ANDRÉ GIFFONI
A REVOLUÇÃO DA IA: MOVIMENTOS QUE EU VI NO ALIBABA NA CHINA
Reprodução/Internet
Eu cresci ouvindo que a China era o “bicho-papão”. Talvez você também. Mas quando estive lá pela primeira vez, em 2019, três meses antes do mundo entrar em lockdown, algo mudou dentro de mim. Encontrei um país com 17 cidades acima de 10 milhões de habitantes, todas tão ou mais impressionantes que Nova York. Vi uma nação digitalizada, com vendas online superando 30% do varejo, já naquela época. No Brasil, mesmo em 2026, seguimos abaixo de 20%. A viagem mexeu comigo: algo grande estava chegando. E chegou.
Voltei agora, em 2025, para participar do Netpreneur Program, da AGI – Alibaba Global Initiatives. Dessa vez, sem grupo de executivos, sem guia, sem “proteções”. Foi uma jornada solo e transformadora. Em Hangzhou, vivi a China real: estradas perfeitas, prédios ainda maiores, flores e jardins sob cada viaduto e, principal mente, a revolução de IA em pleno movimento, como nunca vi antes. A mudança que a internet trouxe vai fazer parecer que demorou séculos comparada à velocidade com que a IA está avançando. Diante disso, toda empresa deveria mirar o mesmo objetivo: ser AI-empowered. Quem dominar a IA, dominará a próxima fonte de poder do mundo. Este texto não é uma crítica ao Brasil nem uma devoção à China, é apenas um convite: podemos muito mais!
A IA é silenciosa. As grandes revoluções foram visíveis – agrícola, elétrica, internet, mas esta nova revolução é invisível e poderosa. Está por trás de tudo, escalando a inteligência humana sem ser vista. Hangzhou tem o City Brain, que não é um cérebro gigante, mas milhares de agentes de IA operando em tempo real. Um exemplo simples: basta olhar pra cima, no semáforo, tem um agente que analisa o trânsito e cria um corredor verde para ambulâncias ou bloqueia cruzamentos antes que sejam fechados. É como escalar milhares de policiais ao mesmo tempo. Onde tiver inteligência podemos escalar em IA, vale para exames médicos, tratamento da água ou logística de entrega. Tudo pode ter um agente de IA. Comece respondendo três perguntas: qual problema quero resolver, qual impacto para o cliente e para o negócio, e o que devo priorizar primeiro.
Se você ainda não entendeu o que é um agente de IA, cuidado! GPT e Gemini são por tas de entrada: modelos generalistas. O Alibaba seguiu outro caminho: a especialização. Criou agentes focados em problemas específicos, com missão, dados e modelo próprio. O segredo está em dados organizados, automação e um protocolo de comunicação. O mais usado hoje é o MCP (Model Context Protocol), que permite que um agente converse com outro. Um agente recebe inputs, processa com IA e devolve ações reais. A automação de todo processo é feita em plataformas como N8N ou Amazon Bedrock, tudo se conecta e a magia acontece. Dentro do Alibaba, vi um agente que monitorava tendências e sugeria novos produtos com design, imagem e especificações prontas. Ele detectou o boom do copo Stanley, sugeriu novas cores e previu demandas por categorias. Só falta mandar produzir (se é que ainda falta).
Nesta nova onda tecnológica, você é literal mente a interface. No LLM, o L de language nos conecta à máquina sem precisar programar, viramos o hardware. A interface pode ser voz, texto, gesto ou face. Na China, paguei contas, entrei no hotel e até no avião com o rosto. Essa revolução vai unir o online e offline como uma coisa só. No Museu do Futuro de Hangzhou, vi óculos inteligentes, comuns, de grau ou sol, que transformarão a forma de comprar. Imagine olhar para um produto em uma loja física e, pelas lentes, ver preços online, cupons, com parações e pagamento imediato? Vai mudar o varejo.
Com o Intentional Commerce o processo de compra também muda. Ao invés de buscar, filtrar, escolher e clicar, você apenas expressa uma intenção: “quero a compra básica da se mana”. O agente entende, sugere opções e você paga. É como conversar com o melhor vendedor que já te atendeu, só que escalado por IA. A loja terá que chegar até o cliente. Em elevadores de shoppings que fui, vi dois clientes e seis entregadores. Patinetes, motos, minicarros, bicicletas, overboards e, em breve, robôs autônomos. Quem entrega rápido vence. Para isso, é preciso inteligência para separar, embalar, escolher modal, roteirizar e resolver a não entrega. E sim, vai ter robô.
