Raquel Ayres

EU PUS A MÃO NA MASSA, EU SEI FAZER

Alexandre Kalil , pré-candidato ao governo de Minas

 

Pré-candidato ao governo de Minas, ex-prefeito de BH fala sobre planos para dívida de Minas, PPPs e saúde se for eleito

 

Alexandre Kalil está novamente no pleito para o governo do estado de Minas Gerais, trazendo para o debate a experiência de quem foi prefeito de Belo Horizonte por dois mandatos consecutivos, inclusive recebendo medalha de mérito pela gestão municipal durante a pandemia de Covid-19. Kalil, filiado ao PDT, construiu sua trajetória política com um estilo direto e conexão com o eleitorado urbano.

Ao se apresentar como candidato ao Palácio Tiradentes, Kalil busca ampliar seu alcance para todo o estado, defendendo a melhoria dos serviços públicos e tendo como argumento favorável a sua experiência de quem já fez. Alexandre Kalil se coloca como alternativa competitiva na sucessão do governo de Minas Gerais e provoca: “ Eu pus a mão na massa quando fui prefeito”, “Eu sei fazer.”

POR QUE VOLTAR À POLÍTICA?

Eu não estou voltando, eu perdi uma eleição. E acho que quando a gente perde uma eleição vai para casa, olha o que deu certo, o que deu errado e faz uma avaliação. Então, perdi uma para governador e agora é que vai ter a outra. Sou candidato, novamente, ao governo do estado de Minas Gerais.

DURANTE ESTE PERÍODO, O SR. POUCO SE MANIFESTOU COMO OPOSIÇÃO.

Fiquei em um período sabático, que é o que todo político derrotado deve fazer para não atrapalhar o que está em exercício. O que eu tinha para falar sobre não construir hospital, que era tudo mentira, que Minas não está no trilho, falei há quatro anos.

QUAIS FORAM AS CRÍTICAS À GESTÃO ÀQUELA ÉPOCA? O SR. MANTÉM ?

Eu falei que tudo que estava se falando era mentira. Que nada ia ser feito. Falei que as es tradas de Minas estavam arrebentadas, escangalhadas. Falei que Minas vivia do dinheiro da tragédia da Vale e de liminar do Supremo. O pilar do governo Zema foi: eu não pago nada e recebo uma fortuna da Vale. Então não houve gestão, não houve corte de gastos. Não houve nada; foi uma farra que culminou na privatização da Copasa.

COMO AVALIA A PRIVATIZAÇÃO DA COPASA?

Está presa esta privatização da Copasa e não vai sair tão cedo. Porque tem muita coisa para explicar. O governo está acabando, para que essa pressa? Ainda bem que o Tribunal de Contas deu esse alerta. Não tem que ter pressa.

CASO ELEITO GOVERNADOR, DAR CONTINUIDADE ÀS PRIVATIZAÇÕES ESTÁ NO SEU RADAR?

Não tenho dúvida de que a estrada privatizada é muito melhor do que a pública. Mas é preciso que a concessão seja fiscalizada. Vamos privatizar? Vamos, mas precisamos ter agência fiscalizadora. Pedágio está caro, está barato? Aí é discutir na ANTT. O caminho é privatizar e ter uma agência séria para tomar conta. Senão acontece o que estamos vendo em São Paulo: privatizaram a energia mas não cuidaram da agência de fiscalização. O hospital do Barreiro, por exemplo, é uma PPP, fui eu que fiz. De escola, saúde, em todos estes segmentos, fiz. E acho que o modelo de PPP tem espaço para se desdobrar em Minas.

O SR. ESTEVE CONVERSANDO COM PSOL E REDE EM BRASÍLIA. ESTÃO COSTURANDO, JÁ, OS APOIOS?

Quem é bom, não briga comigo. Os que estão brigados comigo, cada um sabe o que fez. Eu fui convidado, pelo presidente da Rede, enquanto estava em Brasília, para uma conversa. Participaram os deputados Duda Salabert, André Janones e Célia Xakriabá. Eles me acompanharam na época da prefeitura de Belo Horizonte e viram como a banda toca. Posso ser malcriado e mal-educado e pode não parecer, mas tenho bom coração. Não acho que tem que colocar escavadeira em cima de mendigo.

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS PROBLEMAS DE MINAS GERAIS, HOJE ?

