Na programação infantil está A cangaceira surda mara, com Lyvia Cruz (CE)
Acessa BH amplia protagonismo de pessoas com deficiência na cultura
A acessibilidade ainda costuma ser tratada como uma adaptação feita depois que um espetáculo, evento ou espaço cultural já está pronto. Para o Festival Acessa BH, a lógica é outra: ela deve estar presente desde o início, orientando a criação artística, a escolha dos espaços, a comunicação, a produção e a experiência do público.
É a partir dessa perspectiva que o evento chega à sexta edição, entre os dias 4 e 27 de setembro, com cerca de 30 atividades gratuitas distribuídas por cinco instituições culturais de Belo Horizonte. Mais do que reunir apresentações acessíveis, o festival busca ampliar a presença e o protagonismo de pessoas com deficiência em diferentes etapas da cadeia cultural.
“O Acessa BH contribui ao colocar a acessibilidade no centro da criação cultural, e não apenas como um recurso complementar”, afirma a idealizadora e curadora do festival, Lais Vitral. Segundo ela, a iniciativa abre espaço para que pessoas com deficiência atuem como artistas, produtoras, curadoras, pesquisadoras e protagonistas de suas próprias narrativas.
Um dos diferenciais do festival está na participação de uma equipe de consultores em acessibilidade, que acompanha o desenvolvimento do evento e contribui para decisões relacionadas à programação, à identidade visual, aos espaços, à comunicação e aos recursos necessários para cada atividade.

A proposta também se reflete na relação com o público. Em vez de promover sessões exclusivas para pessoas com deficiência, o Acessa BH estrutura suas atividades para que pessoas com e sem deficiência possam participar e vivenciar a programação em conjunto.
“Todas as sessões permitem o acesso de todas as pessoas. Pensar a acessibilidade desde a concepção significa incorporá-la em todas as etapas do pro cesso, desde a escolha dos espaços até a criação artística, a comunicação, a produção e a experiência do público”, explica Lais.
Essa visão amplia o conceito de acessibilidade para além da eliminação de barreiras físicas. Recursos como audiodescrição, interpretação em Libras, informações em formatos acessíveis e linguagem simples buscam garantir não apenas a entrada nos espaços, mas também a compreensão, a fruição e a participação efetiva nas atividades.
Ao chegar à sexta edição, o festival também observa mudanças na relação entre artistas com deficiência, instituições culturais e público. Se, nos primeiros anos, havia um esforço maior de sensibilização e abertura de espaços, hoje algumas instituições passaram a compreender a acessibilidade e a inclusão como elementos estruturantes de suas programações, e não apenas como ações pontuais.

Para a curadora, artistas com deficiência conquistaram maior visibilidade e reconhecimento por suas produções, deixando de ser vistos exclusivamente pela perspectiva da deficiência. Entre o público, houve um crescimento do interesse por diferentes linguagens e experiências estéticas.
Apesar dos avanços, ainda existem desafios. A falta de investimento contínuo em acessibilidade, a escassez de oportunidades de formação e contratação, as barreiras arquitetônicas e comunicacionais e a baixa representatividade em cargos de curadoria, gestão e tomada de decisão ainda limitam a participação de pessoas com deficiência no setor cultural.
Para Lais, é preciso superar a ideia de que a acessibilidade representa um custo extra ou um recurso pontual. “O objetivo é que a presença de artistas, produtores, técnicos e gestores com deficiência seja parte natural da cena cultural, e não resultado de projetos isolados”, afirma. “A inclusão efetiva acontece quando a acessibilidade deixa de ser um diferencial e passa a ser um compromisso permanente do setor cultural.”
A programação reúne artistas de seis estados brasileiros — Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, São Paulo e Santa Catarina —, além de uma atração internacional, do Reino Unido. Teatro, dança, música, performance, cinema, oficinas, rodas de conversa e lançamentos de livros integram o festival. Entre os destaques está o espetáculo Surda, protagonizado por Benedita Casé Zerbini, que aborda os impactos da perda de audição nas relações familiares, afetivas e profissionais. Ao reunir diferentes linguagens e experiências, o Acessa BH amplia o espaço para narrativas e perspectivas que ainda encontram barreiras para ocupar a cena cultural.
