Vice-presidente celebra acordo entre Mercosul e União Europeia e aponta onde o Brasil precisa avançar
A conclusão do maior acordo de comércio do mundo, envolvendo Mercosul e União Europeia, contou com o dedo dele. A interlocução com grupos de centro e de direita, no Congresso Nacional, passa por ele. Durante a crise das tarifas impostas pelos Estados Unidos, o diálogo com o setor produtivo brasileiro e com Washington ficou a seu cargo. A atuação eficaz do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, é capaz de reduzir tensões e gerar credibilidade pela defesa dos interesses da indústria brasileira. Habilidades pessoais e técnicas fizeram – e fazem – dele, peça estratégica para os resultados do governo Lula.
Otimista com 2026, Geraldo Alckmin concedeu entrevista exclusiva à revista Viver Brasil. Ele é o primeiro convidado do ano do Conexão Empresarial, no dia 9 de fevereiro. Bem humorado, brincou que há dois tipos de ansiosos no mundo: os jornalistas e os políticos. Uma coisa é certa: depois dele, o cargo de vice-presidente não será mais o mesmo.
COMO O SR. SE SENTE EM RELAÇÃO AO MOMENTO ATUAL DO MUNDO: OTIMISTA, PESSIMISTA OU CAUTELOSO?
Otimista! O Brasil é um protagonista da bioeconomia, temos a maior reserva de floresta tropical do mundo. Temos a terceira maior indústria aeronáutica do mundo. Então, o que precisamos, permanentemente, é melhorar, fazer reformas- e eu destaco a reforma tributária, que traz eficiência econômica pois simplifica o manicômio tributário brasileiro. Ela pega IPI, PIS, Cofins, ICMS e desonera a exportação. De acordo com o Ipea, os investimentos no Brasil podem aumentar 17%. É preciso fazer outras reformas, sempre com intui to de melhorar o custo Brasil e a competitividade para a economia crescer mais forte.
O PROGRAMA NOVA INDÚSTRIA BRASIL É UMA DAS APOSTAS DO GOVERNO FEDERAL. ENTRE OS SEIS EIXOS , EM QUAIS ESTAMOS MAIS AVANÇADOS E ONDE PRECISAMOS APERTAR MAIS O PASSO?
Temos seis missões e a primeira é a agroindústria, que vai muito bem. O Brasil terá a maior indústria de alimentos do mundo. Se somos muito competitivos no agro, precisamos agregar valor, gerar mais emprego e ganhar mercado. Para você ter uma ideia sobre como é impressionante a agregação de valor que a indústria e a tecnologia trazem, enquanto um quilo de carne de porco estava em torno de R$ 20, uma válvula aórtica, feita com o pericárdio do porco, custa mais de R$ 60 mil. A missão dois é a saúde. Na Nova Indústria Brasil, a meta é chegar ao final do ano com 50% de produção nacional e 70% até 2030. Temos investimentos vultosos, inclusive em Minas Gerais, com um polo da indústria farmacêutica que está crescendo em Montes Claros: vacinas. A terceira missão: infraestrutura, por meio de saneamento, habitação, moradia. Aqui também há avanço. A quarta é a transição digital. Lançamos o Brasil Semicom, com programas para estimular o desenvolvimento de chips semicondutores. Este é um desafio grande para avançar mais na indústria eletroeletrônica. Destaco também o Redata, que está no Congresso e esperamos aprovação em fevereiro. A quinta missão é a transição ecológica e o Brasil é campeão com o etanol. Na sexta missão, tecnologia de defesa, temos a Embraer como exemplo de sucesso absoluto, presente nos cinco continentes. Neste sentido, Minas Gerais conta com a Iveco (montadora de caminhões e veículos comerciais), em Sete Lagoas.
COMO AS MISSÕES SERÃO VIABILIZADAS?
Por meio de políticas públicas direcionadas à pesquisa, desenvolvimento e inovação. Temos R$ 108 bilhões previstos e uma TR (taxa referencial) de 4% para viabilizar a Nova Indústria Brasil, baseada em inovação, sustentabilidade, competitividade e exportação. Precisamos abrir mercado. Neste sentido, o acordo Mercosul-União Europeia é o maior acordo de blocos do mundo, com 720 milhões de pessoas e US$ 22 trilhões de mercado. Também há crédito financeiro de R$ 3,8 bilhões ao ano para investir em eficiência energética e segurança automotiva por meio do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação).
O PROGRAMA MOVE BRASIL, QUE O SR. ANUNCIOU DIA 8 DE JANEIRO, TEM FINALIDADE DE IMPULSIONAMENTO DE ALGUM DESTES EIXOS?