Vamos tratar estes assuntos com muita seriedade. Temos problemas muito graves: uma dívida, para a qual tem que ser feito um comitê de crise no dia 1º de janeiro, para trabalhar exclusivamente junto à secretaria da Fazenda. Um governador sério vai ter que sentar em Brasília e dizer que com a atual proposta do Propag não dá para Minas Gerais viver. O atual governo teve R$ 5 bilhões, cash, para fazer o Rodoanel. Em quatro anos não foi colocada uma estaca para iniciar a obra. Nem a terraplanagem começou. É preciso um programa de manutenção de estradas urgente. Não adianta, também, sentar no buraco e fazer live. Nós temos que tapar o buraco. E eu sei fazer. Sei onde buscar dinheiro, como fazer para sobrar dinheiro.

E QUAIS PROPOSTAS O SR. TERIA PARA ELES ?

É preciso aparelhar quem sabe fazer. Ninguém faz infraestrutura no estado sem um corpo técnico. O maior problema do estado, hoje, é a saúde, que está abandonada. O governador pediu 10 dias para apresentar cronograma para um hospital que tem vaza mento. Imagina se um governador deste vai fazer um programa de infraestrutura!

Não tem prioridade, não tem programa, não tem projeto para um estado quebrado. Pegou o estado e quebrou ainda mais. Vão ter que explicar um monte de coisa, subsídios. Ou vão ficar falando em coisas abstratas como ser antissistema, democracia. Eu quero falar em coisas que melhorem a vida do povo.

COMO O SR. PRETENDE TRATAR A QUESTÃO DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA?

Eu já tratei deste assunto e pus a mão na massa quando fui prefeito. Alugamos hotéis reformados na Santos Dumont e tentamos colocar os moradores de rua lá. Mas esta é uma questão também municipal e federal. Um problema grave mundial: Tóquio, Nova York, têm moradores de rua. Para ser sincero, este não é um problema do governador. É um problema federal, para ser resolvido por meio do Minha Casa, Minha Vida, e também questão municipal. Agora, o que não pode é virar o rosto, ou tirar gente com escavadeira como se fosse entulho.

DE ACORDO COM PESQUISAS DATAFOLHA, O ÚNICO TEMA QUE PREOCUPA O BRASILEIRO MAIS DO QUE A SEGURANÇA PÚBLICA É A SAÚDE.

E quando a coisa aperta na saúde, quem dá conta do recado é o estado. Olha o sistema de saúde da Inglaterra. Para vacinar, por exemplo, todos nós entramos na mesma fila. Os Esta dos Unidos tentaram copiar o SUS do Brasil. Aí eu pergunto: Estado zero, como? Estado é saúde, educação e segurança. Está na Constituição.

COMO É PARA VOCÊ MANTER UM CANAL DE DIÁLOGO COM O GOVERNO FEDERAL?

Primeiramente, nós vamos retornar a li turgia do cargo. Eu vou comunicar ao Brasil que tem um cara que é o governador de Minas Gerais sentado numa cadeira. Minas, que é o segundo estado do país. O governador de Minas tem que ser recebido pelo presidente da República em, no máximo, dois dias, seja o governador quem for. E tem que ser tratado como governador de Minas Gerais.

QUANDO O SR. FOI PREFEITO, JÁ HAVIA TRÂNSITO COM BRASÍLIA, UMA VEZ QUE DURANTE SEU PRIMEIRO MANDATO ESTÁVAMOS NA PANDEMIA?

Como prefeito de Belo Horizonte eu falava com o presidente da República a hora que eu queria. E foi assim que nós abrimos hospitais, em sete meses, 544 leitos. Não conhecia o presidente Michel Temer. Nunca tinha visto, nem sequer falado ao telefone. Se for o Lula, tenho uma facilidade imensa: nunca ofendi o presidente, nunca falei mal dele. Tenho uma relação cordial. O Flávio Bolsonaro, que não conheço, eu vou bater à porta e me apresentar como governador de Minas Gerais. Se for o Caiado, a mesma coisa.

O SR. VEM DO MEIO EMPRESARIAL E DO FUTEBOL. COMO ESTES UNIVERSOS INFLUENCIAM SUA VISÃO DE GESTOR PÚBLICO?

Não tenho esta visão do estado que dá vale–ás, vale isso e vale aquilo. Tem um limite. Sou a favor de uma Bolsa Família com prazo deter minado e outros programas, mas não a favor de ir fazendo despesas. Mas um governo que arrecada R$ 250 bilhões não consegue cortar R$ 5 bilhões em um ano? Isso é gestão? É Minas no trilho? Isto é uma vergonha!