Serafim Jardim, ex-secretário de JK, fala sobre relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos que concluiu que ele foi morto pela ditadura militar
O Brasil vira uma página importante da sua história com a conclusão apontada no relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) de que o ex-presidente Juscelino Kubitschek, foi assassinado pelo regime militar em 1976. Até então, a versão oficial era a de que ele tinha morrido em um acidente de carro. O relatório será votado pela comissão e a certidão de óbito de JK poderá ser retificada. Durante esses 50 anos, como uma espécie de Dom Quixote, o fiel escudeiro do ex-presidente, Serafim Jardim, tentou provar que JK, o político que construiu Brasília e que fez o Brasil avançar 50 anos em cinco, foi assassinado. Com mais de 90 anos de idade, Serafim Jardim fala em reparação histórica e lamenta lutar sozinho, sem nenhum apoio, para manter a Casa de JK, em Diamantina.
O SENHOR SEMPRE DEFENDEU QUE O EX-PRESIDENTE JUSCELINO FOI VÍTIMA DE UM ASSASSINATO. POR QUÊ?
Eu cheguei a escrever um livro Onde está a verdade?, com vários documentos que provam que o presidente foi assassinado. O que aconteceu é que Juscelino saiu de São Paulo, ele e o Geraldo, o seu motorista, que parou em Rezende, no Rio de Janeiro. Eles vão até o hotel-fazenda, que era, inclusive, de um mi litar que criou SNI. Eles ficam ali de 40 a 45 minutos. O jornalista Carlos Heitor Cony, em um depoimento, me disse que era repórter da revista Manchete e foi fazer a matéria dois dias depois do acidente, foi até esse hotel-fazenda e perguntou ao guardador de carro se ele tinha visto alguma coisa sobre o carro do JK. O guardador disse a ele que, quando o Geraldo deu ré, perguntou a ele, “mexeram no meu carro”? Então, está mais do que provado que esse carro do presidente foi mexido. Eu acredito que foi no conduíte que leva o óleo ao freio. Eu tenho praticamente certeza de que o presidente, quando ele parou neste hotel-fazenda, eles mexeram no carro e, quando Geraldo saiu com o carro, entrou na contra mão e veio um caminhão. Mas não havia um caminhão no local indicado e o motorista do ônibus que teria presenciado o acidente, relatou não ter visto nenhuma colisão e também negou que o carro tenha batido no ônibus. O ônibus jamais bateu nesse carro de Juscelino. Hoje fico feliz porque há 30 anos eu venho batalhando e tenho certeza de que o presidente foi assassinado pelos homens de 1964. Não resta dúvida.
ALTERAR A CERTIDÃO É UMA REPARAÇÃO HISTÓRICA?
É uma reparação e precisava ser feita. Um presidente como foi JK, que construiu uma Brasília, que fez 50 anos em cinco morrer devido a um acidente de carro na estrada? Isso é um absurdo. Tem de ser reparado. Tem de mostrar que o presidente foi assassinado e eles agora estão reconhecendo isso.
POR QUE ELES TINHAM TANTO TEMOR DO JUSCELINO?
Veja o que aconteceu na época. Em 272 dias morreram Juscelino, Jango (João Goulart) e Carlos Lacerda, os três líderes da frente ampla. Todos os três morreram sem ninguém saber o que aconteceu de verdade. Até hoje ninguém sabe direito como Juscelino morreu, como Lacerda morreu e nem o Jango. Existe uma carta famosa do Contreras, o Juan Manuel Contreras, que era chefe do Serviço Nacional de Informações do Chile. E ele faz uma carta com informações do Brasil enviadas ao general João Batista Figueiredo. Ele dizia que a vitória de Jimmy Carter nos Estados Unido iria beneficiar a dois políticos no cone sul, Kubistchek no Brasil e Orlando Letelier no Chile. Mataram Kubitschek em agosto e mataram Letelier em setembro. Só que mataram o Orlando em Washington, capital dos Esta dos Unidos e o americano não deixa passar nada por debaixo do pano. Então, o Contreras foi preso, ficou oito anos e meio preso. Os dois que colocaram a bomba no carro do Orlando Letelier foram condenados à prisão perpétua e devem estar presos até hoje. Agora aqui no Brasil não acontece nada, infelizmente. Desde a época do governo Dilma eles abriram os documentos secretos e ficou por isso mesmo. Queriam provar que o Juscelino tinha morri do em um acidente de estrada. E eu venho há 30 anos que eu venho lutando, provando que o presidente foi assassinado. Ele foi exilado. Ele foi cassado, foi asilado e foi morto pelos homens de 1964.