Até o final do ano passado, quem fosse comprar um caminhão novo pagaria, no Finame, juros entre 22% e 25%. Com o Move Brasil, os juros caem para 13% e 14%. Este é um programa grande para re novação de frota nacional de caminhões e já está vigorando. Visitei uma concessionária em Brasília e os pedidos já estão correndo forte. O Move Brasil se destina ao caminhoneiro autônomo, ao cooperado de logística e ao frotista. Tivemos um bom crescimento ano passado, na exportação de veículos, especialmente para a Argentina, com aumento de mais de 30% de exportação.
COMO A RENOVAÇÃO DESSA FROTA TEM IMPACTO NO RESULTADO DO PAÍS?
A renovação de frota tem importância ambiental; um caminhão com mais de 20 anos polui 40 vezes mais do que um caminhão novo de motor Euro 6, que é muito eficiente energeticamente. Tem impacto na saúde pública: acidentes rodoviários estão entre as maiores causas de mortalidade no Brasil. Estes novos caminhões têm tecnologia muito sofisticada, resultando em menos acidentes. O programa também tem impacto econômico pois a indústria vai fabricar mais, e importância social, refletindo em mais emprego e renda.
QUAIS OS EFEITOS ESPERADOS A PARTIR DA IMPLEMENTAÇÃO DO MOVE BRASIL?
A redução do Custo Brasil porque melhora a logística no país.
COM TODOS OS EXECUTIVOS QUE O BLOG DO PCO TEM CONVERSADO É MENCIONADA A FALTA DE MÃO DE OBRA TÉCNICA. COMO FALAR EM INDÚSTRIA COMPETITIVA E PRODUTIVA SEM MÃO DE OBRA ADEQUADA DISPONÍVEL ?
Nosso foco tem sido os institutos federais. Deve remos viabilizar mais 100 institutos federais, que são exatamente voltados para o mercado de trabalho a partir da verificação de demanda. O ensino técnico faz o casamento perfeito entre educação profissional e a necessidade do mercado de trabalho. Não adianta formar um jovem para um emprego que não existe. A boa notícia é a queda no desemprego. Fechamos o ano com o menor desemprego, 5,4% e a menor inflação, 4,2%, da série histórica. Dois milhões de pessoas saíram do Bolsa Família porque melhoraram a renda. Mas precisamos de um programa de qualificação que passe pela educação, do ensino infantil, fundamental e médio, garantindo que este jovem não abandone a escola. Com o intuito da retenção de alunos, surgiu o programa Pé de Meia, que evitou que meio milhão de jovens abandonassem o ensino médio. Se ele es tiver no Cadastro Único, recebe R$ 200 ao mês para continuar estudando e tem depositado, no fim do ano, R$ 1.000 todo ano, como uma poupança que ele poderá retirar lá na frente. Tudo feito para não haver abandono da escola.
QUAIS FRUTOS O PAÍS DEVERÁ COLHER COM O ACORDO MERCOSUL-UNIÃO EUROPEIA ?
É um acordo histórico, o maior acordo de blocos do mundo formando um mercado de 720 milhões de pessoas e US$ 22 trilhões. Comércio exterior é emprego na veia: estimula investimento, gera mais emprego, melhora a renda, reduz preço, gera ganho ambiental, de sustentabilidade. O acordo fortalece o multilateralismo que o presidente Lula tem defendido, em uma relação ganha-ganha. Ao invés de isolacionismo e hegemonia, vamos fortalecer os blocos econômicos. O acordo também abre mercado, aumentando o comércio exterior. A sociedade ganha com produtos mais baratos e de melhor qualidade. Há, ainda, o compromisso do Brasil contra o desmatamento ilegal. Vamos recompor florestas na Amazônia.
ONDE AINDA HÁ ESPAÇO PARA AMPLIAR MERCADO E EXPORTAÇÕES?
Em 2023, fechamos acordo com Cingapura, ano passado com a European Free Trade Association, composta pela Suíça, Noruega, Liechtenstein e Islândia. Estão entabuladas negociações entre Mercosul-Emirados Árabes Unidos e avançam as conversas entre Mercosul-Canadá. Temos falado com o México e com a Índia não para livre comércio, mas para aumentar linhas tarifárias de preferência. Estive no México a pedido do presidente Lula, com a presidente Cláudia (Cláudia Scheinbaum) e deveremos ter agora, no meio do ano, um avanço importante: a ampliação das linhas tarifárias de preferência em colocar mais produtos no México e eles no Brasil. Na Índia, onde estive, são 1,4 bilhão de pessoas, um mercado consumidor impressionante. Estamos trabalhando para ampliar as linhas tarifárias preferenciais na Índia, também.
O SENHOR TEM LIDERADO, COM SUCESSO, MISSÕES INTERNACIONAIS E DIÁLOGO COM EMPRESÁRIOS. QUAL O VALOR DO CENTRO POLÍTICO NA CONSTRUÇÃO DE CONSENSOS?
Muito importante em um momento em que o mundo vive um crescimento mais baixo, geopolítica instável, conflito. É de grande valor mostrar que é possível fazer acordo, abrir mercado, ter reciprocidade e integração de cadeias produtivas.
