Maria Helena Cadar: “Estava escrito que esse era meu caminho”
FOTO:MILENE MARQUES
Destaque da Salgueiro por 17 anos, Maria Helena Cadar transforma acervo de fantasias em museu em BH
Desde a infância, o Carnaval faz parte da vida da empresária Maria Helena Salum Cadar. Fantasias feitas pela mãe para ela e a irmã, os bailes em clubes de BH com os pais e, depois, com o marido, o empresário Emir Cadar, só aumentaram o amor pela folia, sua segunda paixão. “A primeira coisa, que é mais importante na minha vida, é meu marido, meu filho e netos, sempre fomos muito unidos. A base da estrutura da nossa família é a união”, afirma.
Em 1991, ela começou a desfilar na avenida, mas foi apenas em 2004 que realizou um sonho. Durante um almoço, recebeu o convite de Maninho, então presidente do Salgueiro e também criador de cavalos Campolina, assim como Emir Cadar, para se tornar um dos destaques da escola de samba carioca. “Minha família sempre foi carnavalesca e eu ainda nasci em fevereiro, então tava no sangue mesmo. Estava escrito que esse era meu caminho”, conta.
Foram 17 anos de brilho, luxo, alegria e várias premiações conquistadas com suas fantasias. Maria Helena só parou em 2021, quando sentiu medo devido à altura do carro alegórico. Foi aí que decidiu que era hora de deixar a avenida. Na despedida, recebeu homenagem e festa da diretoria e dos componentes do Salgueiro.
Parte dessa trajetória de luxo, cores e glamour foi trazida para Belo Horizonte quando ela e o marido decidiram montar um acervo com as 17 fantasias usadas ao longo dos anos. Elas foram instaladas em um grande galpão, transformado em museu, localizado no bairro de Lourdes. As visitas ao local são guiadas e exigem agendamento prévio.
“No primeiro ano que eu saí pela escola, depois que acabou o desfile das campeãs no sábado, meu estilista, o Belisário Cunha, disse que ia desmanchar a fantasia e entregar o material todo limpo e arrumado. O Emir falou: ‘O quê? Desmanchar, nunca. Vou levar tudo para Belo Horizonte’”.
A fantasia foi desmontada, cada peça numerada — especialmente o esplendor —, embalada e transportada de caminhão até a capital mineira, onde foi remontada pelo estilista e sua equipe. O mesmo processo foi feito com todas as demais, algumas com mais de quatro metros, que precisaram ser adaptadas para caber no espaço do museu.
Maria Helena exibe suas fantasias com alegria e orgulho de sua trajetória carnavalesca, marca da por histórias, amizades e o prazer de desfilar. As peças exclusivas, confeccionadas sob medida, foram feitas com penas naturais de pavão e faisão, rabos de galo (permitidos à época), além de plumas, pérolas, miçangas, búzios, arames, ferro, pompons e plástico. Há ainda detalhes banhados a ouro — como os afrescos das igrejas de Ouro Preto — e ricos bordados. Cada fantasia é acompanhada por adornos e acessórios como anéis, brincos, colares e sapatos.
A confecção, ao longo dos anos, ficou a cargo da equipe de Belisário Cunha, formada por bordadeiras, serralheiros, carpinteiros, ferreiros e aderecistas. O toque final, porém, era sempre dele, premiado por diversas criações usadas por Maria Helena. Belisário também realiza a manutenção do acervo uma vez por ano, quando vem a BH verificar o que precisa ser limpo ou restaurado.
O investimento nas fantasias é todo do destaque, mas não pode sair do desenho e do enredo propostos pela escola — regra que permanece até hoje. Os temas dos destaques eram os últimos a serem definidos, e a produção começava em outubro. Maria Helena sempre participou do planejamento de todas as suas roupas junto ao estilista.
“A roupa é tão mais bonita quando bem vestida, a fantasia tem de te representar. Eu visto uma fantasia porque, antes de tudo, eu tenho minha vida com minha família. Faço isso pelo meu prazer, pela minha alegria íntima, pessoal e me preservo muito de qualquer coisa”, afirma.
Na época, o tempo médio de confecção de cada fantasia era de quatro a cinco meses, e elas podiam pesar entre 20 e 30 quilos, exigindo preparo físico e emocional. “Sempre fiz musculação, sou uma pessoa ágil, o que me ajudou. No dia do desfile, eu não bebia nada, somente água. O carro é muito alto, balança, e é preciso estar consciente, atenta e equilibrada”, contou. Mesmo longe dos carros alegóricos, a emoção continua presente. “É como se ainda estivesse na avenida, e a gente torce para que tudo dê certo”, conclui Maria Helena Salum Cadar.

