Da redação

Maioria dos casos de câncer de pulmão no SUS é descoberta em fase avançada

O câncer de pulmão continua sendo identificado, na maior parte das vezes, apenas quando a doença já está em estágio avançado. Dados analisados pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, com base em registros do Sistema Único de Saúde (SUS), mostram que quase nove em cada dez pacientes com estadiamento identificado receberam o diagnóstico nas fases 3 ou 4, cenário em que as possibilidades de cura são significativamente menores. 

Segundo a Agência Brasil, a plataforma Data Câncer 360º avaliou 14.145 diagnósticos registrados no SUS em 2023. Entre os casos que continham informações sobre o estágio da doença, 89,6% correspondiam aos estágios 3 ou 4, o equivalente a 7.267 pacientes. Apenas 698 pessoas, ou 10,4% do total, descobriram o tumor nas fases iniciais, sendo 307 no estágio 1 e 391 no estágio 2.

Diagnóstico precoce ainda enfrenta obstáculos

Segundo o oncologista Igor Morbeck, integrante do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, o câncer de pulmão costuma evoluir de forma silenciosa. Quando surgem manifestações clínicas, elas frequentemente se confundem com problemas respiratórios comuns, como tosse, falta de ar, bronquite, asma ou gripe, o que contribui para o adiamento da investigação médica.

O especialista afirma que pessoas com fatores de risco, especialmente fumantes e ex-fumantes, deveriam realizar uma tomografia computadorizada de tórax todos os anos. Ele lembra que o exame está disponível no SUS, mas destaca a ausência de um programa nacional de rastreamento voltado ao diagnóstico precoce da doença, o que dificulta a identificação dos casos antes da evolução do tumor.

Outro problema apontado pelo estudo é a deficiência nas informações registradas sobre os pacientes. Em cerca de 40% dos casos, não há dados sobre o tamanho do tumor ou a existência de metástases. Do total de diagnósticos analisados, 3.857 tiveram o estadiamento classificado como ignorado e outros 2.100 foram registrados como não aplicáveis.

Morbeck também alerta que o raio X de tórax não é suficiente para investigar suspeitas de câncer de pulmão. De acordo com ele, muitos pacientes passam apenas por esse exame nas unidades básicas de saúde, recebem medicamentos, como antibióticos, e retornam para casa sem o diagnóstico correto, enquanto a doença continua avançando.

Campanha reforça prevenção e rastreamento

O oncologista defende que o Ministério da Saúde amplie as ações de conscientização e implemente estratégias para identificar pessoas com maior risco, permitindo o agendamento de tomografias de forma mais ágil. Na avaliação dele, detectar o câncer em estágios iniciais reduz custos para o sistema público de saúde e amplia as possibilidades de tratamento curativo.

Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam que o Brasil deverá registrar 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano no triênio 2026-2028. Em 2024, a doença foi responsável por 32.555 mortes no país. 

Embora o tabagismo esteja relacionado a aproximadamente 85% dos casos, o Instituto Lado a Lado pela Vida ressalta que fatores como poluição do ar, exposição ocupacional a agentes químicos, predisposição genética e doenças pulmonares crônicas também devem ser considerados nas estratégias de rastreamento. A campanha Respire Agosto busca ampliar a conscientização sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

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