Documentário foi construído em sete capítulos e reflete sobre nossa relação com a memória
FOTOS/REPRODUÇÃO
Palimpsesto revisita destruição causada por incêndio na reserva técnica do Museu de História Natural da UFMG
“Palimpsesto é um jargão arqueológico utilizado quando objetos de épocas distintas se encontram em um mesmo sítio, por perturbação do solo ou outro motivo”. Foi este conceito que serviu de base para a criação do documentário Palimpsesto, dirigido por André Di Franco e Felipe Canêdo, que também fizeram o roteiro e montagem, com a participação da doutoranda em arqueologia e poeta Lara Passos.
O filme de 63 minutos revisita a destruição causada pelo incêndio em 15 de junho de 2021 da reserva técnica do Museu de História Natural da UFMG, localizado no bairro Horto, Região Leste de Belo Horizonte. Uma perda expressiva de parte do acervo arqueológico, paleontológico e histórico, composto por objetos de mais de 8 mil anos que foram misturados a plásticos e outras coleções mais recentes.
O cineasta, produtor, programador de cinema, arte-educador e antropólogo formado pela UFMG, André Di Franco, explica como surgiu a ideia de criar e produzir seu primeiro longa-metragem com este tema. “Fui convidado, junto com Luiz Malta, pelos professores de antropologia Andrei Isnardis, Mariana Cabral e Rogério Do Pateo para fazermos um registro após o incêndio. Estávamos em meio à pandemia, uma série de voluntários se deslocou para o museu para tentar recuperar parte do que havia sido queimado do acervo”.
André Di Franco conta que Mariana e Andrei afirmaram que esse acontecimento não podia ser esquecido e que precisavam encontrar for mas de pensar, de refletir e de contar o que tinha acontecido. “Quando a gente chegou, a primeira ideia era fazer vídeos de divulgação institucional para o Instagram. Mas depois entendemos que tinha mais ali. Primeiro pensamos em um curta-metragem, mas ele foi crescendo e virou um longa-metragem”, explica.
Palimpsesto acompanha o pós-incêndio e os meses posteriores, tendo como personagens os coordenadores do resgate e os voluntários. Foi sendo construído um ensaio com uma série de perguntas: como seria o fogo; qual o significado da arqueologia; a nossa relação com a memória enquanto país e indivíduos.
Esse ensaio foi elaborado pelos personagens e contou também com uma narradora, Rejane Faria, como uma espécie de arqueóloga distante que encontra esse lugar e tenta entender essas pessoas e o que se passou ali. Na verdade, uma tragédia decorrente de uma espécie de banalidade: o mau funcionamento de um aparelho de ar-condicionado que não teve manutenção.
Palimpsesto é composto por sete capítulos: Coisas; Segunda Morte; Tempo Espiralar; Cama da de Fuligem; Sistema do Futuro; Maracá; e O Evento. Empregando ideias da antropologia e arqueologia contemporâneas, o filme coloca em perspectiva o significado de um incêndio em um acervo de tal magnitude.

No começo, os produtores precisaram empregar equipamentos pessoais e recursos próprios e somente um ano após o trabalho de resgate do acervo, Di Franco, Felipe Canêdo e Luiz Malta conseguiram um pequeno patrocínio por meio da Lei de Incentivo Municipal de Belo Horizonte, o que possibilitou fazer as últimas gravações e a pós-produção do filme.
Todo esse processo durou quatro anos e recebeu, quando ainda estava em produção, três prêmios em ensaios. A estreia ocorreu no Festival de Brasília em dezembro de 2024. A produção é da Quarteto Filmes em parceria com a Almôndega Filmes e Apartamento 00. “É um filme pequeno, sem muita pretensão, mas que a gente fez com um desejo muito grande de ser coerente com as reflexões e afetos das pessoas que viveram o resgate”, conclui Di Franco.

André Di Franco anunciou ainda a produção em andamento de seu segundo longa-metragem, Nemesis e as Baladas Terroristas de Sábado Dinotos. O filme é codirigido por ele e Laura Coggiola, com recursos da Lei Paulo Gustavo, e foi filmado em São Paulo e BH. O filme está em fase de montagem, com previsão de estreia em 2027.
O longa aborda a história de Aladino Felix, também conhecido como Sábado Dimotos, Dino Kraspedon ou Dunatos Menorá. Terrorista de extrema-direita, autoproclamado messias do povo judeu, alegava ter sido contatado por extraterrestres de Júpiter. Em 1968, com o conhecimento dos militares, ele foi o responsável por uma sucessão de atentados a bomba em São Paulo que antecederam o AI-5.