A HISTÓRIA DO BRASIL PODERIA TER SIDO DIFERENTE SE ESSES TRÊS LÍDERES POLÍTICOS BRASILEIROS NÃO TIVESSEM SIDO MORTOS?
Não resta dúvida. A meu ver, foram duas coisas muito importantes que aconteceram nesse país, a renúncia do Jânio Quadros e o Tancredo não ter tomado posse como presidente da República, o Brasil seria outro. Se o Jânio não renuncia, o que ia acontecer? Ele chegaria até o final do governo e o JK seria candidato em 1965 e com grandes possibilidades de ser eleito presidente da Re pública novamente. Então, a história do Brasil seria completamente diferente. E eles não deixaram, os homens da Escola Superior de Guerra, a UDN e o embaixador americano Lincoln Gordon. Não resta dúvida de que eles que fizeram a famosa “revolução”, que para mim foi um “golpe”, não foi revolução.
ATUALMENTE POLÍTICOS QUEREM SE ESPELHAR EM JK PARA SE APRESENTAR AO ELEITOR. TEM ALGUM POLÍTICO COM AS CARAC TERÍSTICAS DELE ATUANDO NO PAÍS?
O único político que eu vejo e que, infelizmente, fizeram muita maldade com ele e que tem alguma semelhança, pela simpatia, pelo sorriso e por realizar obras, é o Aécio Neves, não resta dúvida. Esse aí tem alguma coisa do Juscelino. Hoje é muito difícil encontrar outro JK, mas se tiver de citar alguns políticos que têm alguma coisa que se pareça com o presidente JK, o riso, o semblante, o coração, a realização que o JK sempre entregou, para mim seria esse, o Aécio. O resto de político que vive falando que se parece e só na época da eleição aparece e não faz nada. Eu, por exemplo, estou aqui na casa de JK, em Diamantina, veja você, só na casa de Juscelino, onde estou há 44 anos, em um sofrimento grande, imenso para mantê-la, porque tem oito anos que o governo não põe aqui R$ 1 sequer. Além disso, fizeram inúmeras maldades comigo. Eu sofri terrivelmente.
O QUE ACONTECEU?
O Zema, desde que assumiu o governo, não colocou aqui R$ 1 e o secretário de Cultura dele abriu vários processos contra mim, de uma maldade sem tamanho. Eu ganhei todos eles. Eu estou mantendo a casa, graças a Deus, com visitação. Em Diamantina, existem duas coisas com relação a JK, a estátua dele, que foi inaugurada por ele em 1958, e a Casa de JK, que é visitada, que é a mais visitada da cidade. Com o tempo acompanhando o presidente, eu estou há 59 anos ao lado dele. São 50 anos depois da morte.
O SENHOR ACHA QUE AGORA A HISTÓRIA BRASILEIRA VAI SER REESCRITA?
Acredito que sim. Quando eu reabri o caso da morte dele, 20 anos depois do acidente, o caso foi arquivado. O processo foi reaberto novamente dois anos depois pela Câmara dos Deputados. Os deputados viajaram para o Paraguai, para o Chile, foram aos Estados Unidos e voltaram, mas, infelizmente não conseguiram avançar. Agora, nós vamos em frente. Vamos à luta.
ATUALMENTE, O QUE O SENHOR ESTÁ ACHANDO DO QUADRO POLÍTICO?
Hoje não temos mais políticos. Não temos. Acabou. Eu hoje fico aguardando, esperando que apareça um outro aí, um outro JK. Hoje, na Câmara dos Deputados, eles recebem as emendas, distribuem para os prefeitos e pronto. Então são reeleitos. E continuam, infelizmente não dão margem à renovação. Mas eu estou muito feliz com o que está acontecendo com relação à decisão sobre a morte do presidente, porque eu sempre batalhei e em 1996 eu reabri o caso da morte dele, escrevi um livro e provo há 30 anos que o Juscelino foi cassado, exilado e morto pelos homens de 64. Não resta dúvida.