COM O INTENTIONAL COMMERCE O PROCESSO DE COMPRA TAMBÉM MUDA.A LOJA TERÁ QUE CHEGAR ATÉ O CLIENTE.
Os robôs estarão entre nós no dia a dia. Em Xangai, um robô me vendeu água, dentro da loja que só ele cuida. No hotel Flyzoo, robôs ser viram meu jantar. Eles não são mais máquinas repetitivas, agora aprendem e se adaptam, ganharam nossos cérebros com a IA. A sensação de andar entre eles no Flyzoo Hotel é incrível, eles passam pertinho da gente, estão fluidos, livres, leves e soltos e vão se tornar parte do cotidiano.
O novo varejo inteligente: IA, automação e robôs. A Luckin Coffee, com 20 mil lojas, compete com a Starbucks. A diferença está no modelo de decisão. Uma opera pela intuição humana; outra escala inteligência com IA. O resultado é impressionante: enquanto uma lança de 8 a 12 produtos por ano, a outra lançou 119 drinks em 2024, com ciclo de três semanas e taxa de acerto acima de 60%. Não é humano contra máquina, é humano com o melhor da máquina.
O marketing e a forma de se conectar com o cliente mudaram. Na China, 95% do inves timento já é digital, personalizado, automatizado e ativado em real time. Em 2015, eram 30%. Os agentes de IA geram campanhas one-to-one em tempo real. Visitei a JoyMedia, uma MCN (Multiple Channel Netwok) que impacta 2 bilhões de pessoas e coordena milhares de criadores de conteúdo. Eles produzem filmes, lives, séries e posts para marcas que querem estar onde o cliente está. A eficiência é impressionante. Mas a China sempre surpreende e não para por aí. Lá já existe o agente de AI Live Streaming; de acordo com os produtos escolhi dos e suas informações. A start-up MyTwins.ai criou um agente que gera o avatar da pessoa, o avatar do produto e cria lives interagindo com os clientes, faz TUDO e você terá dificuldade de saber se é real ou não. O valor é SaaS (Software as a Service), ¥ 10 Yuan por hora.
O ESFORÇO DIÁRIO É PROPORCIONAL AO RETORNO, ISSO MOLDOU UMA CULTURA FOCADA, PERSISTENTE E ORIENTADA A RESULTADOS
E aí entra a cultura. Diferente do cultivo do trigo no ocidente que depende mais do clima e da terra, a cultura do arroz no oriente exige disciplina diária, atenção aos detalhes e traba lho constante. O esforço diário é proporcional ao retorno, isso moldou uma cultura focada, persistente e orientada a resultados. Sucesso vem do esforço, não apenas do talento. Essa mentalidade está viva. No China Fashion Technology Innovation Institute, encontrei uma cadeia inteira sendo revolucionada, do algo dão ao provador digital de roupas, unida pelo pensamento de crescimento, tecnologia e eficiência. Na China não há visão de crescimento sem inovação. Na era digital, autonomia com responsabilidade é essencial. Chandee, um dos primeiros colaboradores do Alibaba, disse algo importante: “se quer inovar, precisa de visão, missão, valores e alinhamento. Comando e controle não permitem isso”. Menos piscina de bolinhas e chopeira. Mais propósito, clareza e execução.
O ESFORÇO DIÁRIO É PROPORCIONAL AO RETORNO, ISSO MOLDOU UMA CULTURA FOCADA, PERSISTENTE E ORIENTADA A RESULTADOS
Execução é a palavra final. No Alibaba, li os valores nas paredes: “Se não agora, quando? Se não sou eu, quem? ”; “A melhor performance de hoje é a base de amanhã”; “Confiança torna tudo mais simples”. O chinês tem visão grandiosa, o planejamento do país é organizado em ciclos de cinco anos, mas tudo depende da execução. E é esse pragmatismo que explica por que da janela do meu quarto vi dois prédios com mais de cem andares em Xangai. Detalhes bem executados constroem gigantes, como as flores plantadas nos canteiros das rodovias. São símbolos silenciosos de uma nação que tirou 800 milhões de pessoas da pobreza em 40 anos. O enriquecimento é glorioso. E o futuro está chamando: ele quer aqueles que desejam executar, e nosso país e negócios precisam disto. Lanço o MQAF, Movimento Quem tá a fim de Fazer. Quem vem comigo?
