A política mundial vive uma fase quase circense. Personagens que, há alguns anos, dificilmente chegariam ao centro do poder, tornaram-se protagonistas. Muitas vezes, experiência, conhecimento e capacidade de articulação cedem espaço ao espetáculo e à habilidade de conquistar atenção nas redes sociais.
A possível candidatura do senador Cleitinho ao governo de Minas é nossa versão desse fenômeno. Sua trajetória foi construída principalmente com vídeos indignados com pedidos de compartilhamento, linguagem direta e grande exposição nas redes. Hoje, é um candidato competitivo e vencendo poderá surpreender e crescer no cargo.
Não seria o primeiro político a surpreender seus críticos. Mas governar é muito diferente de gravar vídeos. Exige montar equipes, negociar com a Assembleia, prefeitos e servidores, enfrentar interesses contraditórios, administrar um orçamento e uma dívida igualmente gigantescos e transformar indignação em resultados.
O fenômeno está longe de ser apenas brasileiro. Nos Estados Unidos, Donald Trump, um político essencialmente performático, continua dominando o debate eleitoral, embora enfrente crescente desgaste e eleições legislativas que poderão até levar ao seu impeachment.
Na Hungria, Viktor Orbán perdeu as eleições; na Argentina, Javier Milei precisa provar que sua revolução política produzirá resultados positivos para a população. No Brasil, a força eleitoral do bolsonarismo também voltará a ser testada.
Talvez estejamos assistindo ao fim de um ciclo especialmente favorável à direita populista. Se vier uma nova onda de vitórias da esquerda, não significará seu triunfo definitivo. Será apenas o pêndulo democrático se movimentando, na saudável alternância de poder que é uma das grandes virtudes da democracia.
O verdadeiro democrata é aquele capaz de aceitar que milhões de pessoas honestas e inteligentes podem decidir seus votos de outra maneira. Democracia, afinal, é o direito de vencer e a obrigação de saber perder.
E não poderia deixar de dizer: a volta do debate sobre a vacina da Covid é ao mesmo tempo uma ofensa intelectual e um crime contra a saúde pública. Chega.
DEMOCRACIA, AFINAL, É O DIREITO DE VENCER E A OBRIGAÇÃO DE SABER PERDER
