou para Oliveira. “Era chegada a hora de realizar o sonho de ter um observatório não observacional, com alta tecnologia, de forma a aproximar o não profissional e o profissional (aquele que recebe para pesquisar)”, conta o astrônomo.
O primeiro passo para efetivar o funcionamento do observatório foi registrá-lo na UAI. “De junho a setembro do ano passado fizemos testes com outros telescópios para acompanhar asteroides já conhecidos até que o MPC nos conferiu um certificado e um registro nos habilitando para fazer pesquisas. Temos acesso aos formulários eletrônicos internacionais o que nos permite comunicar rapidamente qualquer descoberta”, diz João.

E foi o que aconteceu. Logo que descobriram os cometas, os astrônomos enviaram suas coordenadas para o UAI que imediatamente disponibilizou as informações em uma página para que outros astrônomos pudessem confirmar a descoberta, uma praxe da ciência. “No primeiro caso, a confirmação foi feita por um italiano que usou remotamente um telescópio na Austrália e, no segundo cometa, o próprio Cristóvão confirmou a descoberta”.

O Sonear é um projeto de apaixonados pela astronomia que investem seus recursos de assalariados em prol da ciência. “O provedor Vertentes é um parceiro espetacular, mas não temos nenhuma ajuda financeira, seja do governo ou de empresas. Parcerias são bem vindas, mas não quero vincular esse projeto à política”, pondera João.
O cosmo Cometa é um corpo que tem um núcleo rochoso ou metálico coberto por uma capa de gelo e fica distante, lá nos confins do Sistema Solar em uma localidade esférica (em torno do sistema) denominada nuvem de Oort. “Por isso os cometas não têm órbitas como os planetas. Os astrofísicos têm várias teorias para o desequilíbrio que acontece nessas localidades, como a atração exercida pelo Sol e planetas grandes como Júpiter e Saturno, o que propicia o “desgarramento” dos cometas de seu ninho”, ensina João.

Segundo ele, o corpo rochoso sai da nuvem Ooort e é atraído pelo Sol. Durante o caminho, o cometa viaja lentamente, segundo as leis de Kepler, mas ao se aproximar dos planetas e do astro-rei, aumenta a velocidade, parecendo que está tentando escapar da “morte” (ser atraído pelo Sol). Nessa trajetória vai perdendo parte dessa capa de gelo com detritos do Sistema Solar e forma a cauda de vapor e poeira cósmica. O Sol é uma grande estrela massiva, com grande força gravitacional e atrai inúmeros cometas que encontram aí seu final de vida. Em novembro do ano passado, o Ison, considerado o cometa do século, seguia muito brilhante e podia ser visto a olho nu, mas colidiu com o Sol no periélio.

“Inúmeros cometas caem na terra, mas não percebemos porque são infinitamente pequenos. Em 1997, um cometa maior, o Shoemaker-Levy colidiu com Júpiter ao passar em sua órbita, se fragmentou em vários pedaços atirados na sua superfície. Quando o cometa vai se aproximando do Sol, ocorre a evaporação do gelo, que às vezes está impregnado de partículas de poeira cósmica que, junto aos gases do interior de sua estrutura, forma a sua cauda que varia de cor. Cada cometa tem uma personalidade, nunca se repete e por isso é tão especial. Além da sua beleza é um documento fóssil do início do Sistema Solar. Estudar cometas e seus componentes é estudar a formação do Sistema Solar”, observa João.

Já o asteroide é um corpo rochoso que não tem capa de gelo, tem brilho pontual, refletido, porque não tem luz própria. “Quando um cometa é descoberto, todos correm para definir os elementos orbitais daquele corpo celeste para saber justamente se ele oferece risco de colisão com a Terra, quando será sua maior aproximação com o Sol, o periélio, com a Terra (perigeu). O meteoro que caiu na Rússia, no ano passado, com 579 k, não machucou pessoas diretamente, mas os estilhaços de vidro feriram mais de 1.000 pessoas. Ele veio na direção do Sol e, por isso, não foi descoberto a tempo. Daí a importância de projetos como o nosso que podem prever uma colisão com nosso planeta”, adverte João.




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